Análise: The Surge atualiza a fórmula ‘souls’ com bastante originalidade

Definitivamente a série Souls, da From Software, vem se tornando mais do que uma franquia icônica no mundo dos jogos. Ela começa a dar origem a um tipo de jogo. Assim como Metroid e Castlevania fundaram um estilo baseado em exploração, evolução do personagem e backtracking (algo como a ação de voltar a lugares já visitados antes para abrir novos caminhos usando poderes recém-adquiridos), que ficou notoriamente conhecido como Metroidvania, o mesmo parece acontecer agora com a fórmula Souls, estabelecida por Dark Souls e refinada em Dark Souls 3 e Bloodborne, ambos títulos também da From Software.

The Surge é um dos frutos desse movimento. O estúdio Deck13, a mesma galera por trás de Lords Of The Fallen (que se não chega a ser um jogo fantástico, por outro lado é bom, traz belos gráficos e até mesmo algum desafio), conseguiu criar com The Surge uma ótima experiência aos moldes de Dark Souls e Bloodborne e ao mesmo tempo também foi capaz dar ao game uma cara própria, com algumas mudanças e adições à fórmula criada e consagrada pela From Software suficientes para fazer o jogo ser uma experiência que, mesmo não sem algumas falhas, tem um brilho próprio e vale a pena de ser conferida.

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História para que?

Surge Souls The surge começa apresentando uma história que justifica a existência do jogo. Ambientado em um futuro no qual a humanidade enfrenta uma crise climática, encarnamos a pele de um homem chamado Warren, recém contratado por uma empresa chamada Crio, que tem como missão resolver a crise climática do planeta e o faz por meio da junção de humanos com máquinas, criando uma espécie de força de trabalho mecanizada – o que soa um pouco estranho quando se fala de combater mudanças climáticas. E, como era de se esperar, tudo vai magicamente por água abaixo logo assim que nosso herói entra em cena. No instante em que Warren acaba de passar pelo processo de virar ciborg tudo desanda e uma certa pane geral acomete a fábrica da Crio. Cabe a ele tentar descobrir o que houve, já que todos os seus companheiros de trabalho parecem ter virado zumbis mecanizados e programados para matar. Que belo primeiro dia de trabalho, não é mesmo?

Felizmente o foco do game é totalmente no gameplay e os objetivos que têm que se cumprir ao longo dele são meramente uma desculpa para seguirmos em frente. Bem, sendo completamente justo, assim como na série Souls, existe um certo “lore” que aguça a curiosidade do jogador, é verdade. Mas no fim pouco importa o desfecho da história. O que vai te manter jogando é a dinâmica de acumulo de sucata (a versão de The Surge de experiência ou Souls), morte, volta e evolução dos equipamentos, dos inimigos e do seu próprio personagem em geral. E isso é bom porque a história é basicamente contada através de diálogos e televisões espalhadas pelas áreas da fábrica e vêm quase sempre como algo mais no fundo do que principal à experiência do jogo.

Mas aqui vai um ponto positivo. Se a história por um lado não é algo engajante, mesmo a despeito dos esforços da Deck13 para que você o faça –  como por exemplo dar uma voz a Warren e uma certa escolha de falas ao jogador – ela serve muito bem para justificar a ambientação do jogo. Os cenários mesclam ambientes industrias com o uso de muitas cores vivas, tornando o mundo belo e atraente, parecido nesse sentido com o que a Guerrila fez em Horizon Zero Dawn. As locações onde se passam as mais ou menos 30 horas que se levam para fechar o game variam bastante e vão do pátio de produção da fábrica até os lounges mais executivos da Crio, tudo isso feito com o que pareceu uma atenção aos detalhes bastante louvável e resultando em algo bastante bonito de se ver.

Assim como os locais, os inimigos e os equipamentos de Warren também passam uma vibe bastante futurística e ao mesmo tempo industrial. Mais uma vez o resultado é bem original e atraente e não chega a ser aquele sci-fi clichê, trazendo algum senso de inovação criativa ao gênero que é bastante bem-vindo.

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Exploração e sistema de combate

Assim como também é característico do que venho chamando nesse texto de gênero Souls, o design das fases de The Surge é bastante labiríntico. Há interconexões entre muitas partes do mapa e este é outro dos pontos positivos do jogo. O jogo é composto de algumas grandes áreas separadas por telas de carregamento e mesmo assim o time de desenvolvimento que cuidou desta parte do jogo está de parabéns pois há uma clara sensação de exploração ao se jogar The Surge.

Andar pela fábrica enquanto coleta os espólios de suas lutas e ao mesmo tempo busca um novo acesso de volta ao Centro de Operações – lugar único de cada área do jogo, onde se gasta a sucata para evoluir o personagem e os equipamentos – é bastante desafiador, recompensador e viciante quando combinados com o nível de dificuldade aumentado que também é próprio do estilo e com o sistema de risco e recompensa que é singular a The Surge – onde quanto mais sucata você junta, mais sucata o próximo inimigo vai soltar.

Outro dos pontos fortes e originais de The Surge fica por conta do combate. Além de apresentar animações de luta bem trabalhadas e bem cruéis, com muito sangue e sensação de impacto nas batalhas, o que se sobressai são as finalizações e a possibilidade de focar partes do corpo do oponente durante a luta. O jogo funciona basicamente através de um sistema de barras de vigor e energia. A barra de vigor funciona como a estamina, sendo usada para desferir golpes e realizar esquivas, enquanto a barra de energia se enche conforme seus golpes são desferidos e pode ser usada para desferir golpes de drone, recuperar sangue e finalizar os inimigos.

