Análise: Citizens of Space tem um ótimo combate, mas não é suficiente

Quando o embaixador, personagem principal, apareceu na minha tela pela primeira vez em Citizens of Space (Cidadãos do Espaço em tradução livre), eu dei um leve sorriso e gostei da aparência do jogo. Em seguida eu fui apresentado a longos diálogos recheados de piadas de tiozão, mas tiozão que sou, ainda assim sorri. Pouco depois percorri mapas e mapas com uma música de game dos anos 90 em looping eterno. Não sorri. E percebi que não só a música se repete, mas sim tudo isso que acabei de dizer.

Citizens of Space te coloca na pele de um embaixador intergaláctico, mais especificamente um embaixador da Terra. Em seu primeiro dia, durante seu discurso inaugural na Federação Galáctica, descobrimos que a Terra está desaparecida. No meio de piadas e diálogos apressados, deixamos a reunião correndo atrás de resolver esse repentino mistério. Assim é o início do jogo, contado em diversas linhas e linhas de diálogos um pouco repetitivos, característico.

Apesar das piadas tirarem um riso ou outro, principalmente pela ingenuidade do personagem principal, logo esse recurso se esgota. Até porque o jogo não se decide exatamente se usa a voz ou as letras para mostrar os diálogos dos personagens. Ficamos em um meio termo monótono entre os RPGs das antigas, com a mesma tela parada enquanto janelas de texto se desenrolam na sua frente, e os mais modernos com voz de dubladores reais. O som poderia dar um pouco de dinamismo às conversas, mas somos obrigados a ficar parado lendo todas aquelas letras. Às vezes, é bom destacar, o áudio simplesmente cobre apenas parte do diálogo e precisamos terminar o resto em simples texto cru, parado.

Nem mesmo a arte dos personagens justifica essa escolha, pois são extremamente limitados. Não importa o quão longo é a conversa com alguém, os personagens vão ter umas 3 ou 4 animações no máximo que vão se repetir incansavelmente. Aliás, a estética toda, que inicialmente parece interessante, não agrega muito no médio e longo prazo. Os cenários e planetas tem o visual muito parecido, sem diferenças claras em contrastes, tons, traços e outras escolhas artísticas. Além disso a falta de dinamismo no design como um todo faz com que a tela carregue muita informação visual, cansando um pouco o jogador.

O jogo se passa em planetas que são como caixas (sand-boxes), onde você pode andar relativamente livre a fim de complementar missões, recrutar pessoas e tentar achar a … Terra. Aqui temos algo muito interessante. O sistema de parceiros do game conta com mais de 40 personagens que podem servir tanto para batalha, quanto para suporte e até mesmo para servir como invocação, exatamente como nos JRPGs das antigas – os summons. Você não precisa recrutar todos, o que é algo positivo também, mas cada um conta com estilos, bônus, habilidades e personalidades específicas. O visual dos personagens recrutáveis merece uma menção honrosa, são bem legais, únicos e divertidos.

JRPG, aliás, é a grande dica para quem vai se aventurar em Citizens of Space. Ter bastante itens no inventário, para recuperar vida, ganhar bônus, reviver aliados etc. é de extrema importância, já que o sistema de combate é de encontros aleatórios pelo mapa. Muitas similaridades com os clássicos do passado. Outro ponto positivo é que o Talento do seu assistente, um dos personagens iniciais, serve para justamente ajustar a taxa de encontro aleatório de inimigos, fazendo com que o jogo fique um pouco mais dinâmicos. Achei essa possibilidade não só interessante, mas quase obrigatória, pois o jogo acaba se alongando muito em missões pouco interessantes para recrutar novos personagens.

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Não me leve a mal, diálogo em excesso não é o problema, a questão é que são diálogos chatos e repetitivos. Jogos focados em narrativa me agradam muito, mas quando você começa a ouvir a mesma ladainha de qualquer cidadão do espaço de que você precisa ajudá-los com seus ofícios para eles se juntarem ao seu grupo, cansa. Imagina isso tudo quase 40 vezes. Todo esse diálogo é só interrompido por combates e mais combates em mapas que pouco se renovam. Como disse antes, o jogo se sustenta em poucos pilares que se repetem, muito. Pelo menos esses combates são a melhor arma do jogo.

A batalha é muito parecida com os clássicos RPGs por turno. Porém a Eden Industries, desenvolvedora de Citizens, acertou em adicionar pontuais micro-puzzles durante a batalha. Como assim? Simples: cada ataque, habilidade e talentos dos personagens requer um comando ou um conjunto de comandos para serem realizados de forma efetiva. Ao invocar um raio com a astrônoma, você precisa manter sua mira no centro de um alvo; para dar uma martelada muito forte com o pirata, você precisa acertar a barra de poder na hora certa; para atirar bem com o xerife, você deve acertar a direção e a mira; e as possibilidades são inúmeras e diversas. Realmente algo muito divertido e dinâmico, dando um fôlego para o gênero tão batido.

Apesar do bom sistema, ainda achei muito estranho o fato de que o personagem principal “não entra” no combate. Mesmo os recrutados tendo uma história, personalidade e motivações próprias (apesar de algumas serem bem genéricas), a falta de identificação com o protagonista, nesse sentido, é mais um fator que atrapalha. Muitas vezes ele é como um personagem secundário. Desenvolvi mais empatia por muitos recrutados do que por ele.

Por fim, o preço de Citizens of Space pode compensar para algumas pessoas, ele está sendo lançado por US$ 14,99 no dia 18 de junho. O game conta com um sistema sólido de recrutamento de personagens e de combate, mas infelizmente eles sozinhos não dão conta de tapar os tropeços, que são muitos. Os personagens, um tanto carismáticos, podem ganhar o coração das crianças e as piadas podem acertar para algumas pessoas, mas dificilmente vão se sustentar para o público em geral. Se você é um fã incondicional das batalhas em turnos dos JRPGs, pode ser que aqui você tenha ótimos momentos. E para fechar, o jogo também não conta com a língua portuguesa, o que é ainda um problema maior tendo em vista tantos diálogos carregados.

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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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