Análise: Zelda: Breath of the Wild é o melhor da franquia, mas não é revolucionário

Leonardo Coimbra

14 de março de 2017

Antes de iniciar este review, gostaria de dizer que joguei The Legend of Zelda: Breath of the Wild em um Wii U e levarei em conta os problemas apresentados nele ao longo desta análise. Agora vamos ao que interessa, falar desta maravilha de jogo!

Após ter seu lançamento atrasado por 2 anos – originalmente seria lançado em 2015 – tivemos o lançamento de The Legend of Zelda: Breath of the Wild para Wii U, seu último jogo a ser lançado, e o novíssimo Nintendo Switch. Difícil dizer se isso foi uma estratégia de vendas ou se já fazia parte do plano original. E também é difícil dizer se isso impactou no desempenho do jogo no Wii U, mas mesmo com problemas, Breath of the Wild é o melhor jogo da franquia e a muda completamente.

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Acorde Link

Se há algo em que Zelda: Breath of the Wild não inova em nada é em sua história. Link acorda de um sono de 100 longos anos e completamente sem memória. Tendo em posse um aparelho chamado Sheikah Slate, Link começa a desbravar essa Hyrule em frangalhos e dominada pela calamidade Ganon.

Como sabemos, Ganon é um entidade do mal que de tempos em tempos ele aparece no mundo espalhando terror. Como era sabido que um dia ele voltaria, a civilização do passado fez um plano de contenção para quando Ganon voltasse. Porém, a 100 anos atrás, o plano não funcionou e Link entrou em seu longo sono para se recuperar de sua derrota. Agora cabe a Link enfrentar Ganon e tomar de volta as 4 feras divinas para o confronto final.

Ao longo de sua jornada, Link encontrará os fortes e pesados Gorons, os nadadores Zora, as lutadoras do Gerudo e, por fim, o povo ave, os Rito que foram apresentados pela primeira vez no Zelda: Wind Waker. Porém, aqui deixo uma reflexão sobre o herói calado. Todos sabemos que é um fato histórico Link não falar, mas com a evolução dos jogos é cada vez mais comum você ter histórias melhores escritas e personagens com fortes motivações. Em Breath of the Wild, nós usamos Link como um veículo para explorar o mundo. Embora sua exploração seja sublime, acho que ficou aquém o fato de termos o herói calado. Dentro de todas as cutscenes, ele não fala nada mesmo sendo perguntando sua opinião em diversos momentos.

Não chega a ser uma falha do jogo, mas me pergunto se esse não seria o próximo passo para a franquia, pois é complicado você se importar muito com personagens que são poucos construídos e explorados. Breath of the Wild deixa a desejar no quesito de narrativa que cada vez é mais importante no mercado de games.

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Uma incrível e linda aventura

A arte em Zelda: Breath of the Wild é de tirar o folego. Embora exista uma eterna discussão sobre o poder do hardware da Nintendo versus a da geração atual, é inegável que Breath of the Wild te entrega visuais de ponta que lhe deixarão boquiaberto por dezenas de horas.

Inclusive esse Zelda é o mais diferente de todos que lhe da uma liberdade e ânsia de exploração nunca antes visto na série. Ao sair do longo sono, você sabe de seu destino final: Matar Ganon, porém, como você fará isso cabe totalmente a cada jogador. Particularmente eu fui no Zora, Goron, Rito e, por fim, os Gerudos. Esse foi meu caminho e cada um faz o caminho que quiser, inclusive é possível você ir diretamente tentar enfrentar o Ganon logo nas primeiras horas de jogo (obviamente você não irá conseguir, mas boa sorte).

Algo que é curioso e te obriga e explorar cada canto do mundo é o sistema de mapa/torres. A primeira grande diferença dos jogos usuais, é que ao andar pelo mapa você não revelará nada dele. Existe uma obrigação de subir as torres (cada uma com seu desafio) e isso irá desbloquear no mapa uma região específica. Porém, não pense que você irá ver no mapa o detalhamento de cada ponto de interesse, desafio, quests e colecionáveis. Na realidade, nada será mostrado. Tudo o que você verá será as vias principais e teoricamente mais seguras para andar nelas e o nome de alguns pontos de interesse, como o nome de um rio, lago ou montanha.

E por que isso? Simples, para incentivar ao jogador a explorar o mundo e a prestar atenção a lore e side missions de Hyrule. Ao falar com as pessoas eles darão diversas dicas sobre aonde encontrar um tesouro, ou então um cavalo forte ou uma shrine de desafio, uma comida específica e por ai vai. E essa exploração estará de mãos dadas com visuais incríveis, uma floresta rica em detalhes, grama alta que sempre irá te envolver e muito mais. Para chegar aos pontos de interesse (em sua maioria as torres e as shrines) você tem como colocar alguns pontos (pins) no mapa e pode enxergá-lo de longe através de seu Sheikah Slate.

