Análise: Mutant Year Zero: Road to Eden é uma excelente mistura de combate tático e stealth

Mutant Year Zero: Road to Eden é o mais novo jogo do pequeno estúdio sueco The Bearded Ladies Consulting. Com a proposta de trazer um combate tático com elementos RPG e stealth, o jogo se inspira nas mecânicas de combate de XCOM e tenta dar seu toque de originalidade a um gênero que cada vez mais ganha jogos independentes. Será que o título consegue se diferenciar frente aos seus concorrentes? Confira abaixo na nossa análise:

Robôs, mutantes, porcos que falam, humanos que controlam árvores, cenários cyberpunk pós apocalípticos, toda essa salada de alguma forma conseguiu se transformar em um jogo. O enredo de Mutant Year Zero: Road to Eden não é muito complexo. Após um apocalipse causado por doenças, aquecimento global e guerra nuclear, os poucos sobreviventes do último reduto humano na Terra, a Arca, precisam coletar suprimentos, armas, remédios e relíquias para se manterem vivos. Com recursos escassos e inimigos que vão de robôs a cachorros mutantes, os guerreiros do refúgio de sobreviventes devem andar pelo mundo devastado em busca de recursos.

Começamos a narrativa com dois desses guerreiros, Dux, um pato mutante com uma besta, e Bormin, um javali mutante com uma respeitosa escopeta. Após um ataque misterioso dos inimigos a Hammon, cientista chefe da Arca, os dois são designados para encontrar pistas e respostas sobre o que pode ter acontecido. Durante a história, Dux e Bormin encontrarão outros sobreviventes, estes que possuem suas próprias árvore de poderes.



A história, apesar de não ser muito profunda ou complexa, realmente prende o jogador. Os diálogos entre os personagens e as pequenas descobertas de artefatos pelas múltiplas áreas do mapa vão dando aquela vontade de saber mais e realmente entender o que aconteceu não só com Hammon, mas também como o mundo chegou a essa catástrofe. A equipe da The Bearded Ladies Consulting não poupou esforços para criar uma boa ambientação, que envolve bastante o jogador, e salpicou o mapa de críticas à sociedade atual que dão a entender que os rumos atuais da humanidade foram diretamente responsáveis pelo fim do mundo. Algumas são incrivelmente atuais, inclusive, como a referência às “Ilhas Brexit”, que teriam se isolado do resto do mundo com o intuito de se preservar das “pragas externas”.

Aliás, humor é algo que não falta em Mutant Year Zero: Road to Eden. Se todo o enredo  cyberpunk pós apocalíptico junto à trilha sonora tensa dá todo um clima tenso ao jogo, os diálogos e pequenas sátiras à sociedade atual através de cartas e artefatos espalhados pelo mapa nos faz dar breves risadas de alívio. A dublagem de todos os personagens, extremamente primorosa, contribui muito para a ambientação, tanto nos momentos tensos quanto de alívio cômico. E claro, não dá pra não comentar sobre os inimigos, que conversam entre si as maiores asneiras possíveis, servindo em muitos momentos também para satirizar a sociedade contemporânea.

Agora, nem só de história vive um jogo, certo? Então vamos ao que ao que viemos, gameplay. Como muitos dos nossos leitores sabem, um dos meus gêneros favoritos é o de combate tático por turnos. Assim que soube da existência de Mutant Year Zero: Road to Eden fiquei extremamente animado, afinal, o jogo parecia lindo pelos trailers e trazia um combate muito parecido com o de XCOM. Quando comecei a história, entretanto, entendi a originalidade do jogo e suas pequenas nuances. Cheguei de sapato alto achando que já estaria ambientado às mecânicas e, meu amigo, tomei um verdadeiro pau. Para começar, Mutant Year Zero: Road to Eden é um jogo muito difícil. Mesmo na dificuldade inicial e sendo um jogador experiente em combate tático, eu confesso que passei mal. Demora um pouco para percebermos a importância do stealth no jogo e, principalmente, a primordialidade de lootear todo e qualquer canto possível.

Diferentemente de jogos como XCOM, não somos jogados diretamente nas batalhas contra inimigos. É necessário percorrer cenários (lindos, diga-se por sinal) descobrindo as posições dos inimigos, sucatas úteis para melhorar equipamentos, e artefatos que podem ser usados para melhorar os atributos dos personagens. Em cada parte do mapa, é imprescindível não ser detectado pelos inimigos. Stealth é lei. Qualquer erro faz com que todos os inimigos de toda a área do cenário em que você se encontra saibam da sua presença e entrem em combate. Não é difícil saber que um combate de 20 inimigos contra 4 é praticamente impossível de ser vencido. Dessa forma, não preciso nem dizer que o jogo é extremamente punitivo. Basta um descuido para colocar todo o seu progresso em cheque. Felizmente, pode-se salvar a qualquer momento e eu recomendo que todos façam isso sempre.

