Análise: Metro Exodus firma a série na elite dos games

A série Metro surgiu despretensiosa e se consolidou ganhando o coração de um grupo específico de jogadores e parte considerável da mídia especializada mundial. Baseada em uma série de livros russa de mesmo nome escrita por Dmitry Glukhovsky, Metro cresceu passando de um jogo “surpresa” independente de relativo baixo orçamento para um dos jogos mais aguardados dos últimos 2 anos. Portanto a pressão aqui era em dobro: manter o nível dos jogos da geração atual e melhorar a querida série dos subterrâneos de Moscou.

A DEUSA AURORA

A deusa do amanhecer, da renovação, na mitologia grega dá nome ao trem que parte do metrô de Moscou em direção ao desconhecido. Após achar um pequeno sinal de atividade vindo da superfície, Artyom insiste em tentar encontrar um lugar para um novo começo, longe da radiação, do frio e dos túneis dos jogo anteriores. Logo, ao insistir no contato com o mundo externo, ele, Anna (que agora é sua esposa) e um pequeno grupo de soldados do metrô se deparam com uma rede de conspirações, mentiras e intrigas que os obrigam a partir em uma jornada para longe de Moscou.

Existem mais alguns detalhes intrigantes que deixarei para vocês perceberem ao jogar, mas essa é a premissa básica, que apesar de parecer simples se mostra muito desafiadora. O desafio se mostra porque, ao cruzar uma grande extensão do território russo, o bando de Artyom enfrenta humanos completamente diferentes dos que haviam no metrô, além de novos monstros e ambientes desconhecidos para os moradores do submundo russo. A interação entre os personagens é muito boa e, apesar da maioria começar apenas seguindo ordens, acabam achando seu lugar ao sol ao longo da jornada. Uns se desenvolvem pessoalmente, outros deixam a comitiva para ir atrás de sua própria busca pessoal e outros novos se juntam à trupe.

Os personagens são incríveis! Parar ao lado dos NPCs e ouvir eles contarem sobre si ou conversarem entre eles próprios é de encher os ouvidos de boas histórias. Não somente os aliados, mas espreitar às sombras e ouvir inimigos batendo papo também é intrigante e revelador, pois pode indicar a localização de itens, passagens secretas e até mesmo detalhes da história. Tem um personagem cujo apelido é Idiota, mas que na verdade é o mais inteligente do grupo de Artyom, sempre com comentários lúdicos e filosóficos.

O que me frustrou neste ponto dos personagens é que os modelos deixam muito a desejar. Suas animações faciais são limitadas demais e a dublagem muitas vezes não parece estar em sincronia com os movimentos do rosto. Sem dúvida não é algo que vem a impossibilitar a apreciação de uma cena ou outra de conversa, mas às vezes gera um pouco de incomodo, afinal estamos em 2019 não é mesmo?

PÓS-APOCALÍPTICO NÃO-MAD MAX?

Um clichê nas ambientações de fim de mundo é a estética estilo Mad Max: muito deserto, poucas coisas, tudo enferrujado e gente doida. Felizmente Metro Exodus foge disso já de cara. Sua primeira região é, assim como nos outros títulos da série, debaixo de muita neve. Além disso, passamos por outros cenários, chegando até mesmo em uma floresta com rios e animais silvestres.

Mas existem clichês que são mais do que simples repetição, são clássicos e merecem respeito. Há sim, uma parte do jogo que tem a pegada, estilo e desafios à lá Mad Max e que fazem jus à receita tão bem aclamada. Tudo isso mostra que é possível fazer uma aventura no estilo fim de mundo sem precisar se esgotar no que já está dado, mesmo que ainda mantenha as referências.

O trem Aurora passa por algumas regiões onde podemos andar livremente, fazer side-quests, conseguir itens e materiais, entender mais da história e fazer missões principais. Pode-se dizer que o jogo é semi-mundo aberto. Para dar cabo do desafio a equipe de desenvolvedores caprichou e criou com primor uma das melhores ambientações pós-apocalíptica que já vi em um jogo de videogame. Cada área do jogo não somente segue as características climáticas próprias como possibilitam, a partir daí, desafios específicos, visuais únicos e inimigos variados. A maioria dos monstros clássicos dos títulos anteriores está aqui, mas não estão sozinhos.

Cada região possui grupos de humanos que convivem em sociedades que seguem dinâmicas próprias que estão diretamente ligadas ao ambiente, haja vista que a escassez de recursos em um mundo destruído é um fato que não podemos negar. Portanto, inimigos de uma localidades não serão iguais das outras, nem na maneira de agir, nem de falar e nem de se vestir. Tudo isso é muito bem observado e desenvolvido.

