Análise: Titanfall 2 é amor em proporções titânicas

O ano de 2016 foi fenomenal no que diz respeito a games do gênero First Person Shooter, o bom e velho FPS. O ano começou com Superhot, lançado para PC e posteriormente para Xbox One, que inovou no gênero com uma jogabilidade única. Passamos por Battleborn e Overwatch, shooters de herói com propostas muito diferentes (e nível de popularidade também), mas com fundações bastante sólidas e jogados até hoje por muitos. Doom em sua mais recente iteração foi uma surpresa agradabilíssima e foi capaz de atualizar a jogabilidade clássica aos dias atuais. Shadow Warrior 2 evoluiu em praticamente todos os aspectos com relação ao jogo original e também entusiasmou. Battlefield 1 correspondeu ao altíssimo hype e Call of Duty: Infinite Warfare possui a melhor campanha da série em anos. Todos esses jogos são exemplos de títulos fortíssimo do gênero que agraciaram consoles e PC este ano. Porém, a despeito de suas qualidades, nenhum deles me agradou tanto quanto Titanfall 2, até agora meu jogo de tiro favorito nesse ano saturado de bons títulos, coisa que dificilmente deve mudar até dezembro.

Titanfall 2 é a sequência do jogo homônimo de 2014, lançado nos consoles com exclusividade para Xbox One e também para o PC. Ao contrário do primeiro jogo, este aqui chega com uma campanha single-player (enquanto o primeiro jogo tinha um modo campanha apenas multiplayer) e uma narrativa mais bem amarrada e pessoal, acompanhando os feitos do piloto John Cooper e seu Titã BT-7274. Faz-se necessário dizer desde já que qualquer conhecimento prévio sobre o universo do jogo é dispensável – em outras palavras, você não precisa ter jogado o primeiro para entender o que se passa na história deste jogo.

titanfall 2

O jogo retrata o conflito num futuro indeterminado entre a IMC e a Milícia – o primeiro, um conglomerado empresarial multiplanetário que explora e exaure os recursos de territórios da chamada “Fronteira”, mundos distantes da Terra, e o segundo, uma união militar desses planetas que buscam resistir aos abusos da IMC. A IMC é mais bem equipada e possui mais recursos que a Milícia, que conta com a bravura de seus soldados para ganhar o conflito pela sua liberdade. Um desses soldados é Jack Cooper, fuzileiro de terceira classe que vem sendo treinado pelo piloto e capitão Tai Lastimosa para se tornar um piloto de Titã, a elite das forças militares no universo de Titanfall. Pilotos são capazes de operar e estabelecer uma ligação neural com Titãs, enormes robôs bípedes com arsenais capazes de dizimar tropas inteiras.

A campanha de Titanfall 2 inicia-se em meio a uma sessão de treinamento em realidade virtual de Lastimosa e Cooper, que é interrompida por um ataque da Milícia em uma base de pesquisa onde a IMC estaria desenvolvendo uma nova arma para a guerra. Acompanhamos a visão de Cooper em primeira pessoa enquanto ele é arremessado de seu cruzador espacial em direção ao planeta para enfrentar as tropas da IMC e seus terríveis soldados mecânicos chamados de Espectros. A luta vai mal para a Milícia e Cooper quase perde a vida, sendo salvo no último momento por Lastimosa e seu Titã BT-7274. Mas o heroísmo tem seu preço e Lastimosa acaba perecendo e BT é seriamente danificado. Em seus últimos momentos, o capitão transfere o controle de BT para Cooper, que agora deve reativá-lo e encontrar-se com as tropas remanescentes da Milícia e tentar destruir a nova arma da IMC.

A trama, apesar de simples e fácil de acompanhar, cumpre muito bem o seu papel. Temos a noção do tamanho e da ameaça representada pela IMC e podemos experimentar o prazer de lutar pelo lado que claramente está em desvantagem nesse conflito. Suas fortalezas estão nos personagens, todos com personalidades bem definidas e queridos, mesmo os vilões mais desagradáveis. Aliás, não há escassez de caras maus em Titanfall 2: a IMC contratou uma organização mercenária conhecida como Super Predadores, encabeçada pelo cruel Kuben Blisk, que retorna do primeiro jogo para proteger sua nova arma. Os Super Predadores incluem vários pilotos que testarão os limites da habilidade de Cooper e BT durante o jogo e podem ser enfrentados como “chefões” ao final de cada fase, fazendo franca homenagem a jogos antigos e a filmes dos anos 80 e 90, com seus vilões marcantes. Os mocinhos também marcam presença, embora só apareçam perto do final do jogo, incluindo personagens que estavam no primeiro jogo como Sarah Briggs e Barker, mas que agora receberam caracterizações melhores e definitvas, e os novatos do esquadrão mercenário (mas honrado) do 6-4 (pronuncia-se “seis quatro”).

