Análise: Little Nightmares é um macabro e divertido jogo de plataforma

Quando a personagem principal, Six, de Little Nightmares acordou dentro de uma mala de viagem em um lugar desconhecido, escuro e sujo, eu logo percebi que se tratava de um jogo de terror. Apesar do nome, Pequenos Pesadelos, e da cor do capuz da criança, amarelo, o game realmente se foca no oposto: grandes e horripilantes pesadelos e escuridão, muita escuridão. Munida apenas de um isqueiro, Six tenta escapar de um lugar cheio de criaturas horrendas que, além de estranho, descobrimos ser um tanto improvável.

Little Nightmares 02

Seguindo as propostas de outros jogos de plataforma dos últimos anos, Little Nightmares, adota uma narrativa e estética sombrias evitando o cliché colorido que marcou por anos o gênero plataforma. Nesse quesito, o game acerta em cheio. A direção de arte é magnífica em sua proposta e afirmo em apostar que, assim como Inside, Little Nightmares já é um concorrente de peso a brigar por esse título em algumas das premiações do ano. O visual é deslumbrante, muito atento aos detalhes em cada parte do cenário e dos personagens que perpassam essa sombria aventura.

Desde as imagens ao fundo, à movimentação da câmera seja de um lado para o outro ou alternando o zoom, se aproximando e se distanciando, além da escolha por uma estética exageradamente macabra, tudo contribui para um conjunto de dar arrepios e uma sensação clara de incômodo. As imagens sinistras (no sentido literal) dos inimigos, “amigos” e dos objetos certamente vão inquietar o jogador mais atento. Para completar, o som do jogo deixa tudo ainda mais nervoso com uma excelente reprodução de pequenos detalhes, seja o gotejar de um cano quebrado ou o estalar de talheres de metal.

Little Nightmares 03

A jogabilidade é bem básica, do jeito que um jogo de plataforma tem que ser. Poucos botões para ações simples e objetivas facilitam a adaptação do jogador, que é lançado na aventura sem muita instrução. Porém, a mecânica é um pouco falha para sua proposta haja vista que qualquer leve esbarrada em um objeto é capaz de parar Six por tempo suficiente para que seus inimigos a alcancem. A exploração e a movimentação quando longe de qualquer perigo funciona muito bem, mas em alguns momentos de risco se mostra atrapalhada e causa mortes desnecessárias.

É justamente através da quantidade de vezes que você morre é que você acaba vendo, em determinado momento, que o jogo é repetitivo, o que tira um pouco de seu brilho. Para um gênero de puzzle-plataforma, percebemos logo a ausência de desafios reais e recompensadores. Morremos em várias ocasiões fazendo muitas vezes a mesma coisa, apenas driblando e se escondendo de “monstros” lerdos e bizarros em uma tentativa e erro para “decorar” o que fazer. Os puzzles deixam muito a desejar e não acrescentam à experiência. Eu não tive absolutamente nenhuma dificuldade em resolver nenhum quebra-cabeça apresentado durante o jogo.

Little Nightmares 04

Se por um lado um game curto seria um problema na maioria dos casos, principalmente para mim, aqui a curta duração faz com que a falta de um desafio real e a repetição em excesso não se tornem um problema. Muito pelo contrário, o jogo acaba, dessa maneira, focando mais na narrativa, mesmo que essa não seja nem um pouco clara. Mas isso não significa que ela não exista e possua momentos grandiosos que deixam qualquer jogador nervoso, como aquela agoniante proximidade entre Six e uma mão gorda de uma das monstrosidades que faz qualquer um soltar um clássico “ufa” ao passar ileso pela situação.

Little Nightmares deixa muito aberto à imaginação e à livre compreensão das metáforas das figuras que aparecem ao longo da jornada e acredito que esse é seu maior mérito. Eu particularmente acredito que a trama do jogo é bizarro paralelo da infância frente aos medos exagerados frente ao mundo e principalmente à vida dos adultos, sempre cercada de prazeres terrenos e desesperos cotidianos constantes. Com o passar do jogo, essa inocência é deixada de lado frente aos percalços e o momento da perda da ingenuidade infantil é traumático, macabro e um tanto crítico. Essa parte é o ponto de virada para Six, assim como para todos nós, encarar seus medos e, enfim, escapar de seu grande pesadelo. Uma metáfora sinistra e sombria sobre o fim da vida infantil.

notas

Ricardo Carvalho

Gosto muito de escrever, desenhar, de me frustrar com política, de filosofar no barzinho, assistir filmes e defender que games são arte! Me segue no twitter que eu sigo de volta, beleza? twitter.com/perfilricardoc Beijos e boas jogatinas!
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