Análise: Cyberpunk 2077 é um mix de ótimas e péssimas decisões

Colete seus edinhos e corra dos bugs

Depois de muita antecipação e um lançamento extremamente conturbado, finalmente trazemos nossa análise de Cyberpunk 2077, o mais novo jogo da CD Projekt RED que traz ao PC e consoles a experiência de RPG clássica do jogo de mesa e tenta emplacar mais um sucesso como foi The Witcher III.

Cyberpunk 2077 já está disponível para PC, PS4, PS5, Stadia, Xbox One e Xbox Series. Nós recomendamos fortemente não comprarem a versão de consoles até novas melhorias serem feitas e vocês entenderão tudo na análise de Cyberpunk 2077 que faremos abaixo.

Recebemos a chave para review de PC da produtora. A versão de console foi comprada com recursos próprios.

Antes de iniciar a análise de Cyberpunk 2077…

Está extremamente claro que a CD Projekt RED omitiu detalhes importantíssimos sobre a versão de console chegando ao ponto de criar um e-mail dedicado para reembolso do jogo. Adicionalmente, a Sony removeu o jogo da PlayStation Store até ele estar jogável.

Essa análise de Cyberpunk 2077 será um pouco diferente das nossas usuais análises. A minha experiência foi 100% focada em meu PC que tem uma RTX 2060, um processador I7-9750H de 2.60GHz, 16GB de RAM DDR 4 de 2666 MHz e um SSD instalado. Consequentemente a experiência que passarei e a nota final será baseada neste PC.

Porém, sabendo e tendo experimentado uma versão extremamente inferior nos consoles, também daremos uma segunda nota onde nosso colaborador Felipe Cabral jogou e sofreu muito em seu PS4 Slim.

Estaremos considerando para esta análise a versão 1.04 de Cyberpunk 2077 que já traz algumas poucas melhorias. Dependendo de quando estiver lendo esta análise, é importante dizer que a CD Projekt Red já prometeu grandes patches de melhoria até fevereiro de 2021 e que os problemas citados abaixo poderão não se aplicar. Contudo, isso não isenta a empresa polonesa de seu lançamento desastroso.

Uma história e personagens fantásticos

Acredito que assim como eu, muitas pessoas tinham uma confiança na CD Projekt Red por causa da qualidade da historia, personagens e missões secundárias apresentadas em The Witcher III.

Já posso adiantar que se você não se preocupa com bugs, crashes do jogo, problemas com IA e outras coisas, você vai amar Cyberpunk 2077.

No jogo você será V, um mercenário que juntamente com seu amigo Jackie tentarão se tornar lendas em Night City. Em um trabalho de invadir e roubar a torre da gigantesca da empresa Arasaka, eles acabam presenciando a morte do grande chefe da empresa por seu filho e logo em seguida eles se veem em uma posição onde tem que fugir de lá.

Tudo dando completamente errado, V descobre que o objeto roubado era um biochip e a única forma de não perdê-lo, é colocá-lo dentro de si. E é ai onde Johnny Silverhand (Keanu Reeves) – um terrorista de 50 anos atrás dado como morto – aparece e irá compartilhar seu corpo com você. Para se livrar dessa voz em sua cabeça V deverá procurar a ajuda de inúmeras pessoas, incluindo da própria Arasaka para se livrar de Silverhand que está tomando conta de seu corpo pouco a pouco.

A história em si é muita boa e como dito pelo V, Johnny mais parece um rockeirinho revoltado querendo estourar tudo buscando atenção. Verdade seja dita, isso é uma excelente definição. Por muitas vezes Johnny é sub utilizado na história e sua evolução como personagem demora muito para acontecer.

Felizmente, existem outros personagens e histórias excepcionais te esperando em Night City. Cyberpunk 2077 é um jogo que pode demorar de 25 horas a mais de 100 horas para zerar caso queira fazer tudo. Existem os NPC’s principais onde cada um irá ter um excelente arco e desenvolvimento profundo. Você encontrará policiais frustrados, nômades com problemas com sua familia, pessoas altamente tecnológicas e até o desenvolvimento de Johnny Silverhand que tem um arco de história secundário excepcional.

Escolhas para todos os lados

Como mencionei acima, Cyberpunk 2077 é baseado em um RPG de mesa e isso traz uma gigantesca gama de oportunidades e escolhas. Isso faz com que cada um viva sua história neste mundo. E isso funciona muito bem.

A história central e personages não mudarão em nada, porém, como você lida em cada situação e quem será o aliado e inimigo será uma escolha completamente sua.

