Não existem heróis em The Last of Us Part II

A jornada do herói foi substituída pela realidade da sobrevivência

The Last of Us Part II foi não somente um sucesso de vendas como recebeu notas altíssimas da mídia especializada. Nós mesmos demos 10/10 e achamos que é forte candidato ao GOTY.

O jogo focado em narrativa com jogabilidade de ação tocou inúmeros jogadores passando uma mensagem fortíssima de um mundo pós apocalíptico onde faz uma mistura de sentimentos. Particularmente quando finalizei o jogo após cerca de 24 horas eu larguei o controle, chorei e fiquei claramente abalado. Meus amigos (do site e fora dele) que já jogaram o jogo também choraram em diversos momentos. Palavras como emocionante, pesado, obra de arte foram dita por eles. E claro, todos concordam com o 10/10. The Last of Us Part II é uma obra prima.

Porém, esse sentimento de maestria não é compartilhado por muitos. O jogo no Metacritic (agregador de notas) está com uma nota 4.6 dos usuários, diferente da média de 9.4 da mídia. Muitas pessoas estão falando que o jogo é horrível e que destruíram tudo que foi construído no primeiro.

Obviamente que pessoalmente eu nunca aceitei tal opinião, pois o jogo mexeu muito comigo assim como todos meus amigos que jogaram ele. Então desde seu lançamento venho tentando entender o porquê deste ódio apresentado por muitos. E tudo me leva a crer que é pela ausência da Jornada do Herói.

Vou explicar abaixo SEM SPOILERS para não atrapalhar a jogatina de quem ainda não jogou The Last of Us Part II.

Dina Salvando a Ellie de um infectado. Ela é uma heroína? Para a Ellie, sim!

O que é a Jornada do Herói?

Primeiramente vou brevemente explicar o que é a jornada do herói. Quando vemos um filme, lemos um livro ou jogamos um jogo, nos identificamos com o personagem principal. Ele, sendo o herói dessa história, irá seguir do início ao fim a jornada tendo em seu ápice a derrota do vilão (com ou sem um sacrifício supremo). Essa fórmula sempre foi muito utilizada e faz com que o público se identifique com um personagem.

O termo a Jornada do Herói teve seu destaque com os estudos de Joseph Campbell que escreveu o livro O Herói de Mil Faces onde se apoia no monomito. Essa ideia foi muito utilizada em diversas obras tendo seu ápice quando foi adotado também por George Lucas para a criação da saga Star Wars.

As variantes para essa jornada são inúmeras. Temos os sobreviventes, os pais que salvam seus filhos, um irmão que cuida de outro, grandes amigos que se ajudam em uma situação e muito mais. Isso inclusive acontece no primeiro The Last of Us onde Joel, que havia perdido sua filha biológica nos primeiros minutos, conhece a Ellie e cria um laço de afetividade de pai e filha até o fim do jogo. Ali temos Joel (o pai) sacrificando tudo, incluindo uma cura para a humanidade, para salvar Ellie (sua filha).

Joel foi o grande herói e salvou a Ellie. Mas será mesmo?

Quem está certo e quem está errado?

As duas faces da moeda

Ainda no primeiro jogo, para quem se lembra, Joel era um contrabandista. Ele levava ilegalmente itens que teoricamente seriam proibidos circular na cidade. Inclusive, inicialmente Ellie era apenas uma carga para ser entregue aos vaga lumes. Com o passar do jogo, houve o desenvolvimento entre a afetividade dos dois.

E o que acontece em The Last of Us Part II? Uma guinada que muda a perspectiva do jogador. Não existe mais um herói/heroína. A fórmula da Jornada do Herói simplesmente foi deixada de lado e o jogo apresenta a motivação de cada personagem. Assim como Joel foi o herói da Ellie no primeiro jogo, quantas vezes será que ele foi o vilão em sua carreira de contrabandista? E a história das outras pessoas?

E é exatamente isso que acontece no segundo jogo. Esqueça o herói Joel ou a heroína Ellie. E os novos personagens são vilões? Não!

The Last of Us Part II simplesmente apresenta novos personagens, que tem suas motivações e querem sobreviver. O fim do jogo é feito de forma tão poética, que é um mar de emoções onde simplesmente todos perdem e não é um final feliz, como seria na Jornada do Herói.

O soldado da WLF já falou o que queria dizer sobre a cena

O jogo é bom ou ruim?

Como já falei anteriormente. Eu fiquei chocado, comovido e chorei no fim. Todas as pessoas do meu círculo de amizade deram 10 ao jogo e também choraram. Ou seja, está longe de ser ruim. Mas, é sim um direito de muitos jogadores não gostarem muito da narrativa, em especial por não ter um herói definido.

O gosto de alguém por algo é muito pessoal e é crível não gostar da proposta do jogo que foca na jornada de inúmeros personagens e em suas motivações. Porém, dizer que o jogo é ruim, horrível, nota 0, é apenas uma tentativa de chamar a atenção e nadar em um mar de rage.

Inclusive é importante dizer que quando o embargo de notas caiu para os usuários no Metacritic, em questão de poucas horas o jogo estava repleto de notas que variavam de 0 a 4. Como um jogo que demora cerca de 24 horas para zerar já teria sido zerado em apenas 2 horas? Essas avaliações foram feitas em cima de preconceitos e vazamentos (alguns chegando a serem falsos) e sem nenhuma efetiva experiência do jogo.

Uma curiosidade é que nós subimos todo o gameplay do jogo em nosso Youtube e o vídeo do fim da campanha tem cerca de 4 a 5 vezes mais views que toda a campanha. O público tem que entender que o jogo não é sobre A ou B, nem sobre ver como acaba, mas sim para apreciar uma grande jornada com múltiplos personagens e histórias.

The Last of Us Part II é fenomenal, uma obra de arte, mas é possível ter suas críticas e não ter gostado dele. Porém, jogo nota 0 e ter acabado com a franquia, é um extremismo que não tem nenhum fundamento lógico.

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.
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