Análise: Watch Dogs 2 faz você se sentir como um verdadeiro hacker!

Watch Dogs 2 nos apresenta ao DedSec. Um grupo de hackers, localizado em São Francisco, que tem a missão de derrubar a Blume e trazer justiça e segurança aos cidadãos de todo o mundo, cada vez mais reféns de grandes corporações que controlam, através das maravilhas da tecnologia, todas as nossas informações (ok, não nossas, da galera que mora no mundo o jogo e tal). E dentro desse grupo de benevolentes degenerados você controla ninguém mais, ninguém menos, do que Marcus Holloway, um novo integrante da DedSec que terá como missão ser o agente de campo principal da iniciativa na tentativa de desmantelar a dominação da grande e malvada Blume.

Mas além da história desse simpático e louco grupo de justiceiros do século XXI, Watch Dogs 2 tem algo único a oferecer em termos de gameplay, que nenhum outro jogo de mundo aberto já ofereceu antes. São Francisco que – segundo a galera que mora/conhece – foi belamente retratada no jogo, é um grande playground repleto de horas e mais horas de possibilidades de diversão hacker!

Em Watch Dogs 2, além da clássica fórmula roubar carros + navegar pela cidade livremente + causar o caos + visitar strip-clubs inventada e canonizada como o pilar dos gameplays em mundos abertos modernos pela série GTA, WD2 te oferece possibilidades nunca antes tão bem exploradas: controlar e manipular o mundo através da tecnologia, manipulando remotamente drones, empilhadeiras, portas de segurança, sinais de transito e invadindo as mais diversas propriedades privadas, como um verdadeiro deus dos tempos modernos. Apagar todas as luzes da cidade ao mesmo tempo, fazer todos os carros se descontrolarem loucamente e todos os celulares das pessoas em volta enlouquecerem ou sobreaquecerem enquanto você calmamente segue seu caminho e cumpre seus objetivos insanos é simplesmente a mais simples e pura diversão de alto nível.

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Em Watch Dogs 2 você não está sozinho!

Umas das melhores coisas de Watch Dogs 2 é justamente a DedSec, formada por: Marcus Holloway, o protagonista do jogo, um cara altamente bem-humorado e com um forte senso de justiça, responsável por quase todo o trabalho de campo do grupo, invadindo e hackeando os mais diversos lugares e indivíduos de São Francisco e agindo como o verdadeiro líder (mesmo que ele não goste de admitir) da DedSec. Wrench, um hacker mascarado e referência da engenharia eletrônica do grupo, muito louco, que faz piadas o tempo inteiro e tem uma moral um tanto quanto depravada; Sitara, a voz feminina do grupo, responsável por hackear não só as redes sociais do mundo de Watch Dogs 2 (e nossos corações) mas também por dar uma cara e popularidade aos feitos da DedSec; Horacio, um hacker multihabilidoso que acaba por ser o agente infiltrado do grupo, trabalhando na Nudle (a semelhança fonética com Google não é coincidência) e ajudando nas operações da equipe; e Josh, que segundo o jogo tem algum grau de autismo mas que é altamente funcional e inteligente, responsável pelo trabalho pesado quando o assunto são os códigos e a invasão de sistemas São Francisco a fora.

É esse grupo de personagens que realmente alavanca o jogo e envolve o jogador. As relações que se constroem entre eles dão o tom de leveza que é necessário para que o game flua bem, pois fazem um belo contraste com o clima sério que envolve a história do jogo. Essa luta contra a Blume e a dominação das informações privadas das pessoas, em uma tentativa de trazer justiça ao mundo moderno dominado pela CtOS, onde ninguém mais parece ser verdadeiramente dono de si é belamente balanceada pelas piadas e personalidade inusitada de Wrench, pelos desenhos e vídeos criados por Sitara, pela inabilidade social de Josh, pelo companheirismo de Horacio e pelo puro e simples carisma de Marcus, que se encaixa muito bem como o protagonista no meio de um grupo de hackers tão interessantes. É essa relação entre os membros da DedSec que faz com que o jogador sinta que faz parte dessa iniciativa e que te permite se conectar com os objetivos do grupo e isso é algo que merece ser destacado.