Logo no inicio do game (ainda no prólogo) eu fiz uma escolha em uma missão de pegar o robô cabeça chata e enfrentei a gangue local. Eu poderia ter usado o dinheiro da Militech. Eu poderia ter juntado meu próprio dinheiro. Mas fiz essa escolha. E mais a frente ao conversar com outro colaborador do site ele mencionou que fez uma escolha diferente da minha e aquele segmento foi completamente diferente, incluindo cenas posteriores.

Não somente isso, mas muito a frente eu, como enfrentei a gangue, vi um novo líder para a mesma e mil referencias ao líder anterior assim como um claro ódio por mim. Se eu tivesse me aliado a ele no início, tudo poderia ter sido diferente.

Esse esquema de escolhas é fantástico e faz com que queira jogar e re-jogar Cybepunk 2077 inúmeras vezes. Inclusive saliento que esse processo de escolhas te seguirá até o final moldando a sua história. No meu caso, tive um final poético. Mas mesmo no meu segmento final, eu fico imaginando escolhas que fiz e que poderia ter feito outras. E claro, como acabaria o jogo para mim?

Night City é linda, bugada, mas linda

Uma das grandes polêmicas sobre Cyberpunk 2077 é que ele é pesado demais para os consoles da geração passada e para os PC’s não tão potentes. E isso é uma completa verdade.

Só para ilustrar o processo de falta de otimização e de problema de desempenho, eu fui incapaz de conseguir capturar em minha 2060 vídeos para produção de conteúdo. Toda vez que tentava capturar algo, a performance do jogo ia para o lixo. Ficava simplesmente injogável (mesmo botando as configurações no mínimo possível e aceitando os 30 FPS). Quando streamamos o jogo em uma 2070 Super, a performance também estava pavorosa.

Esses problemas de performance também foram notados por outros dois amigos meus que jogaram em uma 2070 Super e uma 2080 Super. E claro, esqueça a utilização de Ray Tracing.

Dito isto, e após 2 horas (literalmente duas horas) fazendo mil testes eu achei uma combinação perfeita para o jogo ativando o máximo de opções que eram viáveis e mantendo o jogo entre 50 e 60 FPS. E aqui já posso adiantar que o jogo é lindo!

As texturas são muito boas e a qualidade do material das roupas e personagens é surpreendente. Night City é uma cidade cercada por neon (como deve ser em uma obra Cyberpunk) e a utilização de cores e iluminação é muito acertada. Foram muitas vezes que fiquei boquiaberto com os personagens e ambientes.

E aqui vai uma curiosidade, Johnny Silverhand, é feio! Eu não entendi o que aconteceu com o modelo de seu personagem, mas ele é muito inferior a outros personagens não tão importantes na história.

No geral Night City é grande e populosa cercada de detalhes. Além das missões que mencionei no tópico anterior, ela lhe dá inúmeras opções para entrar em confronto com bandidos, hackear dispositivos para ganhar dinheiro, visitar lojas para comprar armas e equipamento e muito mais. Aqui o jogo segue uma receita de bolo clássica de mundo aberto sem botar nem por.

Gameplay sólido, mas que não impressiona

Saindo da parte de análise de história e personagens de Cyberpunk 2077, temos a parte mecânica. Conhecida como botar a mão na massa e sair atirando.

Ao longo do jogo você terá as mecânicas básicas de um jogo de mundo aberto em primeira pessoa. Você pode pegar qualquer carro e sair dirigindo pela cidade, pode sair matando e ser perseguido pela polícia, resolver inúmeros pontos de interesse e mais.

Neuro Dança

O destaque fica para a grande quantidade de armas, tipo de tiro, tecnologias, upgrades e raridades que pode ser encontrada. Cada uma terá uma variedade, dano, status que pode dar, espaços para modificações e mais. Algo muito legal é a animação das armas e de seu carregamento que é muito bem detalhado e bem feito.

No geral a parte de gameplay é bem sólida, mas não impressiona. Talvez o maior diferencial sejam as cenas de Neuro Dança (ND). Nela você poderá entrar em uma lembrança de uma pessoa e virar um detetive para achar pistas podendo trocar entre a camada física, de calor e sonora. Essa análise por mais interessante que possa parecer, é bem linear.

Problemas e escolhas questionáveis

Até o momento os elogios feito nesta análise a Cyberpunk 2077 são muitos, porém, agora é o inicio da ladeira abaixo. Aqui vou falar de problemas encontrados no jogo e não dos bugs (que falarei em breve).

O primeiro problema que vi é que a direção é um pouco estranha. Não tão ruim como o primeiro Watch Dogs por exemplo, mas não é tão boa como os jogos que estamos acostumados. Mas isso se agrava com a IA (Inteligência Artificial) dos NPC’s. É como se não existisse uma IA propriamente dita. Eu via o refresh de carros acontecendo de forma aleatória nos cenários e também vi muitas vezes movimentações que não faziam sentido algum. Inclusive vi muito carro parado sem motivo no meio da rua.