O que pode incomodar alguns é que o mundo é enorme e um tanto vazio. Diversas vezes acontecia de eu andar por 5, 10, 20 minutos sem encontrar nenhum inimigo. Porém, o foco do jogo é na exploração e achar novos ambientes, desafios e tesouros e não somente no combate e XP (o que o jogo não lhe dá). Também, no Wii U, é possível ver gráficos serrilhados por diversas vezes e de vez em quando tira um pouco dessa magia.

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Mecânica completamente nova

Aqui entramos no certame que pode dividir opiniões. Breath of the Wild quebra o gameplay da série Zelda em diversos pontos trazendo a jogabilidade muito mais próxima a um jogo Darksouls do que da própria franquia Zelda. Antes de mais nada vou começar com a parte que mais odiei (sim, um ponto extremamente negativo do jogo), a quebra de armas!

Essa mecânica é realmente um pé no saco. A ideia é que cada arma oferece um estilo de jogo e ataque. A arma de uma mão, pode usar o escudo ao mesmo tempo e fazer um ataque normal. Já armas pesadas (de duas mão) dão ataques mais poderosos e são mais lerdos, te deixando sucessível a ataques. Também existe a lança que é um ataque mais rápido e de média distancia, porém, acaba sendo mais fraco. E claro que podemos usar a clássica bomba, arco e flecha e outros. O problema é que a cada uma média de 20 ataques sua arma irá ser destruída e não tem como reconstruí-la. Isso serve para tanto para as armas, como escudo e arco e flecha (sim, o ato de disparar flechas acaba o destruindo. É o arco mais vagabundo já feito). Com essa mecânica questionável, você sempre fica receoso de usar a melhor arma logo, ficará usando todo o lixo que for encontrando guardando a melhor para um chefão ou um inimigo mais perigoso. E como gamers nós sabemos o que acontece com essa prática, muitas vezes não usaremos essa arma.

Saindo desse parágrafo cheio de ódio, vamos a parte boa: TODO O RESTO! Antes de mais nada temos que falar das “leis da natureza”. Breath of the Wild traz uma certa lógica ao jogo onde o jogador tem que ficar esperto. Todos sabem que existe a clássica roupa para fogo e para frio. Já partindo para a lógica, ao chegar a um ponto alto, ele será mais frio. Caso você entre no deserto dos Gerudos, você sofrerá com o calor no ápice do dia e frio a noite. E claro, a chuva molha as coisas certo? Ao tentar escalar uma parede ou uma montanha, você simplesmente irá escorregar. E, por fim, ainda falando da água, ao atirar uma flecha elétrica na água, ela irá conduzir a energia através daquela poça de água. E claro, elementos de metal atraem os raios durante o temporal.

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Falando sobre escalar a montanha, essa habilidade faz um papel fundamental no jogo. Como falei anteriormente, o seu papel é explorar o mundo e descobrir cada canto dele. O fato de você poder escalar virtualmente tudo quebra diversas barreiras. Inclusive isso é algo que nos força a quebrar nossos paradigmas de jogabilidade, pois você TEM QUE colocar nas possíveis soluções subir uma parede ou montanha. Como exemplo, no último ponto indo matar o Ganon, eu comecei a subir montanhas e paredes diversas vezes para chegar até o cume. Além da escalada, temos que lembrar que poder planar de um ponto ao outro, será sempre a maneira mais rápida de viajar e de driblar inimigos.

Por fim, temos que falar do Sheikah Slate. Esse seu objeto místico portátil é o responsável por lhe dar certos poderes. Dentro dele você poderá carregar as runas de Bomba com detonamento a distância, parar o tempo, magnetismo e congelamento (só funciona na água). Esses itens serão usados até a última luta para ajudar a resolver puzzles. Por exemplo, digamos que tenha uma porta fechada, mas embaixo dela tem um pouco de água. Ao criar um bloco de água embaixo dele, fará com que a porta se abra e você possa passar. Ou então que tal parar um objeto no tempo? Ao fazer isso você poderá golpeá-lo diversas vezes aplicando uma força. Ao terminar o tempo da magia, esse item sairá voando na direção.

Infelizmente, no Wii U, o conjunto da obra acaba sendo atrapalhado por sua falta de potencia. É nítido a queda do FPS quando tem muita informação na tela que costuma ser quando entra em uma cidade ou então quando está chovendo. Felizmente não é nada que acabe atrapalhando durante a solução dos puzzles ou luta contra os chefões, mas atrapalha a experiencia final.

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Você vai morrer, mas a culpa será sua

De todas as mudanças feitas no jogo, essa é a mais inesperada de todos. Não só o gameplay teve influencia da série Souls, mas suas mortes também.  Algo que é usual acontecer ao longo do jogo é morrer, e não se espante se você morrer muito e receber a tela de game over.

Por mais que você melhore suas armaduras e tenha muitos corações, você ainda poderá morrer por inimigos com 2 a 3 pancadas caso não preste atenção. Uma alternativa, é ficar muito atento aos ataques inimigos. Assim que ele te atacar, você poderá esquivar e então, caso tenha feito no timing correto, poderá revidar com uma série furiosa de ataques. Infelizmente, sua arma pode quebrar no meio deste combo (como odeio esta mecânica).

