Análise: Dandara diverte e mostra o potencial do Brasil de fazer bons jogos (Nintendo Switch)

Bernardo Cortez

9 de fevereiro de 2018

Dandara é um jogo de plataforma 2D no estilo Castleroid Metroidvania desenvolvido pelo estúdio brasileiro Long Hat House e produzido pela Raw Fury. Com uma pegada artística e referências à cultura e ao folclore brasileiros, o jogo traz a guerreira Dandara, que deve combater inimigos em meio a um mundo de cidades destruídas, florestas e edifícios abandonados. Quer saber qual a nossa opinião sobre o jogo? Confira abaixo a nossa análise:

Comecemos com um pouco de contextualização. Dandara foi uma guerreira negra do século XVII considerada uma das maiores heroínas que, junto a Zumbi dos Palmares, lutou contra o sistema escravocrata. Com uma alusão à antiga guerreira, o jogo traz um mundo que é destruído por forças desconhecidas. Dandara, protagonista do jogo extremamente hábil e ágil, consegue sobreviver ao ataque e deve lutar contra seus inimigos para restaurar a ordem no mundo. Alguns podem fazer um paralelo entre a simples história do jogo com a infeliz prática da escravidão nos séculos passados, em que forças externas (europeus, em grande maioria) invadiram a África (terra de Dandara) em busca de mão de obra forçada da população negra.

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Não há muita enrolação com relação a história do jogo, todo o enredo gira em torno do clássico “seu mundo foi invadido e deve ser salvo por uma heroína”. A partir daí, utilizamos a personagem e sua habilidade de pular entre plataformas em qualquer direção dos blocos de área do mapa para achar nosso caminho. A gravidade não é um obstáculo para Dandara, que pode se mover literalmente para qualquer plataforma presente no mapa, este que gira em diferentes sentidos de acordo com o lugar para onde pulamos. Diferentemente de jogos como Metroid, entretanto, não se pode andar normalmente, tudo é feito através dos pulos da personagem sobre plataformas definidas.

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Além da sua movimentação baseada em saltos, Dandara possui habilidades e novas armas que são desbloqueadas à medida que acumulamos Sal, a “moeda” do jogo. O sistema de progressão se assemelha ao da série Souls, uma vez que o Sal é obtido quando eliminamos inimigos. Agora, quanto à jogabilidade e o sistema de tiro, a escolha da Long Hat House de colocar armas com alcance muito limitado e baixa velocidade de tiro, pelo menos inicialmente, não condiz muito com a velocidade da personagem. Jogos como Furi e Ruiner, por exemplo, trazem personagens extremamente rápidos que conseguem matar seus inimigos num piscar de olhos. A diversão está atrelada ao desafio de passar pelos adversários da forma mais rápida possível, o que traz uma satisfação e um desejo de querer se superar e fazer tudo de novo de forma ainda mais rápida. Em Dandara, entretanto, há um certo cap da velocidade de ação como um todo, já que por mais que nos movimentemos rápido, a velocidade de tiro simplesmente não acompanha. Esse problema se agrava quando nos deparamos com muitos inimigos ao mesmo tempo, já que é necessário se movimentar muito rápido para evitar os ataques adversários ao mesmo tempo em que devemos atirar neles de forma muito lenta. O gameplay acaba ficando prejudicado nesse sentido.

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Algo que também não agrada muito em Dandara é seu mapa em forma de labirinto à la Castroidvania Metroidvania. Pelo fato de que a personagem pode se movimentar em qualquer direção mudando os bloco das fases de sentido, por muitas vezes nos perdemos no mapa, já que ele é exageradamente simples e não possui muitas referências que nos auxiliem. O resultado disso é que temos que voltar todo o caminho que fizemos por muitas e muitas vezes. Esse tipo de problema não acrescenta nada na experiência a não ser frustração, já que perdemos horas de jogo simplesmente porque o mapa não ajuda muito.

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Agora, Dandara se destaca muito pela sua estética e trilha sonora. Todo o cenário em pixel-art é muito bonito e se funde muito bem com as músicas orquestrais ao fundo. Em muitos momentos, acabei esquecendo os problemas do jogo por conta do estilo da obra como um todo. Passamos por florestas, cidades destruídas, bosques e locais desenhados à mão pela equipe da Long Hat House. A impressão que temos é a de que tudo realmente foi feito com carinho por parte do estúdio. Além de toda essa beleza em pixel-art, não podemos deixar de comentar as referências à cultura brasileira como o personagem inspirado na obra de Tarsila do Amaral, Abaporu (o próprio nome do personagem é Tarsila, aliás), logo no início do jogo.

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Em suma, Dandara é um jogo divertido, apesar de suas falhas. O mapa simplificado demais, a necessidade de ter que voltar blocos a todo momento e a lenta mecânica de tiro acabam por tirar um pouco do brilho do jogo. Entretanto, a estética e trilha sonora de Dandara junto com a possibilidade de sair pulando pelo mapa de forma frenética dão um toque único ao jogo. Por mais que tenha falhas, Dandara é um orgulho para o mercado nacional de jogos, que cada vez mais traz títulos de qualidade.

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