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Além disso, vale destacar dois outros companheiros inseparáveis de Marcus: Os drones, Jumper e Quadcoptero. Sim, parece engraçado classifica-los como companheiros mas acredite, você vai utiliza-los tanto que cedo eles vão parecer uma parte tão importante da DedSec quanto Josh ou Sitara. Com o Jumper será possível hackear diversos aparelhos a distância, facilitando a realização das missões de maneira sorrateira, alcançar lugares inalcançáveis e até brincar com seus inimigos, chamando sua atenção. Já o Quadcoptero lhe permitirá ter uma visão tática do ambiente em questão de segundos, hackear portas e outros aparelhos remotamente (sem interação física, diferente do jumper) e logo, logo se tornará indispensável para a realização de qualquer missão que requer planejamento tático ou até mesmo para as atividades mais fáceis, facilitando achar pontos de acesso aos prédios e construções.

Gameplay: São Francisco em suas mãos.

Mas o que seria de Watch Dogs 2 sem a cidade que lhe dá vida? Eu lhe respondo: nada. De nada adiantaria uma história que se conecta com nosso mundo atual, personagens engraçados e envolventes e um protagonista carismático, se São Francisco não fosse verdadeiramente o parque de diversões hacker que é. Afinal Watch Dogs 2 é um jogo de mundo aberto e quando se faz algo do tipo e não se dá ao jogador uma satisfatória quantidade de atividades que preencham esse mundo de sentido e missões a serem realizadas, isso sempre acaba por tornar o game maçante e desinteressante. Assassin’s Creed 1 e 3 nos lembram que a Ubisoft, apesar de entregar alguns dos jogos mais queridos da comunidade, também comete suas falhas quando o assunto são mundos abertos cheios de coisas inúteis e desinteressantes a serem realizadas, e que acabam por sugar a vida e a diversão da história do jogo.

Porém, felizmente Watch Dogs 2 é um grande exemplo do contrário! Ao navegar por São Francisco é possível ver a marca de cada belo jogo da Ubisoft até o momento. É nítido que os desenvolvedores e pessoas por trás da criação e execução dos games vêm escutando o feedback da comunidade e aprendendo com suas próprias criações anteriores e é possível ver isso acontecendo diante dos seus olhos se prestar bastante atenção. E em WD 2 acho que podemos dizer que a Ubi acertou em cheio na criação de um mundo contundente, vivo, altamente navegável e principalmente repleto de atividades interessantes a serem realizadas

E há de fato muito o que fazer em São Francisco! Tirando as missões principais – que vão lhe proporcionar facilmente algo em torno de 15 a 20 horas de jogo se feitas sem dar muita bola para as milhares de coisas opcionais que são oferecidas – há ainda uma enorme gama de possibilidades, que vão certamente se encaixar com aquilo que você procura no momento. Por exemplo, o desenvolvimento de Marcus se dá através de pontos de hacker que você ganha ao longo do jogo e há duas maneiras de conseguí-los: através das missões principais ou hackeando diversas localidades espalhadas pelo mundo inteiro.

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Não é estritamente necessário ganhar os pontos opcionais para desenvolver as habilidades de Marcus, mas os pequenos puzzles que foram montados para que você possa consegui-los são tão divertidos que acho difícil que alguém vá querer ignorá-los, sobretudo no início do jogo, onde sem as habilidades mais avançadas eles são desafios bem maiores. Há puzzles usando parkour e a navegação do ambiente, há aqueles que vão necessitar o uso dos drones (tanto um, quanto o outro ou as vezes ambos), aqueles que juntarão parkour com drones, os que precisarão de algum recurso externo como empilhadeiras, andaimes elétricos e até guindastes e os que vão pedir a resolução de um quebra-cabeça com as conexões elétricas espalhadas pelo local. A maioria desses desafios é bem planejada e desenhada e não se tornam chatos com a passagem do tempo, pois apresentam bastante variedade entre si, tanto em termos de mecânicas quanto de níveis de dificuldade. Estes mesmos puzzles servem também como uma maneira de ganhar dinheiro no jogo, pois assim como os objetos hackiaveis que dão pontos de habilidade existem malas repletas da boa e velha grana escondidas pelo mundo.