O segundo problema que reparei foi na IA dos inimigos. Eu simplesmente achei muito fácil o jogo. Eles não tentavam te flanquear e muitas vezes ficavam em um lugar óbvio e era fácil matá-los. Pelo menos eles não utilizaram o esquema de Sponge Bullet. E vale dizer, não há nenhuma luta de chefão memorável.

Um outro problema, que na realidade é uma decisão bem ruim é a mecânica de pegar itens sem a menor consequência. Você literalmente pode pegar qualquer item do mapa e nada vai acontecer contigo. Não exista a marcação de item roubado ou qualquer tipo de punição. Isso acaba facilitando demais adquirir dinheiro, armas e equipamentos com toda a facilidade do mundo.

E para fechar essa lista, eu tive um problema com a dublagem do jogo (joguei 100% em português). Não me entendam a mal, a dublagem é muito boa, porém, ela é muito juvenil. É interessante ver um palavrão ou então uma gíria ser usada. Muitas vezes eu ri, mas depois de ouvir “Engraçaralho pra cadinho” mais de 10 vezes eu somente revirava os olhos. Esse é um exemplo. Existe uma lista dessas gírias que funcionam bem somente até um momento.

Entrei no Blue Man Group e não sabia

Lista de Bugs

E finalmente chegamos a parte que fez tanto barulho pela internet: Será que os bugs são reais ou apenas frescura?

Antes de iniciar essa parte, vale pontuar que no PC (com um SSD) eu tive poquísimos problemas com textura e nenhum crash. Eu tive somente em uma cena específica onde o jogo engasgou fortemente, mas voltou depois de alguns bons segundos.

Dito isso, Cyberpunk 2077 foi o jogo que mais vi bugs em toda minha vida. Digo mais, pode juntar jogos como GTA V, Skyrim, Watch Dogs, Assassins Creed e outros que mesmo juntos tem menos bugs que Cyberpunk 2077.

Eu tive bugs bobos como ficar aparecendo um aviso de item na tela ou então uma fala fixada até não consegui correr e pular. Dentro os mais sérios tem, como falei, não conseguir pular e correr em alguns momentos, não conseguir escolher uma resposta, um diálogo simplesmente não aparecer e até uma missão inteira quebrada onde a IA inimiga me reconheceu como amiga.

Imagina você ir se infiltrar em uma base da perigosa Arasaka onde vai ter um grande desfile com os donos da empresa. Ai seu plano é colocar um virus para poder se infiltrar no sistema e desligar suas defesas. E quando fui fazer a missão, o que aconteceu? Eu passei na frente de todo mundo pegando todos os itens e absolutamente nada aconteceu… Ou seja, temos aqui bugs incômodos até missões completamente quebradas!

Existem também os bugs visuais que sua grande maioria são problemas da programação do jogo. É normal ver itens “sambando” na tela porque o jogo “se lembrou” que tem que gerar uma caixa de garrafa por exemplo e tudo sai quicando pela tela. Ou então você estar andando na rua e o mesmo acontece com dois carros e um sai voando pela tela e explode na sua frente!

Claro que existe, também, armas voadoras, celulares voadores, itens dos mais diversos voando pela tela, personagens andando no ar e bem, a lista é longa demais. E em diversos momentos não será possível pegar os itens no chão por um motivo desconhecido.

Para fechar com “chave de ouro”, quando estava nos últimos minutos de jogo meu personagem, além de ficar constantemente sem cabelo e eventualmente aparecer nu sem explicação, ele ficou azul! Me perguntei se ele estava morrendo, se estava congelando ou se era bug. Se apostou em bug, acertou!

Além de muitos desses bugs (tem muita coisa que não falei ainda) atrapalharem em muitas vezes, os que são “engraçados” apenas, acaba tirando a imersão do jogo.

Rodando nos consoles de última geração

Após essa “linda história de amor com o PC”, onde claramente a empresa se dedicou fortemente no desenvolvimento do jogo vamos falar do verdadeiro terror que a CD Projekt Red conseguiu provocar, a tão falada (e com total razão) versão para os consoles da geração passada.

Agora quem vos fala é o Felipe Cabral, um fã nato de The Witcher e um que apostou até a sua “UltimaFicha” no novo RPG da empresa. Confesso que assim que iniciei o jogo, ainda no patch day one fiquei já com um sentimento estranho, mas o meu amor e confiança na empresa não foram abalados e segui em frente.