O jogo tem uma cadência bem mais lenta do que estamos acostumados a ver no gênero de combate tático. Por termos que eliminar adversários aos poucos pelo cenário para evitar que o grupo inteiro de inimigos entre em combate, acaba que parte do sentimento que faz o gênero ser tão bom seja perdido. Quando nos deparamos com um inimigo isolado do grupo, não é necessário posicionar todos os personagens de modo a ter uma combate perfeito, basta colocá-los todos próximos ao inimigos para aumentar a chance de acerto para 100% e atirar com armas silenciosas antes antes que o resto dos adversários seja acionado. Claro que isso só funciona para inimigos completamente sozinhos, mas qual o sentido de termos que entrar em combate dessa forma? Tanto o stealth quanto a tática não são necessários nesses encontros.

O jogo brilha, entretanto, quando de fato precisamos entrar em combate contra múltiplos inimigos. A mecânica é praticamente a mesma de XCOM, com pontos de ação e ataques com percentuais de chance de acerto. Quanto mais longe e menos precisa a arma, menor a chance de acertar um disparo. Não há nada de inovador nessa parte da mecânica de Mutant Year Zero: Road to Eden, visto que esse esquema de combate é encontrado em praticamente todos os jogos do gênero. O grande atrativo do título fica não somente no stealth, mas nos diferentes combos que se pode fazer dependendo dos guerreiros que você escolher. O plantel de personagens não é lá tão grande, mas a variedade de ataques especiais e habilidades criam um leque de possibilidades bastante interessante, que faz o jogador pensar sempre na melhor forma de atacar os inimigos.

A IA dos adversários também não deixa a desejar. Aliás, vale salientar que o jogo não é difícil somente pela discrepância na quantidade de inimigos, mas também pela qualidade das ações deles. É imprescindível que o jogador fique ligado em todos os movimentos feitos pelo computador, não só pelos diferentes tipos de inimigos, que vão de cientistas que controlam mentes a robôs médicos, mas também porque a IA tenta nos flanquear a todo momento. Não houve uma situação sequer em que eu tenha me escondido em algum lugar durante o combate aguardando a chegada de algum inimigo para um tiro fácil e eu de fato tenha tido sucesso nesse plano. Mutant Year Zero: Road to Eden exige toda a experiência do jogador em jogos de combate tático e mais inteligência ainda para saber usar suas diferentes mecânicas de stealth e melhorias de habilidades de forma ideal.

Falando em habilidades, a árvore de melhorias dos personagens, apesar de pequena, oferece variedade o suficiente para mudar bastante a forma de se jogar com cada personagem. Pode-se optar por dar mais vida a um personagem, por exemplo, tornando-o uma espécie de tank ou dar asas para que se possa chegar a lugares antes impossíveis e atingir inimigos à distância. Tudo isso fica a critério do jogador.



Com relação às armas e seus upgrades, tudo pode ser feito na Arca por meio das diferentes lojas e vendedores presentes na mesma. Novamente, não há uma grande variedade de locais com diferentes loadouts, armamentos e melhorias diferentes, mas ainda assim, é possível de se criar combinações interessantes de armas primárias e secundárias para melhorar o seu combate. A grande dificuldade, entretanto, é ter sucata o suficiente para pagar por isso. A moeda pode ser encontrada espalhada pelos diferentes mapas do jogo e é essencial que não se perca uma sequer durante a exploração do cenário. Cada pequena quantidade de sucata é primordial na evolução do jogo. Sem esta, é impossível evoluir suas armas.

Finalmente, chegamos a mais um ponto forte de Mutant Year Zero: Road to Eden, seus gráficos. O título utiliza o famoso Unreal Engine 4, que dá muitas ferramentas e possibilidades para desenvolvedores criarem cenários estupendos. No caso de Mutant Year Zero: Road to Eden, não poderia ser diferente. A equipe do The Bearded Ladies Consulting soube fazer um bom trabalho, modelando belos personagens, criando uma iluminação excelente, e enchendo todo o cenário de detalhes, partículas, vegetação e tudo que se espera em um jogo do gênero da melhor forma possível. É extremamente agradável de se percorrer todos os cantos do jogo, mesmo com toda a tensão criada pela trilha sonora e pela ambientação do jogo. Nota 10 para os gráficos.

Conclusão

Por fim, pode-se dizer que Mutant Year Zero: Road to Eden é uma vitória para o pequeno estúdio sueco The Bearded Ladies Consulting. Mesmo tendo poucos funcionários, o time conseguiu criar um jogo de combate tático extremamente competente, que chega perto de obras AAA como XCOM. Apesar da pouca quantidade de melhorias dos personagens e das armas, e da pequena variedade de equipamentos que podem ser adquiridos na Arca, a sensação que temos é que há muitas possibilidades de combate em Mutant Year Zero: Road to Eden, o que traz diversão e desafio frente à IA eficiente. Jogadores não experientes no gênero de combate tático podem ter um pouco mais de dificuldade para compreender as nuances do jogo, e precisarão de um pouco de perseverança para ter sucesso no título. Em suma, Mutant Year Zero: Road to Eden é um grande jogo para amantes de estratégia e combate tático.

 

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Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.
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