NOITE E DIA, GENTE E MONSTROS

O jogo conta com um sistema de dia e noite e de progressão que favorece e penaliza uma ou outra abordagem. Durante a noite os monstros e animais selvagens são mais implacáveis, porém humanos terão mais dificuldade em te notar caso você opte por uma tática mais furtiva. Por outro lado, enquanto o sol está a pino, você terá menos monstros pelo caminho e mais humanos atentos. Exodus teve o êxito de inserir alguns pontos de segurança pelo mapa onde você tem acesso a um colchão para dormir até a hora do dia que quiser, o que facilita a escolha de tática para seguir nas missões.

A progressão fica a cargo da personalização das armas através das partes e materiais recolhidos ao longo da jornada. O sistema é muito bom e conta com uma variedade muito boa de utensílios, que também tem uma estética muito boa em acordo com o resto do game. Você pode acoplar silenciadores para furtividade ou canos longos para mais dano, pode também escolher miras para combates mais próximos ou com zoom para matar seus inimigos na distância. Até a frequência de tiros pode ser influenciada pelas escolhas de personalização de suas armas. Tudo é feito em um menu muito dinâmico e de fácil compreensão. Escolha teu estilo, se prepare e parta para cima com tudo.

Infelizmente, na hora do vamos ver o jogo também tropeça um pouco. O gameplay falta dar uma polida final, mas a inteligência artificial compensa. A movimentação dos monstros é estranha e problemática, talvez por que seus modelos não são muito bem desenvolvidos, fazendo com que o combate contra eles seja penoso demais (pelo menos no console). Por outro lado o game ganhou muitos pontos comigo no quesito inteligência artificial dos humanos. Eles se assustam com sombras suas projetadas pelo sol, não são facilmente enganados com truques de furtividades simples, são bem atentos aos sons ao redor e metem bala sem dó.

O jogo tem bugs, muitos. Não tem sido raro eu ficar preso sem poder me mexer, passar por dentro de personagens, ver monstros atravessando paredes e os Saves automáticos são de doer a alma. Muitos te deixam em situações críticas que para você sair, é preciso tirar um Ás da manga do nada, às vezes é frustrante. Outro ponto de dar raiva é o carregamento quando você inicia o jogo ou quando você morre, pois demora muito e acaba atrapalhando o engajamento, principalmente em áreas difíceis onde a ‘tentativa e erro’ faz parte. É válido lembrar que fiz essa análise antes do lançamento oficial, então talvez um update de primeiro dia possa resolver boa parte desses problemas. Assim espero.

ÚLTIMA ESTAÇÃO, DESEMBARQUE PELA ESQUERDA

Metro é praticamente um gênero próprio. Digo isso, pois apesar de contar com uma introdução energética e intensa, o jogo te arremessa meio perdido nos primeiros momentos da campanha com explicações pouco detalhadas sobre como agir; como se ambientar sem um HUD (informações na tela) clássico; e sobre como jogar um game de tiro em primeiro pessoa que beira o gênero survival. Logo, insisto que se o jogo parecer estranho ou até mesmo chato no começo, force mais um pouquinho.

Se você procura um jogo de tiro em primeira pessoa extremamente intenso, rápido e dinâmico, Metro Exodus não é para você. Caso você se interesse por um game com história cativante, personagens bem construídos, inimigos inteligentes e ambientações de cair o queixo, certamente este é uma pedida certa. Se familiarizar com a necessidade de poupar munição, adquirir peças e planejar cuidadosamente seus passos é essencial. Como todo jogo bem feito nesse sentido, ele é recompensador. Os pontos positivos são bons suficientes para relevarmos alguns probleminhas aqui e ali.

Para os fãs da série, acredito que Exodus deu uma guinada necessária para renovar Metro e despertar ainda mais vontade de seguir adiante. Deixar as estações de Moscou para trás e trazer um mundo mais aberto ao mesmo tempo em que conserva a tensão e o nervosismo dos claustrofóbicos Metro 2033 e Last Light foi um desafio e tanto que a 4A Games conseguiu com primor. A desenvolvedora deixou aqui bases sólidas para próximos jogos, sejam da franquia ou não. Metro Exodus mantém o nível da geração e eleva a série Metro à elite dos games. Наслаждайся этим. Увидимся позже!

notas

Ricardo Carvalho

Gosto muito de escrever, desenhar, de me frustrar com política, de filosofar no barzinho, assistir filmes e defender que games são arte! Me segue no twitter que eu sigo de volta, beleza? twitter.com/perfilricardoc Beijos e boas jogatinas!
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