Análise: Mulaka e o desafio dos Indies atuais

De alguns anos pra cá os jogos Indies foram perdendo a ligação com jogos de baixo custo e, por conta disso, qualidade um pouco inferior. As empresas entenderam o poder da narrativa e da arte por trás dos jogos, usando sua liberdade (por não ter uma grande distribuidora no seu cangote) para tratar de assuntos modernos, cotidianos e polêmicos.

Com isso, o número de fãs foi crescendo, os holofotes se viraram para os Indies e os olhos das pequenas empresas brilharam com a possibilidade de um blockbuster.

O “problema” é que com isso, a exigência do público cresceu junto e os jogos, para chegar a impressionar, precisam de um esforço a mais, um diferencial … algo que toque o jogador de alguma maneira. E vamos a Mulaka.

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Índios, Deuses e México

O jogo se passa em meio a cultura da tribo Tarahumara. Um povo nativo da região serrana do norte do Mexico, no estado de Chihuahua. A tribo é famosa por sua condição atlética, principalmente na corrida.

Em Mulaka você joga com um Sukurúame, um xamã, da tribo Tarahumara. Seu objetivo PASMEM é usar seus poderes semi-deuses para livrar a terra de qualquer mal.

A ambientação e detalhes do jogo foram cuidadosamente criados em parceria com antropólogos e líderes da própria tribo Tarahumara para que o jogo captasse a verdadeira essência de sua cultura. Desde a narração, feita no idioma indígena, até a música característica da região, você irá presenciar uma representação autêntica da cultura dos Tarahumara. Não só os ambientes são inspirados na localidade da tribo como também os inimigos. Estes fazem parte da mitologia Tarahumara.

Como dito anteriormente, os jogos Indies tem esse poder de explorar as minorias e histórias não tão populares, trazendo para a comunidade gamer a oportunidade de crescer culturalmente e moralmente.

Jogabilidade simplista

Simples é uma das características vistas em Mulaka. Não entenda errado, ser simples não é ser “pouco”. Ser simples é ser fácil, acessível e desestressante. Se você quer um jogo com desafios, talvez Mulaka não seja a melhor opção dentre os tantos outros jogos focados completamente nesse aspecto.

O jogo possui batalhas interessantes, principalmente com os chefes de cada mundo, e puzzles simples e intuitivos. O crafting do jogo é também bastante simples, já que você só precisa pegar as flores e plantas necessárias para a fabricação dos itens e ele serão criados automaticamente.

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A crítica fica por conta das animações dos movimentos do personagem. Os combos não valem a pena já que os ataques usando botões diferentes não são tão mais fortes que um combo usando apenas o ataque leve. Qualquer troca de botão cria um brecha grande para ataque de inimigos. Além disso, quando você usa um item de cura ou de aumento de ataque, o protagonista precisa fazer uma dança característica da tribo para que o efeito aconteça. Isso leva um tempo muito maior do que deveria. Diversas vezes eu perdi toda a vida que recuperaria com o item graças a um ataque inimigo no final da animação (durante a animação você não consegue mover o personagem).

Com a ajuda de Semi-Deuses

Como em vários jogos por aí, em Mulaka você é um escolhido pelos Deuses para lidar com situação a qual sua região se encontra. Neste caso, você precisa libertar os semi-Deuses para usar suas habilidades e seguir adiante em sua jornada. Cada um deles te dá um novo poder relacionado a um animal da cultura Tarahumara. Os poderes fazem com que você consiga atravessar trechos com água, quebre pedras grandes, ganhe a habilidade de poder voar por algum tempo e saltar por galhos em encostas. Como todas as fases possuem colecionáveis, você poderá voltar depois até uma fase antiga, com seus novos poderes, para alcançar novos lugares antes impossíveis de se chegar.

Você pode usar suas habilidades em qualquer momento do jogo mas, como eu disse antes, eles são irrelevantes na batalha. Simplesmente não funcionam. Alguns nem sequer dão dano, nem nada. Uma pena.

Vale mencionar que as fases são mostradas em um mapa, com o intuito de exemplificar a fama da tribo em suas corridas e caminhadas por várias milhas sem demonstrar cansaço eu mal posso ir ali na padaria que já quero um copo de agua.

Bugs e Glitches

Um dos grandes “problemas” de Mulaka são seus bugs e glitches. Para os jogadores menos experientes eles podem frustrar e até quebrar seu jogo e save. Para os jogadores mais cascudos chega a ser até divertido. Depois de um certo tempo de jogo eu comecei a tentar aproveitar dos glitches para chegar a lugares mais rápido ou sem resolver algum tipo de quebra-cabeça. E, talvez, esse tenha sido o jogo com maiores sucessos nessas tentativas. Isso não me irrita, mas tem que ser pontuado já que é um erro de produção e ainda não foi corrigido.

Gravei um vídeo derrotando um dos chefes do jogo somente com o uso de um bug onde a fogueira fica responsável por dar todo o dano no inimigo. E novamente, foi proposital. Eu realmente tentei um cenário onde isso poderia acontecer e aconteceu.

Mulaka é um Indie raiz

Como eu disse anteriormente, simplicidade é a palavra que define Mulaka. Isso é seu grande trunfo e um de seus pontos fracos. Por mais que a simplicidade seja ideal para um jogo que quer alcançar a maioria das pessoas, contar uma historia e mostrar uma cultura, Mulaka tampouco foca como deveria nesse ponto.

Descobrir uma nova cultura, pouco disseminada, é o tipo de coisa que tem movido os Indies até seu nível atual. Mas com isso a barrinha sobe um pouco mais. E para ser comparado a verdadeiras obras de arte você precisa fazer por onde.

Com uma diversão simples, muita cultura, vários bugs  e uma pequena falha nas animações demoradas, Mulaka vai agradar… mas você vai sentir falta de algo mais ousado e desafiador.

notas

Publicado
Gamer há tanto tempo que usa consoles como referência cronológica para lembranças de sua vida. Amante de Mega Man, Resident Evil e Warcraft. Se gaba por ter zerado Battletoads aos 9 anos mas abandonou Bloodborne com 26.

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