Análise: The Climb vai te deixar alto

The Climb é um simulador do pouco explorado alpinismo (pelo menos no que tange a games), esporte que consiste em escalar montanhas segurando-se nas formações rochosas. Além de um louvável empreendimento original feito por um estúdio grande como a Crytek, o título também cai como uma luva para as possibilidades e limitações da realidade virtual moderna. Exclusivo para o Oculus Rift, pode ser jogado no controle de Xbox One ou com o Oculus Touch.

The Climb é um jogo sem nenhuma trama. Tão logo selecione um trajeto a percorrer, o jogador encarna um montanhista sem o menor medo de altura que deve escalar um pico começando da base. O objetivo é chegar ao cume. O mundo do jogo é solitário, não existem outros personagens e a existência de outros humanos é implícita – claro, trata-se de um elemento não-essencial para a experiência do game. Podemos escolher o sexo de nosso avatar e seu tom de pele, além das luvas e adereços como pulseiras, relógios e até uma curiosa algema – todas características que só podem ser vistas ao olhar para as próprias mãos; um gesto físico ao usar os controles de movimento do Oculus.

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A aparente solidão em The Climb é proposital e temática: o alpinismo é um esporte solitário até quando se está acompanhado. Cada atleta é, no fim das contas, responsável por sua própria segurança. O lado bom dessa individualidade do esporte é o contato com a natureza e a introspecção que ele promove. A sensação reconfortante de pequenez diante do mundo a sua volta e a maneira como se “conquista” uma montanha ao subi-la é perfeitamente recriada em The Climb. Além disso, os sempre fenomenais visuais proporcionados pelo motor gráfico Cry Engine, da própria Crytek, conferem ao ambiente uma genuidade ímpar, ainda que isso resulte em uma queda de na taxa de quadros – mesmo quando se está jogando em uma máquina que atende às configurações recomendadas. Pode incomodar um pouco jogar abaixo dos 90 FPS recomendados (principalmente se você joga com o contador de quadros ligado), mas não chega a atrapalhar a jogabilidade. Quase não há trilha sonora, exceto por jingles curtos que tocam em momentos específicos como na chegada ao topo. Fora isso, a trilha é composta essencialmente pelos gemidos e berros de seu avatar e pelos sons do ambiente, de uma maneira que é até bem imersiva.

Como dito, o jogo oferece um esquema de controles com o joystick do Xbox One ou o Oculus Touch – este sensível ao movimento. Enquanto o modo de controle mais tradicional do Xbox é bastante preciso e surpreendentemente descomplicado, com o apertar dos gatilhos intuitivo permitindo agarra-se às rochas, é também muito menos imersivo. Se possível, jogue com o Oculus Touch, que é a maneira definitiva e mais recomendada de se aproveitar o game.

Por falar em jogabilidade, ela é bastante simples e direta em The Climb: basta você esticar seus braços até uma saliência nas rochas e, segurando os botões de Grip, agarrar-se e repetir o processo para se movimentar ao longo e em torno da montanha escalada. Mas, como na vida real, segurar todo o peso do corpo só com a força dos braços é uma tarefa árdua e para simular o desgaste dos músculos, cada uma das suas mãos tem uma pequena barra de stamina. Ela reduz quando você se pendura com apenas uma das mãos e se recupera quando você está se segurando com as duas. Além dessa mecânica básica, existe também o giz – balançar as mãos no ar (como quem simula esfrega-las), cobre as mãos e luvas do avatar de giz, acelerando a recuperação de stamina e retardando o desgaste. Ao longo do percurso, o giz também sai das suas mãos devido ao suor e, se quiser usufruir de seus benefícios de novo, o jogador deve dar seu jeito de aplicá-lo mais uma vez.

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Outra mecânica interessante são os pulos. Você deve balançar os braços enquanto se apoia e se afasta da superfície escalada. Durante o movimento você aperta o botão de pulo e solta-se da rocha, para depois agarrá-la novamente na chegada. É um movimento complicado e tenso, que pode render um dos momentos mais vibrantes do jogo (além de quedas tristes para a sua morte). Aliás, a morte desse jogo é tratada de forma simples e bastante arcade, com um reaparecimento quase instantâneo no último checkpoint. Também não existem vidas limitadas, então não tenha medo de tentar! Vale dizer que The Climb foi o primeiro jogo de VR a me exaurir fisicamente. Uma vez que seus braços ficam instintivamente esticados para o alto, torna-se rapidamente cansativo manter essa posição por muito tempo. Graças aos céus é possível descansar  ao dobrar os braços e trazê-los junto ao corpo.

Os cenários do jogo estão divididos de uma maneira que lembra bastante pistas em um jogo de corrida: são quatro biomas (Alpes, Norte, Cânion e Baía – sem contar um cenário de treinamento indoors) com cinco percursos cada um, totalizando dezesseis trajetos. Cada bioma oferece seus próprios desafios. Por exemplo, no Cânion, é comum encontrar pedrinhas soltas sobre as saliências, que antes devem ser limpas com um movimento de mão para poder se pendurar. Já nos alpes, as rochas podem estar cobertas por plantas com espinhos, que reduzem o stamina do jogador rapidamente e mesmo que você esteja apoiando-se nas duas mãos, obrigando uma movimentação rápida.

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Além do modo padrão de jogo, existe também um Time Attack, que coloca o jogador para competir com o seu próprio melhor tempo para completar o trajeto assim como o de outros jogadores online. Como toda boa montanha, as de The Climb tem várias rotas alternativas que podem ajudá-lo a poupar tempo e conseguir vencer essas “corridas”. De certa forma, The Climb é como um Mirror’s Edge orientado para escaladas no VR, e este modo torna o jogo ainda mais semelhante ao sucesso da EA.

The Climb é um competente jogo de esporte para VR que consegue transmitir para o jogador um pouco da emoção do montanhismo enquanto dribla as limitações e abraça as particularidades dos aparelhos de realidade virtual. Embora do jogo seja um tanto quanto repetitiva, os diferentes e bem elaborados cenários e diferenças em trajetos, bem como a liberdade de movimentos, que surpreende em um jogo do tipo, acrescentam variedade suficiente para prender um jogador em uma experiência desafiadora e que se renova a cada trajeto. The Climb pode ser adquirido apenas na Oculus Store com um valor atual de US$ 49,00.

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Publicado
Vicente leva uma vida marcada por vícios: leitor compulsivo, viajante (mas nunca turista) obcecado, rato de academia e jogador fissurado. Tenta também ser editor do Última Ficha quando sobra um tempinho. Fã de RPG, FPS, RTS e outras siglas.