Análise: Distortions encanta, mas foi lançado antes da hora

No ano de 2017 todos tomamos conhecimento de Distortions após o BIG 2017 onde Distortions levou alguns canecos para casa, incluindo o melhor jogo indie brasileiro. Desde então o hype só aumentou com novas premiações que se estenderam ao mundo e também novas premiações na BGS 2017. Agora com o lançamento do jogo podemos ver se o hype criado se mantém firme ou não.

Um Engine nova feita do zero

Curiosamente, pela primeira vez nessa indústria vital, não iniciarei minha análise pela história ou impacto do jogo, mas sim por uma parte completamente técnica. Para quem não sabe, Distortions entra na lista dos jogos que demoraram muito para ser concluído. Mais precisamente, um pouco mais de 9 anos de desenvolvimento. E isso de deve por dois motivos:

O primeiro motivo é a sina de qualquer jogo independente, um pequeno número de desenvolvedores. é Muito comum vermos diversos jogos sendo desenvolvidos com uma equipe de 3 a 5 pessoas. E o segundo motivo é que a equipe do Among Giants (desenvolvedores do jogo) resolveu criar uma engine nova, chamada de Distortions Tools. Para quem não sabe a Engine é o que dá a física para o mundo, movimentação, comandos, iluminação e por ai vai. Ou seja, ao invés de utilizar uma engine já consolidada no mercado como a Unity ou então a Unreal Engine, eles resolveram fazer algo praticamente do zero.

E como vocês já entenderam isso pode ser uma faca de dois gumes, pois embora por um lado eles possam direcionar tudo do jeito que eles querem, por outro lado erros podem acontecer e eles não tem o feedback de engines que são usadas todos os dias por milhares de desenvolvedores.

Hora de acordar e explorar este louco mundo
Hora de acordar e explorar este louco mundo

Olá Menina sem nome

A história de Distortions é no mínimo sombria e oculta. Você começa com uma menina que não possui nome. Logo nos primeiros minutos é deixado claro que a menina não só não possuirá um nome como não se lembrará de nada sobre seu passado. Ao longo da aventura será possível descobrir mais sobre seu passado e os fatos que a levaram a perda de memória.

Sem entrar no terreno dos spoilers, posso mencionar que ela se envolve em um acidente de carro (onde suas peculiaridades não são muito abordadas) e que ela tem um término de relacionamento traumático. Tanto esse acidente como este relacionamento se misturam com a perda de sua irmã e a criação deste mundo completamente distorcido.

Pronta para a próxima lição?
Pronta para a próxima lição?

Ao andar neste mundo, será possível encontrar muitas dicas como anotações de uma pessoa que já passou por lá. Além disso será possível contar, eventualmente, com a ajuda de uma pessoa misteriosa que aparenta ser a espécie de um psicologo que irá ajuda-la. Não só isso, um dos grandes objetivo é chegar ao monstro que está preso no mundo e que a menina certamente já o confrontou em uma oportunidade anterior.

Fica claro que a Among Giants criou um mundo para mostrar uma possível depressão/confusão que está dentro da cabeça da menina e como ela deve encarar seus medos de frente. O jogo certamente tem uma mensagem muito forte, mas seu ritmo pode não agradar a todos. Pelo menos, posso afirmar que ele me deixou curioso.

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É tocando que se descobre muitas coisas

Ambientação e mecânicas

O projeto de Distortions é muito ambicioso e se posso afirmar algo categoricamente é que ele tem sucesso com sua arte e ambientação. Usando uma palheta de cores fortes, puxada mais para o roxo e amarelo, o jogo irá lhe proporcionar um mundo com lindas e vastas paisagens. Sabendo disso a Among Giants tomou uma decisão que acaba prejudicando o jogo, a inclusão de takes desnecessários de câmeras em muitos momentos. É normal em um jogo você ter uma visualização macro da área quando chega em uma nova região. Porém, isso é feito por muitas vezes em Distortions e chega ao ponto de incomodar. Em diversos pontos você será interrompido para mostrar o oceano, planícies, cavernas e por ai vai.

Para explorar esse mundo você poderá andar normalmente por ele, pular e terá em posse seu fiel violino. Existem alguns desafios simples de plataforma que certas vezes serão resolvidos com um simples pulo ou então terá que usar seus poderes. O seu violino poderá ser tocado de duas maneiras. O primeiro é o modo livre onde terá que tirar detritos de seu caminho ou então ativará alguma habilidade específica para aquela área. Dentre as possíveis 4 notas, você terá que tocá-las na ordem correta para ativar este poder. Já o segundo modo é fixo. Com o desenrolar do jogo será possível adquirir músicas que irão ativar um poder específico quando quiser. Será possível andar silenciosamente, interagir com o ambiente, criar barreiras, iluminar o caminho e mais.

E caso esteja pensando em lutar com os inimigos, esqueça isso. Suas armas será somente sua música. Em muitos casos você terá que alternar entre as músicas aprendidas para conseguir escapar, mas geralmente você irá optar pela música do silêncio e sairá correndo da área de perigo. E por falar em correr, eis uma oportunidade de melhoria: A Menina possui stamina de cerca de 5 segundos para correr e isso é muito irritante pois é normal você se cansar a cada corrida. Eu que sou gordinho consigo correr por um minuto sem sentir o cansaço que ela sente em 5 segundos.

