Análise: Persona 5 vai roubar mais de 100 horas de sua vida

O ano é 2008 e o aclamado Persona 4 foi lançado. Desde então seus fãs estão sedentos por um novo jogo da série, mas só receberam spin offs (dois de luta e um de dança) e uma versão definitiva (Golden) – esta, para o portátil da Sony. Após quase 10 anos esperando por um novo jogo da série, podemos afirmar que a espera valeu cada minuto e temos uma obra de arte em nossas mãos. Muito possivelmente o RPG japonês definitivo.

Antes de iniciar essa análise, posso dizer aos fãs de persona e J-RPG’s que podem comprar este jogo sem medo algum e irão amar a experiencia. Já aos que nunca se interessaram pelo gênero, essa pode ser uma excelente porta de entrada, pois irão se deparar com temas atuais e muito interessante.

Por fim, vale ressaltar o significado do termo Persona que não foi tirado do acaso. Ele, na realidade, tem inspiração no trabalho do Psicólogo Carl Jung que é a face social que o indivíduo apresenta ao mundo “uma espécie de máscara, projetada por um lado, para fazer uma impressão definitiva sobre os outros, e por outro, dissimular a verdadeira natureza do indivíduo”. Esse discurso é batido dezenas de vezes ao tratar cada caso em Persona 5.

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I am Thou, Thou art I

O protagonista (o qual você escolherá o nome), foi incriminado por um adulto por um crime que ele não cometeu e ele acabou sendo ”expulso” de sua cidade natal. Depois desse evento ele foi aceito em um novo colégio e conseguiu seu tutor Soijiro Sakura. Tanto seu colégio como Soijiro lembram ele semanalmente que ele não pode cometer nenhum deslize senão será expulso novamente e terá sua ficha criminal ainda mais suja.

Esses primeiros minutos nada agradáveis para o protagonista, dita muito bem o ritmo que você irá lidar ao longo do jogo: Pessoas com algum tipo de poder e influência irão se utilizar deles em detrimento do bom senso e da realidade. Além disso, você deverá lidar com muito preconceito de todos seus colegas, pois será conhecido como “o aluno que cometeu um crime e foi expulso de seu colégio original”.

Para lidar com as injustiças dessa Tokyo corrompida por pessoas vis e que fazem uso de seu poder a bel prazer, você receberá a visita do icônico Igor em seu Velvet Room para firmar um acordo. Esse acordo lhe tornará um usuário de Persona e será possível invadir o metaverso e mudar o coração dessas pessoas más e traze-los de volta a realidade e humildade, despindo-os de sua soberba. Você se torna um Phantom Thief.

Certamente você encontrará fortes aliados ao longo de sua aventura que irão ajuda-lo. Eles também serão usuários de Persona, e cada um deles será um excluído da sociedade. Esses laços e referencias ao abuso de poder, é o que faz Persona 5 brilhar.

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Arsene, Leblanc e muitas referências

Algo que você notará ao longo do jogo é que Persona 5 está repleto de referências e é um jogo que irá desafiar sua perspicácia. Logo a primeira grande referencia do jogo vai para seu lugar de moradia, o café Leblanc, e sua primeira Persona, Arsene.

A primeira vista são somente nomes e separados não tem nenhuma correlação, porém, a verdade é que Arsene Lupin é um personagem criado pelo escritor Maurice Leblanc. Não só isso, mas Arsene Lupin seria o Sherlock Holmes francês, o “ladrão de casaca”. Ele é descrito como “uma força do bem, atuando do lado errado da lei”. Isso é exatamente o que acontece em Persona 5 onde você irá fazer justiça através de meios sombrios.

Não somente essa complexa referencia está presente no jogo, como muitas outras. Simples referencias, posso citar o gênero sentai (power rangers) ou até um chefão que faz referência ao Tecnodromo das Tartarugas Ninjas. Já os aficionados pelo mangá/anime Death Note ficarão felizes em saber que ao longo do jogo muito será discutido se a justiça de Kira dos Phantom Thief é correta ou se eles estariam do lado errado da lei.

