Opinião: O dilema das competições femininas de e-sports

Separar homens e mulheres ou não? Eis a questão!

Com o crescimento exponencial da importância dos e-sports no Brasil e no mundo, cresce também os holofotes que podem, eventualmente, mostrar contradições e desafios para o cenário agora e no futuro. Este é o caso do polêmico e quase intrínseco dilema sobre a existência de torneios e competições exclusivamente femininas no meio dos esportes eletrônicos. Alguns concordam e outros discordam, as razões são diversas e trago algumas para discurtirmos aqui.

Para entender exatamente do que se trata essa problemática, farei um apanhado sobre esportes tradicionais e eletrônicos, as justificativas históricas para a separação e as contradições no que tange os e-sports.

Independente de qual lado você apoia nessa discussão, algo precisamos ter em mente sempre: games não podem ser objeto e lugar para preconceito de nenhuma espécie!!!


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Esportes tradicionais e os esportes eletrônicos

O conjunto de fatores que aproximam os esportes tradicionais e os eletrônicos já é, a essa altura de amadurecimento do esporte eletrônico, bem evidente. Por exemplo, podemos citar, a carreira competitiva, competições estruturadas, times, marcas, patrocinadores, transmissão em massa, mídia especializada e regulamentação. Tanto um tipo de esporte quanto o outro, já dividem todos esses fatores em comum, alguns desses de forma mais consolidada e outros menos, através das diversas modalidades. Esportes (seja eletrônico ou tradicional) mais populares tendem a focalizar investimentos, audiência, praticantes etc, enquanto outros menos agraciados pelo povo enfrentam desafios financeiros, estruturais e até de aceitação.

Fatores divergentes

Há uma difícil separação entre o que é considerado esporte ou não ao redor do mundo. De acordo com dicionários, normalmente a ideia de competição vem acompanhada da existência de um “esforço físico”. Porém, a organização SportAccord, entidade geral das federações internacionais de esportes tradicionais, não exige que haja atividade física para a definição de esporte. Isso se dá pelo fato de que muitos esportes já mesclam o esforço físico com o mental com muitos casos tendendo mais ao segundo aspecto. Disputas olímpicas como levantamento de peso, por exemplo, é uma clara demonstração de capacidade física, enquanto esportes de equipe tendem a se pautar cada vez mais na capacidade intelectual de atletas e comissão técnica.

A questão maior, porém recai sobre o fato de que, mesmo que o esforço intelectual esteja cada vez mais em evidência entre os esportes tradicionais, eles não estão totalmente desassociado do esforço físico.

Separação entre Masculino e Feminino nos esportes tradicionais

Um estudo publicado em 2010 no Journal of Sports Science and Medicine com diversos atletas ao longo de muitos anos determinou que mulheres não são tão rápidas ou fortes quanto os homens. De acordo com este estudo, fatores genéticos e hormonais afetam “a altura, o peso, a gordura, a massa muscular, a capacidade aeróbica e o limiar anaeróbico”. Não é meu papel aqui, questionar origens dessa diferença, seja histórica, cultural etc.. Para tal, deixo o trabalho para antropólogos, cientistas sociais e biomédicos especializados. A questão que trago é que a decisão de segregar entre masculino e feminino é tomada nessa, até então, convergência científica acerca do tema.

Porém, como vimos na sessão anterior, se os esportes eletrônicos se divergem dos esportes tradicionais justamente na questão da pouca relevância do esforço físico no caso dos digitais, como então podemos justificar a manutenção da crescente separação dos e-sports entre feminino e masculino?

Feminino e masculino no cenário digital

A discussão é acalourada e tem crescido muito, justamente por causa do boom dos esportes eletrônicos. Uma coisa é fato: a razão usada nos esportes tradicionais para manter esta divisão não se aplica aos esportes eletrônicos.

O maior fator biológico que afeta a carreira de um cyber atleta é sua capacidade de reflexo, razão pela qual a maioria se aposenta por volta dos 30 anos, mas isso varia muito de modalidade para modalidade além do que, não existe estudo consensual e consolidade que aponte diferenças evidentes entre homens e mulheres no quesito em questão.

Porém, os que apoiam a separação não estão tão preocupados com questões biológicas, mas sim psicossociais, e com razão também!

Competições femininas e-sports
Dignitas CS:GO venceu seu segundo Intel World Championship em Katowice, Polônia em março de 2019

Oportunidades

Mulheres são a maioria entre os gamers, de acordo com diversas pesquisas reveladas nos últimos anos. Elas passaram os 50% há um bom tempo, porém no quesito jogos eletrônicos competitivos, as mulheres ainda não conseguiram representar esse número. Portanto, de um ponto de vista histórico e tradicional, o cenário de e-sports é dominado predominantemente por homens.

Por isso, as pessoas que defendem a divisão entre homens e mulheres em e-sports o fazem sob a justíssima justificativa de que dessa forma abriremos oportunidades para as mulheres em um ambiente basicamente masculino (e que tende a reproduzir esse status). Dessa maneira, através de campeonatos fortalecidos e consolidados, a exposição de times femininos poderá, então, abrir mais oportunidades. Com isso, poderíamos saltar para uma realidade de ambientes competitivo mistos, para a aproximação de jornalistas, narradoras e comentaristas também mulheres.

Ou seja, o fortalecimento do gênero no âmbito do e-sports como um todo.