Distortions traz as 3 câmeras conhecidas no jogo. A maioria do tempo você seguirá com a câmera atrás do ombro que é muito usada nesse tipo de jogo, porém, em outros momentos o jogo irá alterar a câmera para uma 2D e você poderá correr somente da esquerda para direita (inclusive nesses momentos somos lembrados de jogos como Limbo). Por fim, também termos a câmera FPS no jogo. Ela normalmente aparecerá em locais mais fechado como em cavernas e dará a sensação de um Dungeon Crawler.

Por fim, algo que senti falta foi de um mapa minimamente interativo. Existe um mapa simplificado para seguir, porém ele pouco ajuda na exploração. Acredito que se tivessem colocado a possibilidade de utilizar marcadores, já ajudaria para saber que pontos vale a pena voltar ou não.

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Olha o bicho vindo véi

Problemas dignos de um jogo Pré-Alpha

Até aqui eu diria que o jogo é  uma chuva de elogios, certo? Porém, viram que eu comecei falando da engine do jogo e isso teve um motivo. Por não utilizar uma ferramente de criação já estabelecida e solidificada no mercado é possível ver muitos problemas básicos ao longo do jogo. Vamos aos pontos:

  • Movimentação estranha – Bem, a movimentação em Distortions não é nada demais. São os comandos básico, mas é possível notar que a resposta deles não é muito boa. A menina se move de forma dura ao longo do jogo e certas vezes é até possível ver a personagem sendo “resetada” para sua posição original de modelagem por cerca de um segundo após cair de uma plataforma ou similar.
  • Mudança de câmera temível – Acima falei que existem 3 câmeras que são usadas no jogo, certo? Bem, infelizmente a mudança entre elas não é nada fluída. Muitas vezes a câmera ficará bugando entre a TPS e a FPS. Não só isso, certas vezes será possível ser derrubado de uma plataforma por causa da mudança da câmera.
  • Física estranha – O mundo por si só é destorcido e estranho, o que é sua proposta e não tenho nenhum problema com isso. Porém sua física traz um certo desconforto. É possível ver pedras e pedaços de pau voando como se fosse um papelão.
  • Problemas GRAVISSIMOS com o frame rate – Os usuários de PC normalmente se gabam pela possibilidade de jogar seus jogos a 60 fps ou algo muito além disso. E para isso acontecer, o jogo tem que ser bem otimizado e rodar redondo. Infelizmente esse não é o caso de Distortions. Além de pedir uma GTX 1060 como placa de vídeo recomendada (algo muito pesado para um jogo indie), o frame é uma bagunça pura. Não é um exagero quando digo que em um mesmo cenário ele variava de 200 fps a apenas 9 fps. No geral ele rodava a 45 no meu notebook gamer, mas de qualquer modo a variação era absurda e incomodava muitas vezes.
  • Boa trilha sonora, mas efeitos especiais medíocres – Distortions é um jogo que tem em sua veia a música. Não por menos sua “arma” é um violino. E posso afirmar que a trilha sonora é muito boa. Porém, boa parte do jogo você ficará refém de um silêncio e de efeitos sonoros que considero fracos.
  • Pop up de texturas e barreiras invisíveis – A grande verdade é que a maioria dos jogos hoje sobrem com o carregamento de texturas por ter muitos assets à serem carregados. Porém, em Distortions isso toma uma outra proporção, pois é super comum a cada novo ambiente ver as texturas sendo carregadas lentamente. Em alguns momentos é até possível ter o carregamento de árvores e pedras na sua frente o que pode atrapalhar um pouco a trajetória. E outra coisa que poderá se deparar é com as paredes invisíveis que o jogo apresenta em certos pontos.

A grande verdade é, Distortions precisava de mais tempo para ser desenvolvido, pois ele não parece estar pronto para o lançamento.

Mas o que está acontecendo nesse mundo?
Mas o que está acontecendo nesse mundo?

Conclusão

A proposta de Distortions é realmente muito ambiciosa e ela funciona em muitos momentos com a mudança de câmeras, uma narrativa densa, uma boa trilha sonora e com uma linda ambientação. Porém, a equipe da Among Giants simplesmente pecou na data de lançamento. É possível encontrar muitos problemas de um jogo Pré-Alpha que irá atrapalhar e muito sua experiencia. Entre bugs e deslizes, a queda brusca de frame rate leva o prêmio de problemas que poderão, e irão, frustrar muitos os jogadores.

Por mais que me doa dizer isso, a grande realidade é que você deverá comprar Distortions somente após a Among Giants liberar uma série de updates para resolver os problemas mencionados acima.

E a grande verdade é que esse jogo é um jogo nota 3/5, talvez até 4/5. Mas por termos tantos problemas e por ter sido lançado antes da hora devida, sou obrigado a ser mais rigoroso.

notas

 

Publicado
Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.