As Revistas de jogos, suas histórias e sua preservação

Confira a evolução e fantásticos detalhes das revistas de jogos

Hoje quando você busca informação sobre um jogo, existe uma oferta gigantesca de pessoas e veículos que irão falar sobre este jogo. Pode ser via Youtube, assistir uma live ou então acessar centenas de sites, a informação vem de forma fácil.

E isso sem contar que podemos ir às redes sociais e fóruns onde as pessoas publicam com a mesma facilidade essas informações. O mesmo serve para quando está preso em alguma parte específica ou então está buscando 100% nas conquistas. Basta procurar por “preso na parte tal” ou então “detonado do jogo X” e pronto. A informação estará na sua frente.

Esse é o tipo de facilidade com que nos acostumamos neste século. Porém, já pensou se nada disso existisse? Já pensou em um mundo sem internet, sites e Youtube? Bem vindos a década de 90!

Quando eu comecei a jogar e me viciar neste lindo mundo dos vídeo games, “tudo era mato”. Me lembro até hoje de ganhar meu Mega Drive e comprar um jogo porque tinha um helicóptero na capa. Sim, eu tinha 0 informações sobre o jogo, mas veja bem… Era um helicóptero azul de guerra! E era assim que nós gamers descobríamos os jogos nesse mundo quase jurássico. E sim, também levei Sonic 2, afinal Sonic era um dos poucos jogos famosos.

Com a difusão da cultura gamer e o rápido crescimento do mercado, ganhamos uma aliado fortíssimo que eram as revistas de games!

Clássicos como a revista Gamers, Super Game Power, EGM, Nintendo Power e Revista Playstation nos ajudavam a ver qual eram os melhores jogos, pegar dicas, detonados e até ver o famoso review. E sim, você tinha que esperar alguém jogar o jogo e resolver escrever na revista que tinha publicação semanal/mensal. Sabe essa facilidade de notas e críticas no dia do lançamento? Isso estava longe de existir na época.

Eu tive a oportunidade de conversar com três feras que trabalharam no mercado de revistas e eles deram uma visão inesperada e emocionante de sua trajetória, assim como a trajetória das revistas de games e de suas muitas adaptações.

Os entrevistados

Para fazer esse artigo conversei com os mitos Fabio Santana, Rômulo Mathei e Renato Almeida. Depois de sua extensa carreira no mundo das revistas de jogos, hoje eles continuam atuando no mercado ao trabalhar com assessorias de grandes empresas como Capcom, Deep Silver e SEGA.

Tanto Fabio Santana como Rômulo Mathei tiveram uma jornada muito semelhante no mundo das revistas onde começaram entre 1995/1996 começando na Pro Games da Editora Escala. Nela se derivou a sua principal revista a GAMERS onde recebeu diversas edições assim como derivou edições de detonados e especiais como a Gamers Pro Dicas e Gamers Especial. Uma grande curiosidade levantada por essa dupla dinâmica é que a Pro Games na realidade era uma locadora de jogos assim como distribuidora. A revista era um braço para fomentar a mídia de jogos no Brasil (o que funcionou muito bem).

Romulo Mathei e sua coleção

Na virada do milênio, a dupla saiu para a editora Conrad/Grupo Futuro comunicação e trabalharam em grandes revistas como a Nintendo World, EGM Brasil, PC World e muitas outras. Essa foi uma fase onde a internet já estava ganhando força e começaram a se adaptar para trabalhar em conteúdo mais editorial ao invés de focar tanto nas Hard News / Notícias quentes.

Fabio Santana com parte de sua coleção retrô atrás

E para encerrar a carreira desses titãs nesse querido mercado, eles foram por volta do ano de 2007 à 2011 para a Editora Europa onde trabalharam em revistas como a N Gamer, GameMaster, Revista oficial Xbox e Revista oficial Playstation.

Fechando a trajetória de nossos entrevistados, temos Renato Almeida que entrou em uma fase mais moderna das revistas onde começou sua carreira em 2011 na Editora Tambor (ex Conrad). Ele trabalhou na editoria de revistas como EGW e Nintendo World, além de colaborar com a localização de revistas como a EDGE e PC Gamer.

Parte da “pequena” coleção de Renato Almeida

As revistas de jogos em uma era pré-internet

Em um primeiro momento perguntei aos entrevistados – no caso para o Fabio e Rômulo – sobre como era trabalhar em uma era onde a internet estava começando a engatinhar. Vale dizer que como eles trabalharam juntos, as condições de trabalho e respostas foram bem similares.

Com isso dito, as histórias contadas me deixaram simplesmente fascinado. Como o mercado de games no Brasil era algo extremamente nichado, as informações chegavam a conta gotas e nada estava em português. E como se produzia conteúdo? Bem, existiam duas maneiras.

