Análise: Sea of Solitude, um game que toca e encanta profundamente

Há uma discussão que vem rondando os principais veículos da mídia de games no mundo e parece não ter fim: a incapacidade de jogos comerciais de oferecerem algo a mais do que a lógica de exterminar inimigos. Por outro lado, jogos independentes tomam a dianteira nessa empreitada e, com frequência, nos presenteiam com belíssimas experiências. Para dar ainda mais força a esse gênero (ou seria subgênero?) foi amplamente reconhecida a categoria de Games for Change (Jogos pela Mudança em tradução livre) que enquadra os jogos de impacto social. Sea of Solitude é um incrível título de impacto que tem tudo para levar os prêmios da categoria desse ano e vai além.

A primeira coisa que toma destaque ao iniciarmos Sea of Solitude é seu visual. O jogo conta com uma das melhores utilizações de cel shading (renderização 3D que se assemelha aos antigos desenhos 2D) que já vi no mercado, batendo de frente com The Legend of Zelda: Breath of the Wild – salva devidas proporções de escopo. Melhor ainda, todo esse visual acontece em um mundo rico em detalhes sem precisar de telas de loadings e com a performance tinindo – até mesmo no meu PS4 de 6 anos.

O mundo do jogo é uma cidade que, pelo desenrolar da trama, agrega diversos locais do passado e do presente da vida da protagonista, chamda Kay. Essa mescla de cidade está completamente alagada e, ao longo do jogo, é possível alterar o nível da inundação. Essa mudança acontece conforme o jogador se adentra nas questões pessoais da personagem principal, tendo o assoalho, ou seja o chão de fato, como o passado mais distante. Portanto, a cada capítulo temos uma espécie de nova cidade a ser explorada, pois é ao longo deles que o nível da água vai se ajustando. Tudo isso funciona de forma coesa e coerente e em nenhum momento você vai sentir que já passou por determinado local. Apesar de parecer o contrário no início ao termos relativa liberdade explorar alguns cantos, o game se mostra de fato linear, o que não necessariamente é um problema já que ele não se propõe a ser um mundo aberto.

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Todos os personagens e monstros do jogo são bem elaborados visualmente e casam de forma correta com a estética do e do ambiente em que vivem. A galera do design de personagens da Jo Mei Games está de parabéns, principalmente no desenvolvimento dos monstros. Mesmo seguindo um padrão escuro e sem muito enfeite, a equipe fez um trabalho primoroso dando personalidade e dinamismo que combinam e funcionam em conjunto com a trama e o ambiente. Contudo, mesmo se tratando de um jogo independente de relativo baixo orçamento, senti falta de uma sincronização dos lábios com as falas, teria deixado tudo ainda mais crível.

A premissa do jogo é profunda. Você encarna uma versão alegórica de Kay, uma mulher de pouco mais de 20 anos. Por que alegórica? O fato é que o jogo todo, tanto a cidade quanto a protagonista e os monstros que habitam aquile mundo são uma reprodução do que seria uma parte da mente de Kay enquanto ela luta consigo mesma para vencer a solidão e a depressão. É tudo uma analogia às questões reais pelas quais Kay está enfrentando, sejam elas a culpa, a auto-indulgência, o apego etc. Resumo, o turbilhão de armadilhas que é a mente de alguém que sofre de depressão. Logo, o jogo tem em sua essência um desafio enorme, pois tratar qualquer assunto de doença mental de forma leviana é sempre um erro e seria ainda pior em um vídeo game, devido ao histórico não tão bom da mídia com a opinião popular.

Portanto, o gameplay tem que ser estruturado para dar cabo desse fio condutor tão delicado. A boa notícia é que o pessoal da Jo Mei conseguiu isso de forma primorosa unindo a sensibilidade com a narrativa à mecânicas tão necessárias aos vídeo games. Sea of Solitude é basicamente um jogo de plataforma com mesclas pontuais de outros gêneros de acordo com a necessidade da trama. Isso é, o game acelera e provê dinamismo e uma espécie de combate quando deve e pisa no freio para trazer a dúvida, mistério e até terror para o ar quando precisa.

A jogabilidade é tão bem desenhada junto à narrativa que ela funciona como um gatilho para emoções que vão se misturar com os sentimentos da própria protagonista. Hora você se vê tenso, hora agitado, em momentos a respiração pesa enquanto outros você se sente aliviado, mas sempre inquieto. A minha única crítica à jogabilidade é que senti falta de uns quebra-cabeças que me prendessem em determinados momentos e apresentasse um desafio maior, algo normalmente tão presente e bem feito em jogos independentes.

Para complementar a viagem sensitiva pela mente de uma pessoa solitária e em depressão, Sea of Solitude conta com uma trilha sonora incrível e delicada. Não somente as músicas são muito bem feitas, como são escolhidas para tocar nos momentos chaves a fim de dar um suporte ao ritmo, fator importantíssimo nesse jogo. A trilha sonora funciona extremamente bem em conjunto sinestésico com a jogabilidade e os diálogos, explorando até mesmo o silêncio quase total e absoluto em momentos de profunda dor e introspecção. É realmente uma jornada pelo íntimo de Kay e, para isso, sem sombra de dúvidas o trabalho de dublagem dos atores foi a cereja do bolo. Sussurros, confissões, gritos nos fazem sentir na pele toda a raiva, dor paixão etc.

Confira nossa Live abaixo. Desculpe a qualidade, mas o provedor de internet estava o cão:

Infelizmente não dá para falar mais sem dar spoiler e estragar a experiência – e realmente acho que já falei demais. Sea of Solitude é um jogo para ser mais do que jogado e apreciado, mas sentido. Jogue com calma, observando todos os pequenos detalhes dessa aventura tocante. Acredito que a o estúdio Jo Mei conseguiu dar um passo à frente na mescla de jogabilidade com questões sensíveis para nenhum hater apontar o dedo e dizer que isso não é jogo. É mais do que um jogo, é uma obra lindíssima, tocante, chocante e, obviamente, encantadora.



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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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