Porém, é possível usar os ataques inimigos contra ele. Até o fim do jogo, você ficará suscetível ao ataque laser dos guardiões que irá te matar imediatamente, ou então te deixar a beira da morte. É possível se proteger atrás de um inimigo e ele levará o ataque por você. Também é possível estudar a base inimiga antes e atingir um barril explosivo ou então tacar uma pedra neles.

Ou seja, antes de cada ataque, é necessário que você estude o ambiente e tenha um tipo de plano em mente.

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Desafios de quebrar a cabeça

Aqui finalmente chegamos ao ápice de The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Cada desafio que você passa é mais interessante do que o outro, inclusive nos chefões. Eu posso dizer que o objetivo central do jogo é encontrar o máximo de Shrines e desafiar sua mente para vencer todos os divertidos e inteligentes desafios. Até eu zerar pela primeira vez, já havia completado mais do que 40 Shrines e sempre me divertido muito em cada uma. Elas podem te desafiar somente com um de seus poderes, ou então te obrigar a misturar eles até chegar ao final. Mas, para que fazer isso? Simples, a cada Shrine conquistada, você recebe um orb, e com 4 orbs você pode aumentar sua vida em 1 coração ou então aumentar sua stamina. Exato, esqueça os 1/4 de coração que você coletava, agora tem que resolver desafios que podem envolver inclusive o acelerômetro do seu controle.

Mas esses desafios não estão limitados as Shrines. Cada uma das 4 grandes dungeons te colocará a prova através de desafios muito inteligentes. Resumindo o que tem que fazer, você deverá ativar 5 torres de controle para enfrentar o chefão. Porém, não é tão simples o quanto parece e você deverá ter uma análise sensorial muito grande. Isso porque você terá acesso ao comando das bestas e poderá mudar sua configuração. Isso irá bloquear alguns caminhos e lhe mostrar outros novos caminhos. E sim, isso é fantástico e estimulante.

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O sorrateiro Master Chef Link

Outras grandes novidades que nos deixaram com os olhos cheios, é a possibilidade do jogador ser Stealth e de cozinhar. O lado Stealth é relativamente simples. Você vai agachado e caso o inimigo não o veja, poderá aplicar um golpe possivelmente fatal que dependerá da arma que tiver usando e do nível do inimigo. Algo que é interessante, é que quando tiver chovendo, seu som será abafado pela chuva e facilitará essa aproximação furtiva.

Já a mecânica de cozinhar será muito utilizada por você e é essencial para o jogo. Curiosamente, o mundo que está a beira da destruição e escuridão de Ganon tem uma fauna e flora imensa, juntamente com uma oferta abundante de comida. Ou seja, é extremamente fácil você poder cozinhar algo e ter os recursos para isso. A culinária se divide em duas partes. A primeira é a obvia culinária de comida. Ao misturar os itens, você irá poder recuperar mais ou menos corações. Porém, ao ler a descrição de cada ingrediente, será possível você adicionar algum efeito a essa refeição como recuperação de stamina, aumento de defesa, ataque, resistência elemental e outros. Já a segunda culinária é uma alquimia para fazer elixir. Diferente da culinária tradicional, os elixires não vão recuperar sua vida, mas em compensação, irão melhorar substancialmente um status ou resistência sua. E novamente, a leitura de cada ingrediente é necessária para essa alquimia.

O interessante, é que você sempre pode ter um estoque de itens para tanto aumentar seus status como recuperar sua energia. Você será pego despreparado somente se você quiser.

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O melhor The Legend of Zelda já feito, mas não é perfeito

Como foi possível ver, esse jogo é incrível e é merecedor de muitos elogios e algumas poucas ressalvas. The Legend of Zelda: Breath of the Wild pega muitas coisas que dão certo no mundos dos games de hoje e reescreveu toda sua estrutura adaptando ao seu mundo. O destaque massivo vai para a o mundo lindo que foi criado pela Nintendo juntamente com sua direção de arte. Além disso os desafios das Shrines é a coisa mais interessante do jogo que sempre irá lhe desafiar cada vez mais pensando em como solucionar o problema a sua frente. E a não linearidade do jogo te instiga a explorar cada vez mais sua história podendo abordar o mundo do jeito que quiser. Pequenos detalhes como a força da natureza no ambiente e o fato de não entregar o mapa por completo após ativar as torres, irá lhe motivar ainda mais a olhar cada canto do mundo e tentar novas abordagens.

Infelizmente, o título sofre de severos problemas de FPS e apresenta serrilhado em seus gráficos ao longo do jogo, no Wii U, e isso é muito frustrante. Ao chegar numa cidade ou então ao cair uma chuva, é quase certo que o jogo vai começar a engasgar. Felizmente ao lutar contra os chefões, esse problema não aparece. E claro que temos que citar a péssima mecânica de quebra de arma que chega a ser irritante a sua não durabilidade. Por fim, o fato do jogo ter longos momentos sem inimigos e do Link ser o eterno “herói silencioso” poderá levantar uma certa frustração em alguns jogadores.

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