Análise: Thronebreaker – The Witcher Tales: história densa e carteado desafiador entregam um jogão

Quem me conhece melhor sabe o quanto sou fã da série Witcher e que acredito que Witcher 3 foi o jogo dessa geração. Mais uma vez, em mais um game, estamos de volta ao seu universo. Thronebreaker: The Witcher Tales seria uma campanha single player para Gwent – jogo de cartas derivado de Witcher 3. Entretanto, a ambição do game assumiu um protagonismo tamanho que sua desenvolvedora optou por lançá-lo como um jogo inteiro independente. A decisão foi em geral certa. Com isso deixaram Gwent com sua proposta competitiva e leve e abriram espaço para um novo jogo no universo riquíssimo da série. Thronebreaker traz uma reformulação das mecânicas de Gwent com um mundo relativamente aberto e um sistema de gerenciamento de recursos. O que mais marcou Thronebreaker, entretanto, foi a história e enredo, marcas registradas de toda a série da polonesa CDPR.

Traição e vingança

 

A maioria dos jogos nos bota na pele de um escolhido pé rapado e batalhamos nossa galgada até o topo, mas aqui interpretamos uma rainha. Meve é seu nome. Meve é soberana de Lyria e Rivia (lembra de algo?). Ela é destemida, audaciosa, querida e bela. A escolha de bela como último adjetivo não foi à toa porque a pegada com um viés empoderador feminino do jogo, apesar da ambientação medieval, é clara em diversas ocasiões. Isso é ótimo, já que fugimos de clichês recorrentes sobre as donzelas indefesas. Após sofrer uma traição e ver seu reino cair em mãos da nação inimiga Nilfgaard, Meve se vê como uma fugitiva tendo que criar um exército do nada. Para isso, ela recruta desde ladrões do campo, passando por heróis em cruzadas religiosas à cavaleiros de elite.

Cada um desses específicos personagem, além de serem cartas para usar no baralho, também agregam para a história. Você pode conversar com eles e saber de seus anseios e frustrações. Também, como cada um tem personalidades bem distintas, é muito curioso ver suas reações e brigas internas. Apesar da caracterização forte dos personagens, eu achei que eles teriam mais impacto no desenrolar da história e das batalhas. Mas as interações entre eles e você, a rainha Meve, acabam sendo apenas um conteúdo extra para quem gosta de mergulhar mais profundamente nos contos do mundo.

Em sua busca por vingança e a retomada de seu antigo trono, Meve se vê obrigada a apelar para a diplomacia, barganhas das mais diversas e força bruta. Por isso, não é possível escapar de escolhas que trazem dilemas pesados. Assim como em The Witcher 3, muitas escolhas não são fáceis e acarretam consequências imediatas ou futuras. Esses resultados variam desde a perda de recursos, à perda de moral da equipe ou a necessidade de batalhar em puzzles mais difíceis. Não vá esperando respostas fáceis.

Vamos jogar Gwent?

 

Ao contrário do jogo original dentro de The Witcher 3 e do independente Gwent, aqui temos uma versão simplificada. Ao invés de 3 linhas de cartas (corpo a corpo, arqueiros e catapultas), Thronebreaker conta apenas com duas. As cartas também são limitadas, já que você só tem o exército da protagonista e o acesso à outras poucas cartas se dá por vitórias e desafios específicos ao longo dos 5 mapas do jogo. Apesar da simplificação, a mecânica dos desafios e os objetivos de muitas batalhas casam perfeitamente com essa estratégia. Assim, quem está acostumado com o Gwent competitivo, não precisa se entristecer, temos aqui uma solução de batalhas muito saudável.

Para isso o jogo conta com diferentes dinâmicas de duelos. Temos o jogo clássico, onde vence o melhor de três turnos, e os desafios específicos de história ou de missões secundárias. Claro que essa diferença afeta em como você deve se aproximar de cada encontro. Para as partidas regulares é preciso de estratégia para vencer dois turnos seguindo a pontuação padrão, enquanto que os desafios quebra-cabeças vão seguir linhas específicas (informadas ao iniciar a batalha).