E essas referências não param somente nesse emaranhado de informações e fatos. Praticamente toda Persona mostrada ao longo do jogo tem alguma referencia a alguma mitologia ou a historia do mundo. Um exemplo, é que a Persona de Ann, é a Carmen. Ela faz referência a ópera Carmen e leva consigo dois “bonecos” que representa os homens que ela enfeitiçava. Já Ryuji possui a Persona Captain Kidd, que faz referência ao capitão pirata. Já Morgana possui o Zorro, que, bem, faz referência ao herói Zorro.

O ponto é, Persona tem centenas de referências ao longo do jogo e caso deseje explorar ele, verá o quão inteligente o jogo é. Felizmente, é possível clicar em cima de cada persona e ver um pequeno histórico que mostra sua origem.

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Adolescente ou um ladrão do Metaverso?

Se há algo inquestionável em Persona 5 é que ele é absurdamente estiloso e lindo. Acredito que a melhor definição é que se trata de um anime jogável. Cada cena é super bem trabalhada, em especial quando está no metaverso. A Atlus chegou ao ponto de fazer a tela de XP e loading serem agradáveis de serem vistas. E não só isso, a trilha sonora é muito boa também.

O jogo se divide em dois momentos. O primeiro, e mais simplificado, é no mundo real de Tokyo onde você e sua equipe/amigos passarão os dias. Nele, você é um adolescente normal e viverá de acordo com as regras japonesas. Irá estudar de manhã, e terá mais dois períodos para conversar/sair com um amigo específico, trabalhar, investigar algo, fazer compras, estudar e muitas outras ações corriqueiras. Dentre essas opções, existe a possibilidade de minigames como pesca e baseball. Estes, foram bem trabalhados em Persona 5 e existe uma efetiva interatividade com as atividades. Além disso, será possível explorar o metaverso tanto para invadir uma dungeon principal como para os Mementos (iremos falar deles mais a frente).

Já o segundo momento, e não necessariamente mais importante, é quando você se transforma em um ladrão Fantasma (Phantom Thief). Sua missão principal é tomar o desejo de pessoas (adultos em sua maioria) que possuem um pensamento pervertido que corrompe seus corações. Para fazê-lo “voltar a realidade”, é necessário que se perca dias (nas dungeons principais) para derrubar um grande inimigo/personalidade ou então, achar pistas de uma pessoa do dia a dia que está atingindo negativamente diversas pessoas e cometendo algum crime ou opressão de menor valor.

Mas por que citei isso tudo? Muito simples, cada ação vai lhe “comer” ou uma parte do dia ou um dia inteiro. Então é de extrema importância planejar bem quando irá ou não executar uma tarefa no mundo real ou quando invadirá o metaverso (que consome um dia inteiro). E isso tudo influencia no progresso do jogo, pois existem limite de datas para certos objetivos no metaverso ou então para realizar mais ações no mundo real.

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Chefões que irá amar odiar e os confidentes

Como já foi mencionado, Persona 5 é um jogo muito denso com discussões reais e tópicos muito delicados e envolventes. Não por menos, seus inimigos tem uma história de fundo muito forte que lhe fará odiar a grande maioria deles.

Já deixamos claro que cada personagem tem uma motivação própria e um tipo de característica forte que pode até isola-los de seu grupo social. E jogando sal nas feridas, temos os vilões. Eles, em sua grande maioria, terão algum tipo de envolvimento com os personagens do seu grupo e você levará a luta para o lado pessoal. Não posso falar muito para não dar spoiler, mas já posso adiantar que logo o primeiro chefão será um dos piores nesse sentido e ele merece um troféu de babaca do ano (nós do site o carinhosamente o apelidamos de Kamoshit). Porém, algo que podemos falar, é que cada dungeon principal é única. Por ele ser uma representação de cada “rei de seu palácio” as dungeons tomam formas e desafios muito diferentes ao longo do jogo.

