Análise: Shadow Warrior 2 é uma sequência visceral e divertida

O primeiro Shadow Warrior é um título de 1997 caracterizado por tiroteios frenéticos contra demônios. É um título típico de seu tempo e teve bastante sucesso na época mas foi esquecido na virada do século. Em 2013, a Flying Wild Hog e a Devolver Digital finalizaram um remake completo do primeiro jogo, trazendo-o às gerações atuais em grande estilo. Essa nova versão foi bem recebida pela crítica, angariando notas altas em diversas publicações e, arrisco-me em dizer, mostrou a pesos-pesados da indústria – como Doom (2016) –  que havia espaço no mercado para jogos de tiro evocativos dos anos 90, com barras de saúde, arsenal amplo, campanha de longa duração e foco em single-player. Shadow Warrior 2 chega para os PCs, e para os consoles em 2017, na intenção de repetir o sucesso do jogo anterior, mas introduzindo muitas mudanças.

Shadow Warrior é um jogo completamente debochado, mas manteve uma trama coerente durante sua campanha. Em Shadow Warrior 2, os acontecimentos do primeiro jogo não têm a menor importância. O game se passa 5 anos após os acontecimentos do game anterior, onde acompanhamos mais uma vez o protagonista Lo Wang, hoje um mercenário que trabalha para Mamushi Helka, uma chefe da Yakuza, recuperando artefatos em regiões cobertas de demônios. Aliás, no jogo, o mundo está infestado de criaturas demoníacas (algo que só é devidamente explicado nos diversos jornais e diários que você pode encontrar pela campanha e cuja leitura é evidentemente opcional) e pessoas como Wang, com seu comportamento psicótico, se sentem em casa nessa realidade.

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Em uma das primeiras missões do jogo, recebemos de Mamushi a missão de descobrir o que aconteceu com sua filha, Kamiko, que trabalhava sob disfarce nos laboratórios de Orochi Zilla, rico industrialista responsável pela invasão dos demônios no primeiro jogo e vilão intratável. Em seus laboratórios, descobrimos que Zilla desmascarou a identidade de Kamiko e a injeta com uma droga fatal. Wang resgata a mulher e volta à base da Yakuza, onde se depara com o Mestre Smith, ferreiro talentoso de armas, sábio e mecânico de Wang nas horas vagas. Subitamente, Kamiko começa a delirar e a convulsionar-se e Smith, sem maiores opções, transfere sua consciência para o corpo de Wang para salvá-la. Imediatamente, a imagem de Kamiko surge no canto dela, uma representação do que Wang vê da garota dentro de sua cabeça, e ali permanecerá basicamente até o fim da campanha.

A maior parte dos personagens não deixará grandes marcas. Apesar de terem personalidades claras, nenhum deles é muito desenvolvido tirando Kamiko, que é um problema a parte. Kamiko, como coadjuvante, cumpre o mesmo papel de Hoji (o espírito que também dividia o corpo de Wang no primeiro jogo), mas é muito menos interessante do que o original. Ela é arrogante e prepotente, e não deixa passar quase nenhum diálogo sem reclamar de Wang ou de estar dentro de seu corpo. É muito difícil se importar com ela, mesmo quando aprendemos sobre sua relação complicada com a mãe ou seus outros dramas pessoais. O próprio Wang tem seus problemas enquanto personagem, sendo pouco mais do que um ninja super poderoso que a todo momento faz piadas (a maior parte sem muita graça). O senso de humor do jogo é bastante pueril, mantendo-se fiel ao que a série tem como marca registrada, mas na maior parte das vezes acaba sendo bem fraco e os momentos genuinamente engraçados são raros.

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A partir da “união” entre Wang e Kamiko, o jogo se abre e avança com missões que realizamos para a Yakuza e outras pessoas (e até um demônio “do bem”). Podemos conversar com personagens amigáveis em um mundo central que consiste na sede da Yakuza de Mamushi, a residência de Wang, a forja de Smith e duas lojas de armas, além de uma praça que conecta todos esses edifícios como em uma vila, que também conta com alguns personagens secundários. As tarefas que recebemos da vila levarão Wang a locais variados, desde paisagens oriental tradicional, com grama, morros e pagodas, às instalações futuristas de metal e néon de Zilla. Todos os locais que você pode visitar são mundos abertos contidos, onde você pode tomar o caminho que quiser até o objetivo, buscar os inúmeros coletáveis (incluindo dinheiro, munição e armas novas) ou andar a esmo enquanto procura inimigos desafiadores para adquirir mais experiência e itens. O tempo de campanha pode variar bastante a depender de sua vontade em fazer as missões secundárias (que podem render novos e poderosos equipamentos que inevitavelmente serão úteis na sua jornada), mas seguramente sua experiência terá mais de 15 horas no single-player.