Sexismo

É claro, mesmo que infelizmente, que em um cenário tão dominado por homens a dificuldade de entrada das mulheres passa por outro desafio que não a tradição: machismo e sexismo. Mulheres que jogam online tendem a ser constantemente hostilizadas, atacadas e deslegitimadas. Se casualmente o problema já é grande, imagina em ranks mais altos, onde há uma tendência maior de jogadores tóxicos?

Para piorar, em muitos casos, as mulheres que se inserem nesse meio sofrem constantemente com assédio sexual, o que somado aos outros já citados, inibie ainda mais a viabilidade ou até mesmo a vontade de muitas em se inserir nesse meio. Até mesmo streamers não-profissionais sofrem com a constante repetição desses problemas. Como exemplo, temos o recente caso em que a Razer puniu uma streamer patrocinada que reagiu a um assédio sexual (dentre centenas) recebido ao vivo durante uma de suas transmissões online.

Eventos separados, portanto, poderiam criar um terreno seguro para que mais atletas mulheres possam participar de forma espontânea. Com isso, elas teriam mais chances de melhorar suas habilidades, desenhar estratégias, criar networking, aprimorar conhecimentos e expandir suas influências profissionais, comerciais e pessoais.

“O medo começou quando percebi que esse mundo dos esports era predominantemente masculino e ainda havia muito preconceito estampado nesse meio. Eu sabia que seria difícil, e que teria que dar o dobro de mim para ultrapassar algumas barreiras. E senti muito isso ao longo dos anos em que me dediquei para chegar ao cenário profissional, sofri com alguns preconceitos ali e aqui, simplesmente por ser mulher”, conta Diana “Mittens” Caudeic Trevisan, trader da equipe Team oNe. Fonte: TechTudo.

Movimento contra a separação

Contudo, há um movimento de mulheres que são contrárias a existência dessa separação, apesar de reconhecerem problemas e dificuldades. Grande parte se pauta na problemática da biologia para defender que, independente de problemas sociais e de gênero, as mulheres devem se inserir de igual para igual no mundo dos e-sports, inclusive com times que misturem mantenham em sua line-up tanto mulheres quanto homens.

Muitas defendem que, ao se criar ligas e competições separadas para mulheres, as cyber atletas podem acabar como as atletas dos esportes tradicionais: recebendo menos atenção, salário, patrocínio e relevância – o que já tem acontecido em alguns casos.

Lutam, dessa forma, para que a igualdade alcance, “na marra”, níveis auto-sustentáveis e inquestionáveis. Para isso, a mistura deve ser total em todas as esferas dos e-sports. Portanto, para os que defendem esse ponto de vista, mulheres devem ocupar cargos na produção de eventos, na diretoria de times, entre os atletas, jornalistas, mídias e casters para falarem tanto delas quanto dos homens.

“Só colocaram porque é mulher”. “Querem pôr goela abaixo uma mina entre os melhores”. Frases direcionadas a Danielle “Cherna” Andrade, 19, única mulher indicada à categoria melhor atleta de Rainbow Six: Siege do prêmio eSports Brasil em 2018. Fonte: FolhaPE

Outras, inclusive, vão além e dizem que a existência de um terreno só para homens, separado da influência e do embate com mulheres, colabora de forma direta e indireta para a manutenção de comportamentos tóxicos e sexistas.

Uma decisão difícil

Entre bons argumentos de ambos os lados, a verdade é que a decisão é muito difícil. Torneios podem acertar ao separar ou ao unir? Pode ser que sim e que não a depender de muitos fatores. Porém, de qualquer forma, a questão tem que ser tratada com a seriedade que lhe cabe e não de forma leviana. E você, acha melhor unir ou separar?

Como as empresas estão contribuindo para a questão?

Praticamente todas as empresas que organizam campeonatos e desenvolvedoras dos games tentam incluir regras a fim de inibir os problemas aqui apresentados. Os críticos dizem que é só da boca para fora e que na prática pouco é feito. Talvez estejamos um pouco distante do fim dos problemas, mas é bom saber que as organizações que encabeçam os e-sports estejam minimamente preocupadas. Veja exemplos abaixo:

A Riot, produtora de League of Legends, tem um regulamento específico para cada liga de LoL do mundo. No Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL), por exemplo, há um conjunto de regras que proíbe ofensas e discursos de ódio, assédio sexual, discriminação, xenofobia e difamação.

A Ubisoft diz que não mantém nenhuma restrição de gênero dentro do cenário competitivo de Rainbow Six Siege. Além disso, afirma que o Brasileirão e a Pro League aceitam times mistos e femininos. A empresa tem banido jogadores baseada no feedback dos próprios usuários, estimulando, dessa forma, a denúncia por parte de seus consumidores.

A Blizzard, desenvolvedora do Overwatch, mantém o Código de Conduta e o contrato de licença do usuário que prevê diversos cenários onde o jogador infrator pode ser penalizado. A empresa, inclusive, encoraja players a denunciarem atitudes tóxicas, apesar de não mencionar especificamente gênero.

Veja a semifinal feminina da BGS E-sports. A final será no palco da BGS 2019:

Muitos outros jogos são considerados e-sports hoje em dia e a lista é grande. Os exemplos aqui, porém, já servem para termos uma ideia do que, na teoria, está sendo feito. Dessa maneira, podemos esperar que os ambientes melhorem com o passar do tempo e que possamos estar juntos em um futuro mais igualitário nos e-sports.

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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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