E seguindo nessa vibe de envolvimento dos personagens, temos a possibilidade dos “links sociais” com seus confindants. Certamente os fãs da franquia já estão carecas de saber o que é isso, mas para os que não estão familiarizados, é um sistema onde você pode escolher com que membro (ou não-membro da equipe) você poderá desenvolver uma amizade/relacionamento. Esse sistema tem dois grandes benefícios. O primeiro é a chance de conhecer ainda mais o histórico de cada um e aprofundar sua amizade (talvez até se desenvolvendo em um romance). Já o segundo é que com cada evolução, você poderá desbloquear mecânicas fundamentais, como ganhar mais experiencia na hora de criar novas personas. Dentre as mecânicas, posso citar a troca de personagens, passar a vez para um outro personagem, se curar de status negativos e muito mais.

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Mecânica clássica e atualizada

Persona 5 segue o esquema de um clássico J-RPG onde cada um tem seu turno e pode-se demorar quanto tempo quiser para fazer seu movimento. Porém, as similaridades param por ai. Primeiramente vale dizer que cada personagem, salvo o principal, tem uma única persona e isso lhe dará vantagens e desvantagens. Porém, o personagem principal terá a facilidade de trocar entre personas e isso dará uma outra dimensão a estratégia de luta e você poderá ter até cerca de 10 personas por vez.

Para conseguir essas Personas você deverá literalmente trocar uma ideia com elas. Caso você atinja o ponto fraco de um inimigo, ele ficará caído no chão e abrirá uma tela de opções. Dentre elas, será possível negociar a rendição por um item, dinheiro ou então bater um papo para ativar a possibilidade de recrutá-los para seu time, porém, as conversas são as mais loucas possíveis. Não existe um sentido em si nas respostas. Como exemplo, posso citar uma conversa em que recrutei um novo monstro após falar que um pão no pingado era uma boa refeição. Por fim, existe a opção de usar o All-Out Attack, ou seja todos os membros do grupo irão dar um ataque devastador. A grande estratégia será dar um ataque que atinja a fraqueza do inimigo e desferir esse ataque para acabar rapidamente com a partida.

Além do mencionado, volta a franquia o uso de armas. Cada personagem estará armado com munição limitada por visita no metaverso. A vantagem desse tipo de ataque limitado, é que ele pode ser desferido em diversos inimigos por turno. Outra coisa que volta é a sala de save. A cada Dungeon, você irá desbloquear essas salas como um porto seguro e poderá fazer uma viagem rápida entre as salas e para o início do Palácio.

Quando você não estiver lutando nos “palácios”, existe a novidade de visitar Mementos. Ele é uma dungeon “eterna” baseada em um metrô em que o layout dos andares muda a cada vez que o jogador os acessa. Nele, você irá mudar o coração dos casos menores que irão impactar menos a sociedade. Porém, terão um efeito direto mais no seu dia a dia como um caso de bullying da escola, ou então um chefe malvado que incrimina seus funcionários, stalkers e muito mais.

E tudo isso que falei é feito sempre com muito estilo e uma animação sublime. Cada tela, opção, ataque, negociação é feito de forma estilosa.

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Conclusão

Após jogar dezenas de horas de Persona 5, você fica se perguntando o porquê desta obra de arte ter demorado tanto para chegar e quanto tempo irá demorar para o sexto jogo da franquia. No total serão cerca de 100 horas de gameplay em que o jogador ficará envolvido com uma história fantástica e com discussões muito atuais. O sistema de gameplay é de certa forma inovador para um J-RPG com muitas opções de ataques diferenciados, em equipe, negociações e muito mais.

Além da história ser muito interessante, e desafiadora em suas referências, ela brilha por todos os relacionamentos no jogo. Cada personagem tem uma história e motivação claras que acabam fortalecendo os laços dos personagens como o seu interesse por conhecê-los melhor.

Persona 5 brilha em muitos pontos e é o melhor jogo da série. Os aficionados pelo estilo J-RPG certamente ficarão fascinados com essa experiência, assim como os entusiastas da série. Além disso, ele se torna a melhor porta de entrada para o mundo dos J-RPG’s. É uma compra obrigatória.

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Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.
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