Análise: The Banner Saga 3 fecha trilogia com chave de ouro

Dois longos anos após o lançamento de The Banner Saga 2, finalmente chegamos ao fim da série The Banner Saga. Criado pela Stoic, um estúdio fundado por ex-funcionários da Bioware, o título teve uma boa parte de seu financiamento feito via Kickstarter, com a meta de 200 mil dólares atingida em menos de uma semana. Com um enredo baseado na mitologia nórdica, um gameplay tático e diversificado, e um enredo bastante elaborado, The Banner Saga 3 tinha grande potencial para ser um bom fechamento para a trilogia. Será que toda a expectativa correspondeu? Confira abaixo no nosso review:

Vamos ao primeiro ponto importante de ser mencionado antes de começarmos nossa análise de The Banner Saga 3: Você jogou os dois primeiros jogos da série? Se sua resposta for sim, parabéns, você poderá iniciar sua trajetória diretamente de onde parou em The Banner Saga 2 sem problemas. Agora, caso sua resposta seja não, eu odeio ter que informar isso, mas um trabalho de pesquisa prévio deverá ser feito. The Banner Saga 3 começa a sua trama a partir dos eventos que encerram o segundo jogo da série. Como consequência, deve-se ver vídeos, pesquisar e ler bastante para que se possa entender tudo o que está acontecendo de fato. O enredo é bastante rico e complexo, fazendo com que mesmo os experientes tenham que se mexer para relembrar acontecimentos anteriores da história. Associações com uma certa série com tronos de ferro e mortes inesperadas são inevitáveis.

Bom, partindo do pressuposto que a pesquisa foi feita e que você já está por dentro dos acontecimentos passados, vamos ao que importa. Comecemos pelo gameplay, então. The Banner Saga 3 é um RPG de combate tático por turnos. Suas mecânicas principais consistem em seguir a história por meio de escolhas que podem mudar completamente os rumos do seu clã e comandar batalhas táticas durante a jornada com até seis guerreiros que podem ser escolhidos de um plantel bastante diversificado e grande. Através da análise das situações e dos inimigos possíveis a serem enfrentados, deve-se montar uma estratégia de combate que oferece de magos à gigantes, passando por centauros e demais criaturas da mitologia nórdica. As possibilidades de escolha são praticamente infinitas. Tudo vai depender do seu estilo de jogo para enfrentar diferentes situações e desafios.
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Como um bom RPG, não somente devemos ser inseridos no papel do jogador, como também temos que gozar de uma gama de possibilidades de melhoria dos nossos personagens. Eis aqui um dos pontos chave de The Banner Saga 3. Diferentemente de outros jogos do gênero tático, o título da Stoic nos permite melhorar atributos dos personagens para que eles possuam mais Armadura, Força, Determinação, Uso de Determinação e Perfuração. Dessa forma, não somente podemos escolher as classes que mais nos agradam, como também podemos moldá-las conforme nossa vontade por meio de pontos Reputação, que por sua vez são obtidos em batalhas. Ainda, pode-se usá-los para comprar itens que servem de buff para os personagens.