Durante as missões secundárias, os diversos locais que o jogador pode visitar são aleatórios, dando a impressão de que nunca se está no mesmo lugar que antes. A estrutura de mundo aberto funciona muito bem para Shadow Warrior 2, pois combina a exploração meticulosa dos cenários do primeiro jogo, com confrontos inesperados, dos quais você pode fugir se a barra pesar demais. Em outras palavras, se estiver cansado de lutar ou tiver entrado em uma briga que não pode vencer, basta fugir e seguir por outro caminho. Os coelhos do primeiro jogo também estão de volta, as únicas criaturas pacíficas nos mapas além dos humanos, mas que podem ou não virar demônios particularmente poderosos se molestados. São inimigos opcionais que você não sabe se podem se tornar agressivos até atacá-los;

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Wang e suas armas são ambos incrivelmente customizáveis. O protagonista tem acesso a uma série de habilidades (que vão de um simples aumento na barra de saúde até uma magia particularmente divertida que lança espinhos do chão para empalar os oponentes a sua volta). O arsenal de Wang, que foi muito expandido com relação ao do primeiro jogo, conta com uma variedade enorme de armas que estão agrupadas em “classes” (SMGs, pistolas, armas brancas, etc.) e podem ser customizadas com itens que aumentam o dano, velocidade de ataque e outros efeitos, inclusive um novo sistema de dano elemental, como fogo ou eletricidade, contra os quais alguns inimigos podem ser resistentes ou suscetíveis. O problema é que muitas vezes enfrentamos ondas de inimigos misturados, cuja suscetibilidade de um é a fortaleza de outro, tornando o uso efetivo dos elementos muito complicado no combate que se desenrola em alta velocidade. Some-se a isso à exaustão da repetição dos combates e talvez seja melhor evitar o dano elemental por completo para evitar o desgaste.

De uma forma geral, temos de volta o mesmo combate do game de 2013, inclusive com uma mecânica de combate corpo-a-corpo profunda que pode ser manipulada pelo movimento do seu mouse e da câmera. Armas têm impacto e os inimigos animações excelentes, mas uma parte destes são “esponjas de dano”, sendo necessário crivá-los balas e mísseis antes que morram. À exceção de alguns mini-chefes é bastante estressante enfrentar uma multidão desses oponentes, principalmente em dificuldades mais elevadas. Além disso, é praticamente impossível não tomar dano enquanto costura multidões de inimigos nervosos que dão dano muito rapidamente, então seu dedo ficará sempre na tecla Shift, o botão que faz com que Wang desloque-se rapidamente para alguma direção. É a tão falada dificuldade artificial, que sempre incomoda. O jogo ainda possui um modo co-op para até 4 jogadores, que funciona através de um sistema P2P (sigla em inglês para Peer to Peer, quando um dos jogadores é o anfitrião e os demais se conectam a ele), e acrescenta mais vida útil ao game. Nesse modo, seus amigos que se juntarem ao jogo são vistos por você como ninjas mascarados, que estão ali para ajudá-lo a cumprir sua missão. A história e jogabilidade continuam as mesmas do modo single-player.

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Se em 2013 Shadow Warrior mostrou-se um jogo belíssimo no PC, sua sequência não decepciona. Os cenários são amplos e detalhados, as animações de personagens e inimigos são bastante fluídas e os efeitos de clima como a chuva, o pôr do sol e a noite são belos. Mas são os efeitos de pós-processamento que roubam o show. O néon ofuscante dos laboratórios Zilla e o sangue fluorescente dos inimigos que o habitam pintam um belo quadro distópico. O mesmo acontece com os cenários orientais idílicos e suas paisagens marcadas por desastres apocalípticos que dobraram a terra e fizeram surgir fendas e pequenas montanhas cobertas por uma leve nuvem de poeira baixa que tornam qualquer print uma obra de arte. Para completar, o jogo é bem otimizado, consumindo quase todos os 8 GB do RAM da minha placa de vídeo – algo que poucos games no mercado fazem – e exigindo menos da minha CPU. Resta torcer para que o port para consoles no ano que vem tenha um desempenho parecido.

Com relação à trilha sonora, mal notei sua presença. Não existem destaques aqui salvo algumas exceções: a música de abertura You’ve got the power, de Stan Bush, que foi regravada pelo músico especialmente para o jogo. A música do menu inicial e algumas outras que tocam em momentos tranquilos também são boas. Uma pena que as demais canções do jogo não mantenham o nível. Além disso, o jogo não conta com dublagem em português, mas possui legendas no nosso idioma. A dublagem original em inglês é no máximo razoável e assim como a maior parte da trilha sonora não tem brilho.

Shadow Warrior 2 é uma grande sequência para um bom jogo. Quase todos os aspectos do game original foram expandidos da maneira correta, do mundo aberto e mapas aleatórios, ao novo sistema de gestão de inventário e com a notável exceção dos personagens: não há nada que não tenha melhorado em Shadow Warrior 2 com relação a seu irmão mais novo. As opções de jogabilidade foram  expandidas, a gestão do inventário é divertida, seu arsenal está entre os maiores do gênero FPS e co-op é uma adição sólida e divertida. Se você gostou do primeiro jogo ou de Doom neste ano, Shadow Warrior é garantia de umas boas horas de diversão.

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