Análise: Outer Wilds traz muita originalidade e filosofia

Qual a origem do universo? Para onde vamos?

Jogar muito videogame tem um lado negativo. Percebemos muito os padrões e sentimos, eventualmente, que muitas experiências com alguns games acabam sendo repetitivas. Para piorar, tudo isso fica ainda pior no fim de uma geração, como é esse momento de agora: os sistemas vão alcançando o seu limite e existe pouco ou nenhum espaço para inovação. Portanto, é justamente nesse espaço entre forçar a geração ao limite ou se inovar com poucos recursos que muitos jogos independentes tem chance de se destacarem. O caso não foi diferente aqui. Logo, confira como e porque esse é um dos melhores jogos de 2019 nessa análise de Outer Wilds (visite o site oficial aqui).

Há muito tempo atrás…

Outer Wilds começa de forma simples e bem direto ao ponto. Você acorda próximo a um elevador que leva a uma plataforma de lançamento de uma nave espacial. Ao seu lado um indivíduo da mesma espécie que você começa a te dar as primeiras informações de que todos ali são de um grupo explorador, mais especificamente astronautas, exploradores interplanetários.

E para melhorar tudo, é o seu grande dia! Seu primeiro voo para o infinito e além!

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A partir daí, é contigo. Você tem o seu sistema solar inteiro para explorar, voar de planeta em planeta coletando novas informações, catalogando coisas em seu diário de bordo e vislumbrando as fronteiras do espaço. Talvez soe muito como No Man’s Sky certo? Pode até soar, porém as similaridades se encerram aqui!

Análise Outer Wilds

Isso porque, tudo se mostra diferente exatamente quando você vê que o sol daquele seu sistema solar simplesmente explode após 22 minutos do jogo matando tudo e todos, inclusive você. Logo você se dá conta de que, na verdade, está preso em um looping temporal e que entender o porquê dele existir é o ponto de partida para achar o sentido de suas explorações espaciais.

Complexo? Hmmm…

…em uma galáxia muito, muito distante

Buscando pedaços de evidências espalhados pelos quatro cantos dos planetas, aos poucos, você vai se dando conta de como é a mecânica e a dinâmica desse jogo: um gigantesco quebra-cabeça espacial. As peças estão coerentemente perdidas por todo esse conjunto de planetas, dentro e fora de ruínas, estruturas alienígenas, buracos negros, cometas e até o sol. Um grande emaranhado de teias que se unem a um único ponto: um grande projeto de uma espécie alienígena já extinta há centenas de milhares de anos.

Circunscrevendo toda essa trama existe um leque de referências a clássicos da ficção científica e espacial como o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e a série de livros A Fundação. Agregando um valor enorme a pequenas descobertas aqui e acolá.

Ok, mas não tem combate?

Não. Pois é, sem meias verdades ou medo de dizer: Outer Wilds não tem combate e talvez esse seja seu maior êxito. Você parte para o espaço munido apenas de sua nave, seu traje com jatos e um cilindro de oxigênio, uma sonda exploradora que tira fotos, um tradutor e um audioscópio – uma espécie de estetoscópio para captar ondas sonoras do espaço. Cada um desses itens cumpre funções vitais na exploração e resolução desse enorme quebra-cabeça que é Outer Wilds.

A sonda exploradora é como um pet que você lança adiante para fotografar e se certificar de que o caminho à frente é seguro ou até mesmo usar como ponto de referência, por exemplo. Já o audioscópio é um bom guia para localizar aliados e outros sons emitidos pelos planetas. Seu tradutor decifra a linguá de alienígenas do passado. Por fim, sua nave e seu traje espacial são os principais meios de exploração em um ambiente quase sempre sem gravidade, ou com muito pouca. Uma dica, cuide bem da sua nave!

Mas como pode ser um rogue-like sem combate?

Apesar do jogo ser rodado em loopings de 22 minutos, na verdade ele não é um rogue-like. Justamente por não ter combate, o jogo não conta também com inventários ou itens que ficam consigo, ou seja não tem um sistema de progressão que te torna mais poderoso com o tempo. Como já dito antes estamos em um quebra-cabeça interplanetário e o bem mais precioso das suas incursões de 22 minutos é justamente o que é preciso para por um ponto final nas perguntas iniciais: informação. A informação é sua progressão.

Isso pode ser chato?

Se você não consegue jogar games sem morte, tiros e ação desenfreada, sim. Mas por outro lado essa ambição toda levou a uma das aventuras mais originais que joguei nos últimos anos – e eu jogo muitos games. Um jogo que explora ao máximo seu senso de descobrimento, o encanto com um novo local, a felicidade de encontrar amigos em lugares inóspitos e a surpresa do desconhecido – e o medo.

Pode ser um jogo de terror, então?

Sim e não. Não, pois essa não é de fato a proposta do jogo: é um game de aventura e quebra-cabeça. E sim, pois, além de nosso planeta mora o mais temível dos medos humanos: o completo desconhecido. Adentrar novos locais, planetas e estruturas anciãs de alienígenas do passado nos faz tremer a cada passo e, por outro lado, conseguir um alívio recompensador ao final de uma empreitada.

Enfrentar silêncios absolutos, dobras espaço-temporais, se ver frente a frente com seres inimagináveis, tudo isso gera calafrios que tomam noites de qualquer um que pensa na existência da vida e do universo.

Tenha coragem e dê um salto de fé!

A teoria de tudo?

O game nos leva em muitos momentos e nos questionar. Qual o sentido da existência? Qual foi a origem do universo? Para onde estamos indo? O que acontecerá depois de bilhões e bilhões e bilhões e bilhões de anos? Tudo vai acabar em escuridão e frio? Sim, não, talvez! E sobre tudo isso, Outer Wilds não se isenta de perguntar e também de responder da maneira que mais é válido: com novos questionamentos.

Outer Wilds quase não tem erros. Os bugs são pontuais e mesmo que possam frustrar eventualmente uma de suas incursões o formato de não-progressão (sem evolução, itens etc.) faz com que retomar uma aventura não seja tããão problemático assim. Minha maior crítica é que, já que dialogamos com relativamente poucos seres, o game poderia contar com áudios das falas, ouvir aquela nossa espécie falando um dialeto próprio seria muito legal. Porém, entendo ser um jogo de baixo orçamento e seu preço mais do que justifica qualquer ausência de recursos como este.

…um grande salto para a humanidade

Mas com tantas coisas diferentes e fora da caixa, Outer Wilds é de fato bom? Muito mais do que bom, é excelente! Mas saiba que você vai ter que botar a cuca para funcionar, pois o jogo demora horas e horas e tudo, absolutamente tudo que está nele tem uma razão e requer que você formule lógicas e experimente riscos. Detalhes são importantes! Seus itens, todos os planetas, seres e corpos, tudo… tudo é um conjunto coeso que monta um grande e recompensador desafio. Além disso tudo, o game te oferece também o simples prazer de explorar e conhecer esse universo magnífico. Ou seja, não se dê por satisfeito ao ver os créditos rolarem na tela pela primeira vez.

Clássico instantâneo

Visual, ambientação e gráficos - 9.5
Jogabilidade - 9.5
Trama e roteiro - 10
Áudio e trilha-sonora - 10
Imersão - 10

9.8

Meu jogo do ano!

Se fosse possível gerar tudo de forma aleatória mantendo a coesão e coerência, para cada player ter uma aventura única, provavelmente poderia ser eleito o melhor jogo da história. Mas mesmo assim não menos que um clássico.

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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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