Wolfenstein 2: um jogo necessário para tempos reacionários

Wolfenstein 3D foi um dos primeiros games que joguei na vida. Ainda muito criança no início dos anos 90, debulhava o divertido (e, pra mim, aterrorizante, por algum motivo) “jogo de matar nazistas” no precioso PC Pentium do meu pai. Não havia muito o que pensar sobre o jogo naquela época: você era B.J. Blazcowicz, um prisioneiro no castelo Wolfesntein, e devia escapar, dando cabo de qualquer “Nazi” que encontrava pelo caminho – embora, na época, eu soubesse apenas dessa última parte da trama. Era um título pioneiro e divertido feito pelo estúdio que viria a produzir o icônico e ultra-violento Doom no ano seguinte.

Avance mais de vinte anos (e 6 jogos da franquia) e estamos em 2017, com o recém-lançado Wolfenstein 2: The New Colossus, da MachineGames, em mãos. E enquanto o jogo continua com a premissa central de matar nazistas, o contexto em que vivemos mudou radicalmente. Nossa sociedade viu a consolidação de movimentos progressistas e igualitários. E, quase ao mesmo tempo, vemos o perigoso discurso de legitimação de grupos identitários, junto com a chamada Alt-Right e o que há de mais reacionário na sociedade civil. Esses grupos tentam confundir a Zeitgeist, plantando a peçonhenta semente da dúvida e distorcendo certezas absolutas, como o horror abjeto representado pelo nazi-fascismo do século XX.

Em outras palavras, vivemos em um tempo estranho, em que menos de cem anos após o conflito mundial provocado pelos nazistas, tem gente apontando que os nazistas “não eram tão ruins assim”.

Pior ainda, temos neo-nazistas perambulando pelo “ocidente civilizado”, fazendo saudações ao führer que há muito bateu as botas.

Este artigo contém pequenos spoilers sobre alguns acontecimentos de Wolfenstein 2: The New Colossus. Descrevemos apenas algumas cenas do início e da metade do jogo de maneira leve, mas se qualquer tipo de spoiler te incomoda, é melhor não ler nada abaixo.

Wolfenstein 2: The New Colossus é uma sequência direta de Wolfenstein: The New Order, que conta uma história alternativa em que os nazistas venceram a guerra e dominaram o mundo inteiro. BJ é parte do Círculo de Kreisau, um grupo rebelde que empreende resistência armada contra os Terceiro Reich. Encarnando o ridiculamente musculoso BJ “Blazco”, trucidamos os fascistas a cada oportunidade sem um pingo de remorso. Mas, na “Era da Pós-Verdade”, algumas vozes se levantam, indignadas, contra a intolerância com os intolerantes: de repente, combater nazistas se tornou imoral.

Todo esse revisionismo histórico envolvendo o jogo aconteceu até antes do seu lançamento oficial. A Bethesda americana fez uma campanha publicitária para o jogo com o slogan: “Make American Nazi-Free Again” (algo como “Torne a América Livre dos Nazistas Novamente”), um jogo de palavras com o chavão usado pelo próprio atual presidente norte-americano Donald Trump durante as últimas eleições em seu país. Ousada, a campanha alfineta o próprio Trump e os grupos ultra-nacionalistas, racistas e francamente neo-nazistas que se inspiraram no discurso xenófobo do presidente e adquiriram maior visibilidade nos últimos tempos.
Wolfenstein 2 The New Colossus
No Twitter, o marketing que chocou a Alt-Right

O marketing prometia um jogo que não mediria esforços para recolocar os nazistas como alvo de indiscutível desprezo. E Wolfenstein 2 correspondeu plenamente a essa expectativa.

Em W2: The New Colossus, toda a liderança nazista do universo paralelo do jogo é pintada como absolutamente depravada e maligna. Irene Engel, a oficial que chefiava um campo de concentração no primeiro jogo com um prazer perturbador, está de volta nesta sequência como general e principal vilã da história. O jogo deixa claro em vários momentos que Engel é uma “ariana” exemplar, representante dos valores do Reich: isto é, sádica, preconceituosa, pervertida e com uma visão inflada de si mesma.

A general comete atos de extrema violência com um sorriso perturbado no rosto e maltrata a própria filha, conseguindo ser gordofóbica e homofóbica ao mesmo tempo para humilhá-la diante  de seus capangas. Refletindo também o caráter machista do fascismo, os registros de Engel indicam que ela tem outros 5 filhos homens, mas a única que é tratada com desprezo é sua filha mulher.

