Análise: Sword Legacy: Omen traz combate em turnos competente e mostra as credenciais do Brasil

Cada vez mais temos o prazer de analisar jogos brasileiros de qualidade. À medida que o mercado brasileiro vai amadurecendo, novos bons títulos vão ganhando destaque. É o caso de Sword Legacy: Omen, reimaginação dos mitos arturianos através de uma visão mais sombria. Desenvolvido pelos estúdios cariocas Firecast Studio e Fableware Narrative Design e distribuído pela Team 17, o jogo chega como uma grande promessa não somente para o mercado brasileiro, mas para o gênero de combate tático. Será que o jogo consegue competir com os grandes títulos do mercado? Confira abaixo na nossa análise:

Inocentes massacrados, cadáveres por todas as partes, cabeças rolando, doenças e mortos-vivos. Se você acha que estou falando de Walking Dead, você está muito enganado. Sword Legacy: Omen traz isso e muito mais. Esse é o nível de repaginação adotado pela Firecast Studio e Fableware Narrative das lendas do Rei Arthur. Por meio de Uther, um cavaleiro extremamente vingativo e sombrio, e Merlin, um feiticeiro ancião misterioso, o título nos apresenta logo de cara ao seu universo brutal. Esqueça as épicas lendas de cavaleiro recheadas de contos estruturados na jornada do herói clássica e se prepare para ver muito sangue, desastres, massacres e tudo que você não esperava controlando anti-heróis com passados duvidosos.

A estrutura narrativa do jogo é bastante direta. O reino de Britannia é devastado por um desastre que elimina grande parte da sua população. O rei é brutalmente assassinado e a princesa Igraine é raptada pelas forças do reino de Wessex. Como sempre, devemos correr em busca da herdeira do trono ao mesmo tempo em que tentamos descobrir o que levou o mundo a um estado cataclísmico. O tempero extra dado a Sword Legacy: Omen consiste justamente no seu tom obscuro e sem papas na língua. Ao invés de cavaleiros honrados, temos um cavaleiro que não perde tempo em xingar seus companheiros e um feiticeiro que não é lá muito amigável também. À medida que vamos recrutando novos personagens nesta epopéia, percebemos definitivamente que estamos em uma aventura baseada nas histórias do Rei Arthur, mas com uma personalidade totalmente própria.

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As transições entre cenas, capítulos e diferentes situações alterna entre diálogos diretos entre os personagens à la The Banner Saga, narrações dubladas (em inglês) e visual novels muito bem feitos. Vamos sendo informados dos acontecimentos da história por meio das narrações e ao mesmo tempo vamos vendo a construção dos personagens através dos diálogos entre os mesmos. E que diálogos. Novamente, ao contrário da linguagem erudita das obras que permeiam o universo arturiano, temos traduções para o português totalmente informais, que brincam inclusive com memes muito específicos do Brasil. É impossível, por exemplo, passar batido por uma das cenas do jogo, onde um dos personagens solta o clássico “No céu tem pão?”, consagrado pelos sites brasileiros. Um dos pontos que mais me agradou à medida que fui progredindo pela história foram as notas e contos que encontramos pelo caminho. Sempre paro para ler tudo que aparece pela frente nos jogos do gênero, porque gosto muito de adentrar no universo do jogo, e o fato de Sword Legacy: Omen ter esse elemento contido em todas as missões foi crucial para me deixar ainda mais curioso para saber o que viria pela frente.

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Apesar da tentativa de deixar o diálogo mais próximo dos jogadores, é estranho o fato de que estamos inclusos em um universo épico com um linguajar tão contemporâneo e informal. Eu entendo o intuito dos desenvolvedores, mas a forma como as legendas são colocadas acabam nos tirando um pouco da imersão. Além disso, em muitos momentos tive a impressão de que alguns diálogos, que claramente somente tinham o intuito de construir personagens, acabavam de forma inesperada ou não logravam sucesso em trazer empatia aos mesmos. A história de Sword Legacy: Omen é sim interessante, mas a forma como o enredo é conduzido prejudica um pouco a imersão no universo criado pelas próprias desenvolvedoras.

