Análise: Frostpunk te fará tomar decisões duvidosas em situações de crise

Frostpunk foi um dos jogos que mais chamou a minha atenção na BGS 2017. Como um grande admirador de jogos de construção de cidades e estratégia, vi o grande potencial que o jogo tinha assim que fui introduzido a ele. Sua temática Steampunk e suas as opções de decisões administrativas um tanto quanto duvidosas de ponto de vista ético, servem de base para uma experiência bastante interessante. Quer saber mais sobre Frostpunk? Veja nossa análise abaixo:

Produzido e desenvolvido pela 11 bit studios, conhecida pelo incrível This War of Mine, Frostpunk traz muitos dos elementos obscuros do primeiro jogo da empresa. Com sua temática Steampunk pós apocalíptica, o jogo nos coloca na pele de um capitão que tem por objetivo reerguer uma cidade em meio a um mundo devastado pelo gelo permanente. Não se sabe o que foi responsável pela catástrofe, a única coisa que devemos fazer é sobreviver frente às adversidades de um mundo gélido e sem muitos recursos.

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Munidos inicialmente de somente um Steam Core, torre central do vilarejo que produz calor inicial para a sobrevivência dos cidadãos, devemos construir abrigos, centros médicos e edifícios que auxiliem na tarefa de manter todos vivos, saudáveis e com esperança de que tempos melhores virão. O gameplay inicial é bem simples, devemos buscar madeira, aço e carvão para não somente levantar novas construções, mas também para alimentar o Steam Core e garantir que todos tenham calor para que não morram ou fiquem doentes. A premissa é bem parecida com a de outros jogos de administração de cidades, como Sim City ou Cities Skylines. A chave de tudo está em manter a economia fluindo a todo custo. Devemos escolher a quantidade certa de trabalhadores para cada atividade, seja minerar carvão, coletar madeira, ou mesmo caçar para garantir que todos tenham comida no dia seguinte. Caso esqueçamos de qualquer um desses pilares básicos, é certo que teremos problemas muito em breve na nossa cidade, seja pelo nível de esperança da cidade, que serve de termômetro do estado de espírito dos habitantes, ou pela insatisfação, que mede as opiniões dos trabalhadores acerca da sua gestão.

Em Frostpunk, deve-se pensar tanto a nível micro quanto no macro a todo momento. De nada adianta construir minas, centros médicos e centrais de busca de sobreviventes se não há pessoas o suficiente para trabalhar nesses locais. Cada cidadão importa, e muito, em todos os aspectos. Cada um deles pode ser enviado para realizar um trabalho específico e possui um nível de saúde que varia de acordo com os desafios aos quais é enviado. Por exemplo, cidadãos enviados para trabalhar em minas longe do centro da cidade terão menos acesso a fontes de calor e estarão mais suscetíveis a doenças e, é claro, a acidentes de trabalho. E, acredite, perder mão-de-obra é uma das piores coisa que pode acontecer em Frostpunk. Em alguns momentos é inevitável que isso aconteça e é a partir daí que o jogo se destaca.

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Em muitos momentos, seremos colocados à prova e teremos que tomar decisões a contra gosto. Obviamente, o jogo se passa em uma situação de crise extrema, em que a sobrevivência da sociedade é o objetivo principal. Para manter nossa cidade funcionando, muitas vezes teremos que nos confrontar com decisões que vão contra nossos princípios éticos e morais. Por exemplo, nas primeiras vezes que tentei fazer com que minha cidade crescesse, tive bastante sucesso em manter o seu contentamento, tendo bons níveis de esperança dos meus cidadãos e excelentes feedbacks dos mesmos. Entretanto, assim que um forasteiro chegou na cidade com uma notícia devastadora (não darei spoilers da história), a esperança despencou instantaneamente, fazendo com que eu tivesse que construir edifícios que trabalhassem na restauração da esperança, como igrejas. Consequentemente, tive que colocar trabalhadores que estavam coletando materiais para trabalhar nessas igrejas e minha cidade começou a sofrer com fome. A muito contragosto, fui forçado a assinar uma lei que permitisse mão de obra infantil a fim de ter mais trabalhadores. Era isso ou a morte certa de toda a população. O jogo nos coloca nessas situações de forma muito inteligente e não forçosa. Em muitos momentos chega a parecer injusto o impacto negativo de certas descobertas, mas bem, em um cenário pós-apocalíptico onde o único objetivo é sobreviver, dificilmente as coisas serão justas. Nesse sentido, decisões difíceis terão que ser tomadas.