A primeira, por estarem trabalhando em uma locadora de games, era a possibilidade de jogar os jogos que chegavam e trabalhar em cima deles fazendo reviews, detonados e matérias especiais. Em um mercado que estava começando, eles tinham uma grande vantagem.

A dupla dinâmica Romulo (19) de pé e Fabio (20) sentado

Já a segunda forma de produzir conteúdo era indo atrás de revistas vindas de fora, onde a grande maioria era em inglês. Também era possível procurar alguns sites que, nos primórdios, estavam disponíveis tanto em Inglês como em Japonês. Inclusive, foi por causa disso que Fabio começou a aprender Japonês, para poder ter acesso a essas informações.

E imagine como a informação circulava de forma lenta. Enquanto hoje temos tudo em questão de segundos, antigamente alguém nos EUA tinha que produzir uma matéria e editar uma revista. Daí essa revista chegava no Brasil, era lida por essa bela dupla, assim como outras pessoas, escolhiam o que iriam traduzir, editavam a revista daqui, mandavam para aprovação, faziam a sua tiragem e chegava nas bancas. Ou seja, uma revista chegava com uma informação “quente” de um a dois meses atrás. E por mais que fosse burocrático, era um trabalho feito de forma excepcional, que ajudou muito a difundir os jogos no Brasil. Trazendo para o país uma informação que era considerada novidade.

Inclusive, o Rômulo contou como era feita a captura de imagens. Muito inicialmente um profissional era contratado para ir a uma sala escura e tirar a foto da tela do jogo para conseguirem usar nas revistas. Um pouco depois, já havia placa de captura onde passavam as imagens para uma fita de VHS (afinal CD’s era uma tecnologia cara e nova) e podiam capturar a imagem desse material. E claro, tudo devidamente editado em um computador com Windows 3.11.

Após fechar uma edição de revista, nós comprávamos Fanta Uva, nos reuníamos e jogávamos RPG de mesa.

Romulo Mathei

As revistas de jogos em uma era pós-internet

Os anos se passaram, o milênio virou, o bug do milênio foi evitado e a internet veio para ficar! E agora?! Como é que as revistas iriam sustentar seu formato de notícias, que demoravam meses para chegar a banca, enquanto a internet trazia essa mesma informação no mesmo dia?

Obviamente a redação de todas revistas tiveram que mudar seu foco de Hard News para um conteúdo mais editorial, ou seja, impressões, previews, matérias especiais, entrevistas, cobertura de eventos e etc. Simplesmente se tornou inviável competir com a internet no quesito velocidade. E uma grande curiosidade, é que os primeiros sites focados em jogos e matérias eram das próprias revistas.

Curiosamente os primeiros sites de jogos eram das próprias revistas que acabavam canibalizando o mercado e atingiam o próprio conteúdo.

Renato Almeida

E a medida que o mercado brasileiro de games ia aumentando exponencialmente, tendo como grande responsável as revistas de jogos, as empresas começaram a prestar serviço de assessoria no Brasil, facilitando ainda mais o conteúdo editorial. Enquanto Rômulo afirmou que, até o início dos anos 2000, era inviável fazer as viagens para grandes grandes eventos internacionais ou visitar as grandes empresas, Renato acabou vivenciando uma outra realidade anos depois. Tendo a oportunidade de ir a Nova Iorque para conhecer o escritório da Rockstar e cobrir o jogo Max Payne 3 – lançado em 2012.

Fiquei em uma imersão total ao cobrir Max Payne 3 – que teve um grande diferencial pelo jogo se passar no Brasil. Com isso pude passar um feedback de quem mora no país.

RENATO ALMEIDA

Histórias marcantes

Por terem participado ativamente da história dos jogos, os entrevistados tinham muitas histórias interessantes e curiosamente, todos tinham um ponto em comum: as matérias de capa são inesquecíveis.

Romulo citou duas revistas que foram extremamente marcantes para ele. A primeira foi a GameMaster especial do Guitar Hero onde ele editou completamente sozinho. Já sua segunda lembrança foi seu título de first onde fez o primeiro detonado de Resident Evil (Director’s Cut) com o Chris da América Latina na revista Gamers.

Já Renato também citou dois grandes marcos de sua carreira. Uma já mencionei acima onde ele fez um bate e volta de 3 dias em Nova Iorque para conhecer o escritório da Rockstar, conferiu Max Payne 3 e deu uma esticada para conferir lojas de games para fazer outras matérias. Já sua segunda capa de revista marcante foi quando foi para a Califórnia a convite da Konami para fazer o preview de Metal Gear Rising Revengance. Sim, ele viu e conheceu Hideo Kojima. O vício foi tão intenso que no segundo dia de evento ele zerou o jogo e foi parabenizado pelos diretores do jogo Yuji Korekado e Atsushi Inaba que não acreditavam que alguém iria zerar o jogo no evento de preview. Ele saiu do evento com um review completo e entrevistas.