Esse sistema de finalizações, aliás, merece destaque particular. Se você conseguir desferir golpes suficientes a um inimigo para encher sua barra de energia você terá a oportunidade de finalizá-lo, cortando a parte do corpo que estiver sendo focada no momento (dentre cabeça, braços, corpo e pernas). Inicia-se então um pequeno espetáculo à parte onde o jogo entra em câmera lenta e Warren subitamente esquarteja a parte do corpo em questão. E finalizar não é apenas essa espécie de momento espetaculoso do jogo. Serve também para conseguirmos novos diagramas e materiais para melhorar os equipamentos de Warren lá no Centro de Operações, o que será essencial para a progressão ao longo das fases.

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Ache o Centro de Operações (Ops): A evolução do personagem

E por falar em Centro de Operações (Ops), assim que você achar seu caminho de volta para ele – pois basicamente todas as áreas do jogo começam no (ou perto do) Centro de Operações – você vai querer gastar a sucata que acumulou com tanta dificuldade, pois ela serve para quase tudo no jogo.

A progressão do personagem é feita em diversas frentes. Primeiro temos as armas e armaduras em si. Há um justo número de tipos de equipamentos no jogo, mas não espere quantidades exorbitantes de loot. Ao invés disso o que fazemos é ao acharmos uma arma ou conseguirmos um diagrama de armadura (arrancando as partes do corpo dos inimigos) produzi-los e melhorá-los usando sucata e componentes que vamos conseguindo dos inimigos.

A segunda parte diz respeito ao núcleo de força do exoesqueleto de Warren e aos implantes. Gasta-se sucata para aumentar o nível de força do núcleo (a mesma usada nos equipamentos, infelizmente) e ao fazê-lo seu principal ganho é aumentar o limite de coisas que se pode equipar, pois cada armadura e implante usa um pouco da força do núcleo e, portanto, há um limite. Os implantes, por sua vez, compõem uma mecânica a parte e funcionam para melhorar seu personagem de várias maneiras, provendo habilidades como ver a barra de vida dos inimigos, aumentar a quantidade de vida, vigor, energia e até mesmo aumentar a quantidade de injeções de vida disponíveis. É um sistema interessante que permite a adaptação do personagem às diversas situações do jogo.

Outro ponto original de The Surge são as lutas contra os chefes. E, por mais original que seja esse destaque não necessariamente será um elogio. Diferentemente do que vemos neste estilo de jogo os chefes de The Surge (que são bem poucos durante a história) não se resumem a bater o máximo de vezes sem apanhar e usar o mínimo de poções de vida para ter sucesso.

Cada um dos chefes em The Surge tem uma artimanha diferente que você tem que descobrir para então conseguir vencê-lo. Seja arrancar suas pernas ou fazê-lo causar dano a si próprio haverá sempre algum jeito diferente de ganhar. E isso, ao mesmo tempo que sopra um novo ar ao estilo também tira um pouco o jogador do controle. Não se trata tanto mais da sua habilidade ao lutar contra o chefe. Você terá necessariamente que morrer algumas vezes até descobrir o que fazer. Depois disso não há de fato um grande desafio nas lutas. Fica a critério do jogador decidir se gosta disso ou não.

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O surto de The Surge

Por fim, alguns pontos que valem menção sobre o jogo. Primeiramente a fantástica otimização do jogo em termos de performance e principalmente tamanho. Praticamente não há quedas de FPS e o jogo roda liso, sem crashes. Tudo isso com ocupando menos de 6 Gb no HD. Então, mais um parabéns à Deck13. Em segundo lugar um destaque negativo, que acaba por ser terciário, mas importa. Os inimigos não variam muito visualmente. E isso acaba por tornar o encontro com eles menos sensacional, mesmo que os estilos de luta sejam variados.

Ambientado em futuro no qual humanos mecanizados parecem ter surtado (Surge pode significar surto em inglês), The Surge consegue entregar uma bela experiência para quem curte os desafios do estilo Souls sem deixar, ainda assim, de inovar, seja com mecânicas de jogabilidade únicas ou até mesmo com uma localização paradoxalmente colorida e ao mesmo tempo industrial e futurística, que difere bastante de tudo o que foi feito no estilo até o momento. Mesmo que essa originalidade nem sempre acabe por impactar positivamente, como por exemplo no caso da narrativa e das lutas contra os chefes (na minha opinião) o resultado final prova que a Deck13 sabe fazer belos e desafiadores jogos e que refinou bastante seu desenvolvimento desde Lords of The Fallen (um jogo que particularmente gostei), entregando com The Surge uma experiência que qualquer fã de Dark Souls e Bloodborne vai querer jogar.

notas

Publicado
Graduado por força do acaso em Relações Internacionais, aspirante a músico e também futuro psicólogo, Arthur é gamer desde sempre - ou pelo menos desde que se lembra de estar vivo - e agora é também editor e redator do Última Ficha e nutre esperanças de um dia ter uma ideia melhor pra escrever essa descrição. Viva Chrono Trigger!