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Felizmente, também podemos enviar equipes de exploradores para fora da cidade para explorar pontos do mapa que possam ter recursos, sobreviventes ou que nos contem mais da história do jogo e o que pode ter levado a esse cenário desolador. As pistas vão sendo reveladas pouco a pouco, aumentando o nível de imersão do jogo à medida que os desafios vão sendo superados na cidade. Além disso, em muitos momentos devemos ter cuidado com os lugares que exploramos, já que alguns deles podem trazer revelações nada animadoras, que podem afetar drasticamente na esperança da sua população.

À medida que novas leis vão sendo assinadas e novas descobertas vão sendo feitas pelos engenheiros, novas construções são desbloqueadas. Essas serão essenciais para a manutenção da cidade quando sua população aumentar, visto que cada vez mais necessitaremos de mais recursos e mais calor para manter todos vivos e saudáveis. Com novas descobertas e novas tecnologias, a cidade vai se tornando mais próspera até certo ponto, com robôs trabalhando 24h por dia e recursos sendo levados a todo momento à cidade. Entretanto, nem tudo são flores. Uma hora ou outra algo será descoberto pelos seus exploradores que fará com que tudo mude (dependendo da sua decisão do que fazer, é claro). Encontrar novos sobreviventes é sempre bom para aumentar a força de trabalho da cidade, mas nunca que se esqueça que mais pessoas são mais bocas para alimentar. Deixá-las morrendo no frio evita que sua cidade receba problemas externos, mas onde está a sua ética nisso? Você preferirá salvá-los e colocar em risco toda a sua população ou deixá-los morrendo no frio e ter sua cidade o intitulando de “Sangue Frio” (com o perdão do trocadilho).

Nenhuma escolha é fácil em Frostpunk, mas todas as opções são extremamente bem desenhadas pelos desenvolvedores da 11 bit studios. Claramente, Frostpunk bebe muito das fontes de This War of Mine, e traz situações ainda mais agoniantes. Parece que a especialidade da empresa é colocar o jogador em situações absolutamente duais. É uma pena entretanto, que o jogo tenha uma história com fim. Não pela história em si, que realmente nos toca em muitos momentos, mas porque não temos a oportunidade de fazer com que nossa cidade cresça cada vez mais. Não estamos acostumados a ter esse tipo de limite em jogos do tipo, mas eu entendo essa necessidade em Frostpunk e acho uma decisão interessante da equipe, que colocou uma cereja no bolo de um estilo de jogo que geralmente não possui um roteiro definido.

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A estética de Frostpunk é perfeita para o clima a que o jogo se propõe. Cada detalhe importa e realmente traduz uma cidade se reerguendo de uma catástrofe. As trilhas dos trabalhadores em meio a neve, a condensação na tela, a tristeza no andar dos personagens, tudo representa muito bem a situação de crise em que somos colocados. A música, junto aos belos gráficos do jogo, funciona perfeitamente para nos tocar e quase causar uma lágrima como precisamos tomar uma decisão que nos aperte o coração. Frostpunk é perfeito nesse sentido. Não espere felicidades.

Por fim, Frostpunk é um grande jogo da 11 bit studios. A equipe de desenvolvimento bebeu bastante da fonte de This War of Mine e trouxe um título ainda mais tocante, que faz com que tenhamos que tomar decisões difíceis em prol do bem maior. É uma pena que ela não possa ser jogado infinitamente, como é de praxe em jogos do gênero, mas também é de grande valia a história criada. A sensibilização causada pela trilha, pela arte e pelos acontecimentos do jogo é certa. Se você tem o coração no lugar de uma pedra, prepare-se para confrontar seus valores éticos e morais.

notas

Publicado
Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.