E por fim temos Fabio Santana que fez a mítica revista número 1 da Gamers Book onde trazia um super detonado de Final Fantasy VII. Não somente esta revista (lembrada por muitos até hoje), mas a Gamers sempre deu muito espaço para a cobertura de RPG e Fabio mencionou que eles traziam novidades incluindo o review antes mesmo de ter saído no Japão. Por ter uma noção de Japonês, ele conseguiu trazer muita informação do jogo para o mercado brasileiro que acabou sendo um marco para difundir o jogo e o gênero RPG em nosso país.

A revista Gamers deu capa para Final Fantasy VII F7 desde o seu lançamento no Japão em Janeiro de 1997 enquanto as revistas mundiais aguardaram o lançamento americano em 07 de Outubro de 1997.

FAbio Santana

A importância da preservação das revistas

Com todas essas ótimas histórias foi possível entender como o mercado de revistas de jogos apareceu no Brasil, sua evolução e sua importância. Mas como sabemos, a revista física tem data de validade e todos foram assertivos em como a digitalização é importante para preservar essa história.

Enquanto houver o ser humano, vai haver o colecionismo.

Romulo MAthei

Romulo afirma que é normal do ser humano colecionar e que, graças a isso, é possível ainda achar praticamente todo esse conteúdo em forma física. Ele adicionou que, felizmente, muito desse conteúdo já está digitalizado e que ainda é possível digitalizar o que está faltando. Ele possui alguns xodós em casa como o detonado de Final Fantasy VII da Gamers e o especial de Final Fantasy VIII da Dicas e Truques PlayStation, assim como a GameMasters que editou sozinho de Guitar Hero como seu detonado de Resident Evil (Director’s Cut) também feita na Gamers.

Já Renato falou da importância da preservação das revistas de jogos em formato digital, por ser um documento histórico, e cita que gostaria que as revistas físicas nunca acabassem. Ele salientou que graças a estas, ele se tornou o profissional que é hoje e falou do impacto que certas capas tiverem em sua juventude. Capas do primeiro Star Fox da Gamepower, que usava o chip super FX e trazia gráficos impressionantes, saber que Street Fighter 2 iria para o Mega Drive pela revista Super Game (onde tudo que a revista mostrava era uma única imagem da tela do jogo no console) e também a matéria de capa da Ação Games que mostrava todos os detalhes técnicos do Dreamcast – de quando foi revelado de fato (no Japão). Essas revistas o marcaram muito e ele as guarda com todo carinho.

Esse assunto, por mim, é muito querido e importante. Sempre tive um propósito de preservar as informações e deixar acessível para gerações futuras. Sempre foquei em dar os dados mais precisos possíveis com datas, valores de época, nome dos envolvidos, tendo um caráter enciclopédico.

Fábio Santana

Para concluir, temos Fabio Santana que seu amor por esse material histórico é tão grande, que ele fundou a SHVB (Sociedade Histórica dos Vídeo Games do Brasil) onde é co-fundador com o Gus Lanzeta e Pedro Falcão. Aqui ele menciona que age pelas sombras para proteger e catalogar todas essas informações para o futuro e não somente a informação das revistas, mas também da cultura do videogame no Brasil com o compartilhamento de cheats, códigos, senhas, clubes, locadores e mais. Essa história que é importante preservar de forma digital para os próximos milhares de anos e estar alcançável com apenas um click.

Histórias do passado para o presente e futuro

Ao fazer esse artigo eu fui surpreendido com as muitas histórias e detalhes de como funcionava o mercado em seus primórdios. Nunca teria parado para imaginar que uma notícia recente poderia ter até 2 meses de atraso.

Eu certamente me lembro de ter algumas revistas em casa e era consumidor principalmente da de Dicas Playstation (para meu PS1) e da Nintendo World (para meu N64). Até hoje me lembro que colava as respostas das provas de SeeD de Final Fantasy VIII ou então as dicas para passar de certos dungeons em The Legend of Zelda: Ocarina of Time (o tinhoso templo da água).

O mais interessante é que todos tem um discurso único onde entendem a importância da preservação dessa história em mídia digital. E isso não é somente preservar a revista em si, mas toda uma cultura local, o processo criativo e suas muitas histórias.

E claro, caso tenha uma revista em boa condição, basta digitalizá-la. Hoje com um celular é possível digitalizar tudo com uma boa qualidade para manter essa história por centenas a milhares de anos em formato digital. E algo a ser pensado é que uma revista com dezenas de páginas pode ficar um arquivo pesado. Felizmente, é igualmente fácil comprimir PDF utilizando diversas ferramentas disponíveis online.

E você? Tem alguma revista de jogo? Tem alguma história interessante sobre as revistas de jogos? Deixe seu comentário e não se esqueça de conferir nossas matérias originais.

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.
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