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Mas o destaque absoluto entre os personagens fica para Jack Cooper e BT-7274. Juntos, eles têm interações hilárias: Cooper por possuir um espírito aventureiro e BT por ser uma máquina que leva tudo ao pé da letra. É brilhante ver o crescimento e o amadurecimento da relação entre piloto e titã durante a campanha. Sentimos a adrenalina correr, a tensão e a tristeza da perda em alguns momentos mais pesados do jogo. Esses são personagens irresistíveis, fazendo com que eu passasse a me importar com o destino dos dois durante o desenrolar da história. Em certos momentos, podemos escolher entre duas opções o que Cooper dirá para a BT e ele responderá de acordo, o que não chega a oferecer uma imersão muito maior, mas é um detalhe legal que ajuda a definir a personalidade de Cooper a sua escolha.

Quando nos referimos à campanha de Titanfall 2 (que é estritamente para um jogador), estamos falando de uma aventura comparativamente curta, com 6 a 8 horas de duração na dificuldade normal, mas que não desperdiça um único minuto desse tempo entediando o jogador ou obrigando-o a fazer algo que não tenha sentido ou não seja divertido. Cada fase e cada segmento da campanha oferece o melhor de tiroteios, quebra-cabeças e percursos de parkour com um sincronismo tão perfeito que farão boa parte dos jogadores grudarem-se na cadeira e só a deixarem quando completar o jogo. Em uma das fases em especial, Cooper irá se apossar de um dispositivo capaz de realizar saltos temporais que deve ser utilizado para finalizar para percorrer o estágio com sucesso. Esta é certamente uma das minhas fases favoritas em qualquer FPS. Além disso, dada a sua curta duração e o ritmo muito bem cadenciado, os jogadores que se sentirem envolvidos pela experiência muito provavelmente terão vontade de jogá-la novamente, seja em busca de um desafio maior numa dificuldade mais elevada, ou em busca dos coletáveis “marcados” (capacetes de pilotos escondidos pelas fases) e “não-marcados” (áudios espalhados que revelam mais sobre os personagens e o universo do jogo). Se tiver uma boa experiência em jogos de tiro, recomendo jogar a campanha na terceira dificuldade, onde o jogo tem melhor equilíbrio entre desafio e diversão.

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Durante a campanha, o combate é muito divertido e o jogo fará questão de intercalar lutas a pé e com o titã. BT, a propósito, tem a capacidade de trocar entre os equipamentos de diversos tipos de titã (dois dos quais não estão no multiplayer e podem, quem sabe, ser introduzidos como DLC a posteriori), incluindo suas armas e gadgets. As lutas contra os já mencionados vilões são sempre contra seus titãs, cada um de classe diferente, o que garante embates diferentes contra cada um deles e ajuda o jogador a se familiarizar com os mesmos para o multiplayer.

Se há alguma reclamação a ser feita sobre esse modo de jogo, é como a campanha evidencia  a relação conflitante de uma mecânica de regeneração de saúde com o parkour essencialmente perfeito: o primeiro obriga o jogador a se esconder para não morrer enquanto o segundo estimula o movimento constante. Não é algo que incomoda durante o multiplayer e como o foco da série é justamente o PvP, não havia muito o que fazer com relação a não ser que introduzissem um sistema de saúde fixa e medpacks somente no single-player. Ao menos, enquanto o jogador estiver correndo pelas paredes e saltando por aí, a mira dos oponentes piora o suficiente para que o manobras de parkousejam uma tática aceitável enquanto não tomar nenhum dano crítico. No mais, Titanfall 2 tem a minha campanha favorita entre todos os FPS lançados este ano.

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No que diz respeito ao multiplayer, o primeiro Titanfall já estava muito perto da perfeição para o gênero “Twitch Shooter”, ficando atrás apenas com relação à customização de personagens, titãs e armas, um aspecto no qual os desenvolvedores da Respawn trabalharam bastante. Outro ponto, no qual adições foram feitas, é a quantidade de armas. Enquanto o primeiro jogo restringia-se a um rifle, duas SMGs, duas snipers, uma metralhadora, uma escopeta, algumas armas anti-titãs e, é claro, a polêmica Pistola Smart (cujas balas rastreiam e acertam os adversários automaticamente), Titanfall 2 dobra este número, oferecendo mais opções em todas as classes de arma e inclusive acrescentando mais algumas. As habilidades táticas de pilotos também foram modificadas. Invisibilidade continua lá e o aumento de velocidade também, mas novidades como o gancho e o Cronossalto (que permite ao jogador se teletransportar para outro tempo por alguns segundos e depois voltar ao presente) foram adicionadas e outras, como a visão através das paredes, foram retiradas e se tornaram um Boost (do qual falo melhor nos parágrafos seguintes).

De resto, a maior parte das modificações é lateral, mudando o jogo sem necessariamente torná-lo melhor ou pior. Por exemplo, enquanto a quantidade de armas aumentou, as opções de customização estão mais limitadas. Todas as armas possuem dois slots para habilidades como recarga rápida ou “atirar enquanto corre”, além de três ou quatro opções de mira pré-selecionadas e mais um contador de mortes. Outra mudança relacionada é que agora você pode carregar apenas uma arma primária e secundária, sendo a última algum tipo de pistola ou anti-titã. No primeiro jogo era possível levar as todas três sempre. A redução na escolha do arsenal se estende também aos titãs. Embora haja um número maior desses tanques com pernas (seis, versus apenas três no primeiro jogo), não podemos selecionar seu armamento ou suas habilidades táticas como antes. Dessa forma, os titãs se comportam como classes em um jogo de MOBA e todos sabem exatamente do que são capazes – à exceção de um único incremento que podemos escolher para cada titã que pode melhorar alguma de suas habilidades, no máximo.