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Fraülein Engel e sua filha, Sigrun

O próprio Adolf Hitler aparece no jogo. Lá para a metade da aventura, testemunhamos um encontro do führer com atores de um filme. Em uma cena tragicômica, o líder chega em sua sala de roupões e discute, aos berros, com um dos atores, comparando-os a espiões. Em um surto de paranoia, Hitler descarrega o pente de sua pistola contra um deles e a responsável pelo elenco risca o nome do homem assassinado com um sorriso compreensivo.

Neste recorte, a face do nazismo é caracterizada pelo desequilíbrio, paranoia e ódio que o homem real – no qual o personagem foi baseado – de fato tinha em abundância.

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Adolf Hitler: 1889 – 1960

Isso para não falar sobre os inúmeros oficiais menores que potem ser executados em missões paralelas opcionais, cujo background varia de odioso a surpreendentemente humano. Este último perfil passa a mensagem de como os desenvolvedores entendem que não apenas personagens caricatos podem apoiar uma ideia como o nazismo, mas muitos indivíduos ditos normais também podem.

De fato, Wolfenstein 2 resgata uma excelente característica de seu antecessor: a presença de “gente do bem” dentro do movimento nazista. Ao tomar uma área controlada pelos nazistas, B.J. pode encontrar correspondências saudosas de uma mãe para o filho recruta, da esposa que sente falta do marido ou da família em férias nas “colônias americanas”. Todas essas pessoas vivendo sob um regime opressor sem se dar conta das terríveis ações de sua sociedade sob as populações “não-arianas”. Existe até um diálogo que pode ser ouvido entre dois soldados nazistas, em que argumentam que os rebeldes estão errados pois não acham correto matar alguém apenas por possuírem crenças diferentes – em seguida os dois discutem animados como seria legal se os dois fossem alocados no mesmo pelotão de fuzilamento, sem  ironias.

E é claro que há muita auto-crítica e convite à reflexão para a sociedade ocidental. No mundo do jogo, os historicamente racistas estados do sul dos EUA ficam sob a administração da KKK e reinstituem o sistema escravagista. Para uma elite branca, a vida sob o jugo alemão não é tão ruim pois os seus objetivos supremacistas foram atingidos, ainda que em uma posição bastante subalterna ao invasor alemão. Em uma situação que pode ser testemunhada nas ruas de Roswell, no Novo México, um soldado alemão insulta encapuzados do KKK por sua terrível pronúncia do alemão, o que provoca uma sensação de profundo terror nos racistas.

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Como água e vinho

Outra crítica ao preconceito arraigado no homem branco está muito próxima de B.J.. Em uma cutscene no início do jogo, acompanhamos a perspectiva de nosso protagonista ainda criança aguentando os abusos de seu pai, a ele e a sua mãe (que é judia – guarde este fato), que incluem violência física e psicológica. Na cena em questão, o pai quer surrar B.J. por ter se envolvido com uma garota negra, o que, segundo o homem, arruinaria a sua reputação e seus negócios. O pai é um trambiqueiro e frequentemente mencionado como um fracassado que gasta dinheiro irresponsavelmente.

Após a conquista dos EUA pelos nazistas, o pai de B.J. enriquece ao tornar-se um colaboracionista do regime. Em um momento posterior, descobrimos que o crápula foi capaz de denunciar sua esposa para que fosse levada pelos oficiais. Visivelmente envergonhado pelas atitudes mas não contrito, ele ainda se justifica dizendo que eles descobririam mais cedo ou mais tarde – e que afinal, ela era apenas uma judia.

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BJ, ainda criança, e seus pais

Estas cenas, no jogo tão poderosas quanto asquerosas, denunciam o comportamento de um grupo favorecido por sua raça e sexo que é capaz de culpar outros por seus próprios problemas e falhas. Esta crítica atinge em cheio o fascista ocidental moderno e expõe sem pudor a pequenez de seu raciocínio e a feiura em seus corações. Enquanto Wolfenstein 2: The New Colossus seguir incomodando essas parcelas da sociedade por suas escolhas políticas, podemos ter certeza de que seus desenvolvedores estão no caminho certo.

Invertendo o quadro de duas décadas atrás, Wolfenstein dá as caras um ano depois do lançamento de de Doom. E, desta vez, os demônios falam alemão – e alguns, inglês.

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Vicente leva uma vida marcada por vícios: leitor compulsivo, viajante (mas nunca turista) obcecado, rato de academia e jogador fissurado. Tenta também ser editor do Última Ficha quando sobra um tempinho. Fã de RPG, FPS, RTS e outras siglas.