No que tange a sua jogabilidade, Sword Legacy: Omen bebe da fontes de grandes títulos para criar seu próprio estilo de jogo. Temos uma mecânica de exploração similar a Divinity: Original Sin, uma estrutura narrativa que lembra The Banner Saga (apesar de linear) e um combate com elementos que lembram XCOM. É complicado afirmar com todas as letras que o jogo seja um RPG de fato, visto que não há um sistema de progressão dos personagens e suas habilidades. Claro, assumimos o papel dos personagens que vão surgindo ao longo do jogo, mas somente isso. Os itens equipáveis também são bastante limitados e, às vezes, um tanto desbalanceados, o que acaba deixando o jogo fácil à medida que vamos avançando na história. Meu set de combate em certo ponto se resumiu a Merlin, capaz de dar danos em área absurdos, Uther, com seu combate corpo a corpo eficiente, Gwen, ladra extremamente rápida e capaz de dar danos bastante elevados, e Ferghus, um brutamontes perfeito para dar dano em mais de um inimigo ao mesmo tempo. Por mais que eu não possuísse healers ou personagens mais defensivos, não tive qualquer dificuldade em acabar com meus inimigos rapidamente, muitas vezes sem tomar dano.
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A mecânica de combate, que é a essência do jogo, é concisa, mas tem seus problemas. A começar pelos inimigos, eles não são lá muito inteligentes. Tendo em mente que os turnos consistem em se movimentar e realizar ataques (ou outras ações) limitados à quantidade de pontos de ação por personagem, é um tanto claro que deve-se evitar gastar todos os pontos de ação sem que seu guerreiro tenha algum tipo de cobertura ou defesa. Contudo, muitas vezes me deparei com a inteligência artificial tomando decisões duvidosas, como passar por áreas em chamas sem necessidade ou simplesmente posicionar um inimigo do lado de um dos meus guerreiros gastando todos os pontos de ação. Naturalmente, nessas situações eu não precisava nem pensar, somente massacrava o adversário sem dó.

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Outro ponto que poderia ter sido melhor trabalhado em Sword Legacy: Omen é a quantidade de habilidades disponíveis por personagem. Claro, estamos falando de um jogo independente, então os recursos para construir um sistema completo de habilidade para cada personagem são mais limitados. Entretanto, a quantidade de combos possíveis entre os personagens, apesar de existentes, são limitadas em número, já que temos somente oito combatentes com somente algumas melhorias disponíveis. Se compararmos com os jogos que inspiraram a criação de Sword Legacy: Omen, vemos que a quantidade de personagens e habilidades é bem menor.

Com relação a sua arte, Sword Legacy: Omen acerta no quesito visual, mas deixa a desejar com relação a sua trilha e efeitos sonoros. Tanto o estilo visual novel das transições da história quanto os gráficos isométricos da exploração e combate são bastante bonitos e mostram competência das duas desenvolvedoras. Entretanto, alguns efeitos sonoros parecem bastante datados. Alguns inclusive, se repetem de forma irritante, como o primeiro som que se escuta no jogo, uma porta prestes a ser arrombada. Certamente a primeira impressão de Sword Legacy: Omen não foi das melhores com aquele barulho se repetindo eternamente enquanto os personagens conversavam entre si.
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Em suma, Sword Legacy: Omen acaba por pecar em alguns pontos, como sua inteligência artifical e efeitos sonoros, mas no geral se apresenta como um bom jogo. As mecânicas de combate e sua história fazem valer as dez horas totais de gameplay. Certamente, Sword Legacy: Omen é uma vitória para o Brasil, um passo dentre os muitos que ainda virão, e consegue se colocar no gênero como uma boa opção para quem busca um combate tático conciso.

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Publicado
Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.