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O sistema de cartas do jogo, ou “Burn Cards”, que agregavam alguma vantagem ao jogador quando usadas em partidas, foi substituída pelo Boost. Simplificado, o Boost é uma única vantagem que pode ser selecionada na sala de espera ou no respawn dos jogadores (enquanto até três cartas podiam ser selecionadas no primeiro jogo) e pode ser ativada a qualquer momento quando a barra de titã é preenchida até um determinado nível. A quantidade de Boosts também é menor se comparada à variedade absoluta das cartas originalmente.

Titanfall 2 vêm com 9 mapas no lançamento, cada um com tamanho e características diferentes, mas todos permitem uma ação recheada de verticalidade e pontos amplos e mais fechados para diferentes tipos de combate. Destacamos que todos os DLCs do jogo serão gratuitos e novos mapas já foram anunciados, embora sem quantidade ou data definida (com a notável exceção de Angel City, o popular mapa do primeiro jogo que retornará refeito em dezembro). Em um tempo em que muitos jogos saem “pelados”, com muitas DLCs pagas a caminho e versões com conteúdos diferentes – em especial os próprios jogos da Electronic Arts – essa iniciativa de Titanfall 2 em não cobrar pelos conteúdos futuros no intuito de não dividir a base instalada é louvável.

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O que também parece ter sido inspirado em jogos competitivos como MOBA é o novo modo de jogo Caça Recompensa, do qual já falamos em nosso preview do beta do jogo, que consiste em matar mobs, acumulando assim dinheiro que deve ser depositado em um de dois “bancos” que surgem no mapa ao fim de cada onda desses inimigos. O primeiro time que coletar até 5.000 créditos vence a partida. É um modo que pode ser, em igual medida, divertido e frustrante, mas que dificilmente não mexe com os ânimos do jogador. O jogo ainda vem com vários modos familiares, como o tradicional Exaustão (modo que pode ser ganho com pontos, que são acumulados por cada eliminação feita pelos jogadores de NPCs, titãs e outros pilotos), Sobrevivência de Titãs (um modo que inclui apenas os robôs monstruosos), Piloto Vs. Piloto (este aqui não tem titãs), Cada um por si (12 jogadores, nenhum time, muita carnificina) e captura da bandeira. Inclui também o modo Coliseu, que custa uma entrada recebida aleatoriamente após cada partida, em que apenas dois pilotos tentam se matar em até 5 rodadas em uma pequena arena. A variedade de opções de jogo é boa, mas a população brasileira nos servidores nacionais é baixa. Não é uma falha do jogo, mas é uma pena que, ao menos no PS4, sejamos obrigados a trocar para um servidor norte-americano se quisermos jogar algo além do modo Caça Recompensa. Definitivamente mais brasileiros (e sul-americanos) devem jogar Titanfall 2.

Em suma, o modo multiplayer não apresenta uma melhoria completa com relação ao seu antecessor, mas nem precisava. As mudanças presentes aqui tornam Titanfall 2 um jogo realmente diferente e tão bom quanto o primeiro. As mudanças implementadas mostram a coragem do estúdio em inovar e uma compreensão profunda do que torna a série divertida e envolvente. Titanfall 1 e 2 realmente parecem jogos diferentes se comparado lado a lado e isso é uma coisa muito boa – para a série e para a indústria, que muitas vezes tem receio de inovar.

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 A jogabilidade de Titanfall foi preservada e melhorada. Correr pelas paredes e manter a velocidade com saltos rápidos ainda existe, e foi até aprimorada com a nova possibilidade de deslizar pelo chão dos cenários. Habilidades como o gancho também contribuem para manter a velocidade e para que os novatos consigam acompanhar o ritmo dos veteranos. Houve, de fato, uma pequena redução na velocidade geral dos pilotos e de titãs também (com a franca redução nas cargas de arrancada), mas com algumas horas de partida logo se aprende a compensá-la com as novas adições. Titanfall 2 é definitivamente o shooter mais fluido da geração, deixando as franquias concorrentes no chinelo com relação à simplicidade e à eficácia da movimentação.

Uma campanha single-player sensacional em todos os aspectos e um multiplayer que está na vanguarda do gênero fecham o pacote irresistível de Titanfall 2 em seu lançamento. O jogo foi lançado em uma janela díficil, na temporada dos maiores jogos do ano e entre os mais conhecidos FPS da atualidade. Entretanto, Titanfall 2 tem porte, e certamente conteúdo, para sobressair e consagrar-se como o melhor jogo de tiro de 2016 e um dos melhores games do ano.

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