Até o momento da criação do personagem tudo leva a crer que não capricharam tanto ali, afinal a CDPR nunca foi uma referência ao falar de gráficos deslumbrantes, vale lembrar que o The Witcher demorou algum tempo para ir se aprimorando graficamente, mas nem de longe a saga do Geralt de Rivia começou com um pé tão esquerdo como CyberPunk 2077. Aliás, tenho certeza que nesse caso a empresa só tinha dois pés esquerdos quando decidiu enfiar o pé na lama e lançar essa versão.

No meu PS4 Slim as coisas foram simplesmente de mal a pior, enquanto iniciava o prólogo como um StreetKid e observando aqueles montes de borrões na tela, rosto que não carregavam, carros que eram simplesmente mais quadrados que um Gurgel eu tentava de toda forma procurar bons motivos para continuar, analisei várias coisas assim como fez o Coimbra durante esse review, como a narrativa, os bons combates e a grande variedade de armas, mas tive que parar por aí.

A experiência foi pavorosa, e me fez parar de jogar para não estragar o que eu tanto esperava, eu que durante minha adolescencia era um jogador de mesa nato de CyberPunk 2020 famoso complemento do mundo Gurps. Com o meu console eu não podia correr porque se eu chegasse muito rápido nos locais as texturas não carregavam, os personagens se tornaram extremamente horríveis, até a maravilhosa Judy não é possível admira-la num console da geração passada, e é tão horroroso que não dá para se acostumar com tanta feiura, tanta queda de FPS. E olha que não sou exigente com gráficos, mas o problema está todo na empresa que decidiu nos mostrar uma coisa e apresentar outra.

Confira o trailer do jogo para PS4, detalhe da “gameplay”

Viu que maravilha? Não é nada disso. O patch 1.04 corrigiu alguns defeitos e deu um pouco mais de estabilidade, mas ainda sim não é recomendado que se compre a versão para os consoles.

Se eu acredito que vai melhorar? Acredito que sim! Mas vai demorar e demorar e muito, afinal tem muita coisa quebrada e muita coisa a ser corrigida.

E algo a adicionar brevemente, é que tive a oportunidade de jogar no Playstation 5. Nele o jogo encontra os mesmos problemas na questão de bugs, porém, é uma versão muito mais estável, rápida e sem os problemas de carregamento de texturas. Ela é quase uma versão de PC, mas não tão bonita.

Rock n Roll baby!

Enfim a hipocrisia

A análise de Cyberpunk 2077 acabou sendo muito extensa, mas se fez necessária, pois além de ser um jogo de escopo massivo, ele tem uma lista quase interminável de problemas. É muito curioso ver como um jogo no estilo Cyberpunk, onde a temática obrigatoriamente é se revoltar contra grandes corporações que exploram as pessoas e funcionários, teve um lançamento tão conturbado onde ela omitiu informações importantíssimas dos consumidores e explorou seus funcionários.

De um lado temos um jogo absolutamente lindo (para quem tem o hardware correto) com uma história rica e personagens fantásticos. Porém, o desempenho pífio, falta de otimização e problemas recorrentes, além de algumas decisões estranhas, mostra que Cyberpunk 2077 ainda não deveria ter sido lançado.

Quem sabe daqui a 6 meses com mais 10 patches vamos realmente ver um jogo digno de GOTY? Mas hoje, Dezembro de 2020, minha forte recomendação é que passe longe do jogo até estar consertado. Caso tenha um PS5, um Xbox Series X ou um PC com uma configuração igual ou melhor que a minha, é possível sim jogar e se divertir, porém, será um experiência quebrada.

Essa análise de Cyberpunk 2077 segue nossas diretrizes internas. Clique aqui e confira nosso processo de avaliação.

NOTA CONSOLES PS4/Xbox One: 4.2

  • Visual, ambientação e gráficos -> 2
  • Jogabilidade -> 5
  • Diversão -> 3
  • Áudio e trilha-sonora -> 9
  • Desempenho e bugs -> 2

Cyberpunk 2077 tem muito potencial, mas ainda não está pronto

Visual, ambientação e gráficos - 8.5
Jogabilidade - 6.5
Diversão - 8.5
Áudio e trilha-sonora - 8.5
Desempenho e bugs - 4.5

7.3

Bom

Cyberpunk 2077 é um mix de sentimentos. Ele certamente é um jogo cheio de potencial que mostra uma história excepcional e gráficos de cair o queixo, caso tenha uma máquina boa o suficiente. De outro lado, você tem um jogo repleto de bugs, problemas de IA e mais. Vale adiar sua compra enquanto espera os patches saírem para ai sim ter um jogo finalizado.

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Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.
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