A maioria desses puzzles são novidades para os jogadores de Gwent e conta com uma única rodada. Boa parte deles são como quebra-cabeças. Portanto, é preciso estudar ainda mais a estratégia antes de lançar cada carta. Já que não existe a opção de desfazer uma jogada, precisamos recomeçar os combates sempre que fazemos um movimento errado. Já que cada batalha segue um sistema diferente, senti falta de poder escolher decks previamente montados antes de começar os encontros. Só temos um único, que às vezes não se encaixa em determinada partida. Para recomeçar os encontros com diferentes cartas, só carregando o último save.

Exército e nações

 

O elemento mais RPG desse jogo é o gerenciamento de recursos, que aqui se limitam a Ouro e Madeira. Você pode conseguir recursos os achando pelo mapa (loot), vencendo batalhas e tonificando essas premiação através de habilidades passivas. Com eles você tem a opção de melhorar o seu acampamento, as tralhas que seu exército leva consigo e criar cartas. Temos a taverna, a tenda da rainha, oficina, campo de treinamento e dos soldados. Neste ponto, mais uma crítica: temos muito pouca carta comparado ao que estamos acostumados em Gwent, mesmo criando novas na tenda do acampamento. Com isso, a possibilidade de dinamismo nos decks é bem limitada.

Todas essas tramas e batalhas e busca por recurso acontecem em 5 grandes mapas, mais um epílogo, que contam com segredos, baús que te dão itens para Gwent, side quests e encontros de história. Explorá-los é um tanto fácil e o único desafio real talvez seja achar os baús indicados por mapas de tesouro. Nesses mapas há apenas um desenho rabiscado, como se fosse carvão sobre o papel, e achar o ponto onde o tesouro está enterrado requer que você identifique o local. Os vilarejos contém um mural de avisos onde marcamos no mapa a existências dos loots, encontros e puzzles. Além destes há outros pontos de interesse que só encontramos explorando ou enviando batedores. Esses batedores se tornam disponíveis após um melhoramento do nosso acampamento.

Truco valendo R$99,99?

 

Thronebreaker é um bom jogo, sem sombra de dúvidas. Conta com uma trama boa, jogo de cartas divertido e suficientemente desafiador e um mundo interessante. Esse pontos em conjunto oferecem ao jogador umas vinte e poucas horas de diversão se ele não se apressar e jogar em uma dificuldade mediana, pelo menos. Quem corre e só quer saber dos desafios vai se frustrar e perder a maior parte do que é interessante em Thronebreaker: os contos, as relações e a história do mundo.

Seria ainda melhor se ele fosse desenvolvido para dispositivos móveis e/ou Nintendo Switch. A relativa leveza dele abre espaço para uma otimização que se desprenda do sofá ou da cadeira do PC. Jogá-lo enquanto nos locomovemos por aí seria uma experiência fantástica, mas infelizmente ainda não é o caso.

Por ser um jogo de nicho, o veredito fica mais à cargo de vocês. Gosta de The Witcher ou Gwent? Thronebreaker é necessário. Busca um jogo mais barato e divertido para jogar nas horas vagas? Vale o investimento. Jogador casual? Se tivesse para mobile seria compra obrigatória. Gamer hardcore procurando algo diferente? Nem tanto. É fã de histórias densas e recheadas? Boa escolha. Quer um jogo competitivo? Cai fora. “Entre razões e emoções, a saída é fazer valer a pena”. Para mim valeu.

notas

Ricardo Carvalho

Gosto muito de escrever, desenhar, de me frustrar com política, de filosofar no barzinho, assistir filmes e defender que games são arte! Me segue no twitter que eu sigo de volta, beleza? twitter.com/perfilricardoc Beijos e boas jogatinas!
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