Análise: The Red Strings Club é uma obra de arte em forma de experiência narrativa

Dos criadores de Gods Will be Watching, The Red Strings Club veio com a proposta de trazer uma experiência narrativa bastante rica. Com temática cyberpunk e esbanjando beleza em pixel-art, o jogo encheu meus olhos logo que foi anunciado no ano passado. Sou fã de carteirinha de praticamente tudo que é produzido pela Devolver Digital, e The Red Strings Club me parecia mais uma daquelas pérolas artísticas que a empresa gosta de lançar. Através de uma narrativa thriller point and click, a desenvolvedora Deconstructeam levanta questões de moralidade, ética e reflexões sobre a felicidade e tristeza. Agora, será que The Red Strings Club consegue trazer toda essa profundidade de forma satisfatória? Confira abaixo na nossa análise:

Em The Red Strings Club, o mundo é dominado por grandes corporações que possuem poder suficiente para influenciar drasticamente o modo de vida das pessoas. Mais especificamente, uma dessas empresas, a Supercontinent Ltd., desenvolveu módulos que têm a capacidade de proporcionar ou remover sentimentos e emoções das pessoas de acordo com seus pedidos. A empresa se apresenta como uma corporação que busca melhorar o mundo através da felicidade e da supressão da tristeza. A questão é: Qual a moralidade disso?

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Assim que iniciamos a história do jogo, conhecemos os personagens principais de The Red Strings Club: Brandeis, um hacker freelancer revolucionário cujo maior objetivo é destruir as corporações; Donovan um traficante de informações e barman extremamente habilidoso em manipular as emoções dos seus clientes; e Ankara, uma androide senciente que chega no bar praticamente destruída e que serve de estopim para toda a trama do jogo. Ao longo da narrativa, o desenvolvimento dos três ao longo da história e a apresentação dos personagens secundários é feita de forma sublime pelo pessoal da Deconstructeam. Cada cena do jogo e cada novo encontro faz com que o jogador se interesse cada vez mais pelos mistérios que vão sendo apresentados e pelo papel de cada personagem novo na trama extremamente bem concatenada de The Red Strings Club.

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Logo de cara, o título já te coloca em situações de reflexão bastante interessantes. Tudo começa com a chegada de Ankara praticamente destruída no The Red Strings Club, bar revolucionário que serve de ponto de encontro entre pessoas que trabalham pela disrupção da ordem corporativa instaurada na sociedade. Ainda sem entender o motivo pelo qual a androide, que até então nunca tinha saído dos confinamentos da Supercontinent Ltd., havia chegado ao clube, Brandeis resolve hackear as memórias da personagem para saber o que havia acontecido. Ao fazê-lo, o personagem é enviado à última memória de Ankara, na qual ela era uma das robôs responsáveis pela confecção dos módulos que melhoram as habilidades e percepções das pessoas ou as fazem suprimir certos sentimentos e superar incapacidades. O grande ponto, entretanto, é que Ankara faz parte da primeira linha de robôs na história a ser senciente e completamente capaz de realizar decisões éticas e morais. Isso acontece basicamente porque quem define o que a androide decidirá criar e implantar como módulo nos clientes é o próprio jogador. E é aí que mora a beleza de The Red Strings Club. Ao nos depararmos com clientes que pedem, por exemplo, mais seguidores e sucesso nas redes sociais, podemos tanto satisfazer o desejo da pessoa dando um módulo de carisma, ou fazer com que ele seja indiferente às opiniões dos outros, dando um módulo de indiferença. Ou seja, as decisões de Ankara são pautadas no julgamento do jogador do que é melhor para a pessoa, e isso muda toda a história. Quando uma das revolucionárias consegue se infiltrar as instalações da Supercontinent Ltd. e muda os módulos que Ankara pode usar, toda a trama se inicia. A androide deve escolher módulos disruptivos para utilizar em executivos da empresa, e essas decisões irão influenciar as decisões futuras que terão que ser feitas ao longo do jogo.

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Durante a maior parte do título, controlamos as decisões de Donovan, que é extremamente habilidoso com seus drinks a ponto de influenciar as respostas das pessoas, as conduzindo a diferentes emoções por meio de suas bebidas. De forma lógica, o barman e encarregado pelo The Red Strings Club utiliza de todos os seus conhecimentos baristas para retirar informações dos clientes que aparecem no bar e, novamente, todos os drinks feitos e as emoções consequentes dos mesmos são de pura responsabilidade do jogador. Por exemplo, podemos escolher deixar um personagem mais confortável para obter respostas através da boa lábia de Donovan ou estressá-lo com o intuito de colher informações através do medo. Vale lembrar que as escolhas tomadas por Donovan e as consequentes respostas dos clientes vão concatenando linhas de história em formas de teia, que levarão a diferentes problemas e escolhas no futuro. Agora, o mais incrível disso é que todas as escolhas levam a narrativas extremamente bem feitas. É muito comum em jogos que nos dão essas opções de escolha nos depararmos com situações que não conversam muito com decisões passadas ou resultados que aconteceriam de qualquer forma. Em The Red Strings Club, contudo, todas as decisões influenciam de forma inteligente no decorrer da história e o que acontecerá mais para frente. O mérito disso vai todo para a capacidade dos desenvolvedores da Deconstructeam de criar uma narrativa concisa.

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Vamos agora a dois outros pontos que fazem com que The Red Strings Club seja uma das melhores experiências narrativas dos últimos anos, seu design e sua trilha sonora. Rapaz, que jornada é essa em que o jogo nos coloca? O fato de que não há muita interação com o jogo em si fora a confecção dos módulos em cerâmica e a criação dos drinks deu margem para que a Deconstructeam criasse um lindo ambiente cyberpunk em pixel-art junto a animações muito bem feitas. Toda essa beleza visual aliada à trilha sonora maravilhosamente bem escolhida para o jogo faz com que The Red Strings Club seja não somente uma aventura narrativa primorosa, mas uma obra de arte interativa. Sério, um dos momentos mais memoráveis da minha trajetória no jogo foi a parte da criação dos módulos, em que músicas com sensações diferentes tocavam a cada uma das peças que eu criava em cerâmica. As escolhas de música para o jogo levaram em conta não somente o fato de que a temática é cyberpunk, mas também a sensação que o jogo tenta induzir ao jogador. Ou seja, temos o poder de influenciar a vida das pessoas e a narrativa ao mesmo tempo em que somos influenciados pelo próprio jogo. É a criação tomando posse do criador.

Em suma, The Red Strings Club é uma experiência incrível para PC. Para os fãs de jogos independentes, o título é imprescindível e tem a capacidade de disputar muitos prêmios neste ano. Para os fãs de cyberpunk, experiências narrativas e thrillers, é praticamente obrigatório. Mesmo aqueles que não são fãs do gênero e preferem o tipo de jogo mais tradicional podem se aventurar em The Red Strings Club e se deparar com uma história incrível e uma experiência sublime.

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game = [The Red Strings Club]

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info = [Lançamento: 22/01/2018]

info = [Produtora: Deconstructeam]

info = [Distribuidora: Devolver Digital]

plataformas = [PC]

nota = [5/5]

decisão = [Simplesmente incrível]

texto = [Uma das melhores experiências]

texto = [narrativas já feitas]

positivo = [Pixel Art excelente]

positivo = [História incrível]

positivo = [Decisões inteligentes]

negativo= [Curto]

negativo = []

}}

Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.
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