O uso dos itens e a administração criteriosa dos pontos de atributo são essenciais em The Banner Saga 3, visto que as batalhas no jogo em nenhum momento serão fáceis. Cada detalhe pode fazer uma grande diferença no resultado de um combate, fazendo com que percamos por muito pouco em muitas situações. Todas essas possibilidades de escolhas de personagens, atributos e itens fazem com que grande parte do tempo de jogo The Banner Saga 3 seja gasto na tela dos heróis, afinal, conforme já explicitado acima, as batalhas não serão fáceis e um bom balanceamento dos personagens será importante para que não sejamos surpreendidos.
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Aliás, falando em surpresas, The Banner Saga 3 mantém a tradição dos primeiros dois jogos da trilogia e traz momentos inesperados em diferentes sentidos. Primeiramente, por mais que tenha seus defeitos, a inteligência artificial do jogo é bastante decente. Em muitos momentos, quando tentava criar emboscadas para a IA, fui frustrado com contra-ataques inesperados. Entretanto, em outras situações acabei sendo agraciado com decisões um tanto quanto duvidosas por parte do inimigo, em que eliminações fáceis dos meus personagens foram simplesmente ignoradas. Neste sentido, nunca se sabe ao certo que tipo de ação o inimigo irá tomar, o que causa certa indecisão do que fazer e muitas surpresas.
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O segundo ponto gerador de surpresas certamente é a história do jogo. Carro chefe de The Banner Saga 3 e digna de Game of Thrones, a narrativa criada pela Stoic é muito bem construída e mantém a qualidade das última iterações do jogo. A construção dos personagens é simplesmente excelente. À medida que vamos descobrindo mais sobre o passado dos personagens e suas personalidades, vamos criando laços com os mesmos, e é sabendo disso que The Banner Saga 3 concebe plot-twists e situações diversas que mexem com o emocional dos jogadores. Por ser o final de tudo, este terceiro jogo da série traz uma tensão no ar do início ao fim, e faz com que pensemos a todo momento se a decisão que tomamos anteriormente foi acertada. Aliás, em muitos momentos me peguei fazendo questionamentos morais sobre as minhas escolhas. Afinal, como pessoa eu poderia tomar certas decisões mas e como um líder de uma nação? Que tipo de decisão o povo esperaria? É esse tipo de questionamento, aliado a uma boa construção de personagens e uma narrativa concisa e envolvente, que fazem com que jogar The Banner Saga 3 seja uma experiência digna de grande obras.

Não menos importante é a direção de arte de The Banner Saga 3. O jogo é simplesmente sensacional nesse sentido. A Stoic, junto à Powerhouse Animation Studios Inc, tomaram a decisão de usar um estilo de animação tradicional no jogo inspirado na rotoscopia, uma técnica aplicada em clássicos como A Bela Adormecida da Disney. Nesta os animadores se baseiam em gravações de vídeo reais para reproduzir os movimentos dos personagens em desenho. No vídeo abaixo, há um exemplo de como uma das animações do jogo foi feita:

Por meio da aplicação da rotoscopia e cenários estáticos feitos manualmente, chegamos ao incrível resultado de The Banner Saga 3, que nos lembra muito os desenhos da década de 90 como Caverna do Dragão, com seus desenhos crus e linhas que flutuam entre frames. É simplesmente monumental apreciar toda a beleza do jogo enquanto nossos personagens vagam pelos diferentes territórios da trama.

Para fechar com chave de ouro, a trilha sonora original de The Banner Saga 3, escrita por Austin Wintory, é simplesmente primorosa. Primariamente composta por uma orquestra de sopro, violinos e metais, todas as músicas se encaixam perfeitamente nas situações para que foram criadas no jogo, com tons, transições e áreas tonais explorando tensões nos momentos mais críticos, que introduzem incrivelmente o jogador aos combates. Ao mesmo tempo, os momentos de alívio e resolução de conflitos, mais ligados às transições tônicas, nos fazem relaxar e apreciar a linda paisagem desenhada à mão pela Stoic. Em resumo, a estética das animações, o movimento da trilha sonora e simbiose da narrativa com os dois elementos fazem com que The Banner Saga 3 seja uma experiência incrível claramente inspirada em obras épicas como O Senhor dos Anéis. Palmas para a Stoic pelo trabalho nesse sentido.

Em suma, The Banner Saga 3 finaliza a trama iniciada há quatro anos de forma primorosa. A IA não tão aprimorada, assim como nos títulos anteriores, não consegue ofuscar o brilho do jogo, que se mostra como uma obra de arte digna de nota. Sua narrativa fecha muito bem um ciclo e traz desafios e surpresas na medida certa. Fãs da série irão se deleitar com o jogo. Aos que não conhecem The Banner Saga ou que curtem o gênero tático, recomendo bastante que deem uma chance ao jogo.

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Publicado
Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.