E falando em ganha-pão, outras atividades espalhadas por São Francisco te permitem ganhar seu rico dinheirinho. Coisas que variam de corridas de drone, passando por corridas de verdade e chegando até serviços de motorista por aplicativo (Sim, você pode dirigir um Uber em Watch Dogs 2) estão entre as várias atividades que se espalham pela cidade. E cuidado! Assim como aconteceu comigo, você pode acabar gostando tanto dos puzzles e dessas outras coisas que quando perceber seu personagem já estárá bombadão de habilidades e a história principal ainda estará apenas no começo (o que na verdade não é um problema, mas sim uma qualidade do jogo, não é mesmo?)

O multiplayer em Watch Dogs 2

Quando Watch Dogs 2 foi lançado havia um pequeno problema que estava impossibilitando a experiência online no jogo. WD 2 prometia oferecer um modo online sem necessidades de telas de carregamento ou pausas, em que jogadores envolvidos em atividades online se conectavam automaticamente com outros jogadores realizando missões online, mas isso acabou não ficando disponível de cara. Felizmente este pequeno problema já foi reparado e pude experimentar um pouco desse aspecto do jogo antes de escrever esta análise.

Há alguns tipos de missões que podem ser realizadas online. A invasão hacker te coloca no mundo de algum outro jogador, de uma hora para a outra, onde você tem que hackea-lo sem que ele o perceba. É claro que, quando você começa a fazê-lo, o outro jogador recebe um aviso e sai imediatamente à sua caça. Caso você seja encontrado e eliminado, missão perdida. Caso contrário, vitória. Outro tipo de atividade é a Caça à recompensa (Bouty Hunt). Nela você poder escolher ser caça ou caçador, lançando um aviso aos outros jogadores próximos (e à polícia do jogo) de que você quer ser caçado e tendo a missão de eliminar os caçadores e/ou escapar deles e da polícia; ou entrando no mundo de outros jogadores, quando escolher ser caçador, tentando eliminá-los. Este modo é o mais divertido e rende algumas boas batalhas quando as habilidades de hacker são de fato utilizadas pelos jogadores.

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Há ainda missões Co-op que podem ser realizadas. Basta acessar o aplicativo multiplayer ou ir até os ícones no próprio mapa e dar início às operações. Não tive a oportunidade de jogar com nenhum amigo mas consegui fazer algumas missões com outros jogadores desconhecidos e todo o processo, embora meio confuso quando não há chat habilitado, é divertido e vale a pena ser jogado.

Vale uma lembrança. Caso você seja daqueles que prefere apenas a experiência sigleplayer dos jogos não tema. Todos os recursos online do game podem ser desligados facilmente nos menus.

A história de Watch Dogs 2, uma faca de dois gumes.

A maior qualidade de Watch Dogs 2 é também seu maior problema, na minha humilde opinião. O que move a iniciativa DedSec é seu desejo de trazer justiça a população contra as grandes corporações que usam a tecnologia para ganhar acesso às informações pessoais de cada cidadão e manipular seus hábitos e suas decisões para garantir que seus interesses sejam concretizados. Segundo o próprio Marcus Holloway, o protagonista do game, a Blume, empresa que antagoniza o grupo durante o game, pisa nas pessoas para alcançar seus objetivos, vendendo suas informações e manipulando suas vontades por meio da rede CtOS, que cria uma rede interconectada de todas as tecnologias da cidade – através das smarthouses, celulares, redes de televisão até a própria internet – e que é vendida como o próximo passo em direção a evolução da vida moderna, mas que na verdade é a chave para que Dusan Nemec – chefão da Blume – e seus comparsas consigam cada vez mais poder e riquezas.

A história de Watch Dogs 2, portanto, está intimamente ligada aos problemas que o mundo vive hoje em dia. Com escândalos como Wikileaks e a sempre frequente acusação de que redes sociais como o Facebook vendem nossas informações para empresas interessadas em pagar bem para nos conhecer cada vez mais, o game se conecta com algo que é muito palpável para nós, jogadores. Afinal, quem aqui nunca pesquisou “jogos de ps4” no google e passou a se deparar com anúncios de Uncharted 4 e Bloodborne para todos os lados da internet e do seu celular, instantes depois? Logo, o que quero dizer é que a escolha de tirar o jogo de um contexto simples de vingança, que pautou a história do primeiro Watch Dogs, e trazer para a história um grupo como a DedSec, que se importa com os problemas que nos rodeiam e são ao mesmo tempo jovens, divertidos e inusitados, foi uma excelente escolha para o jogo, pois além de querer explorar cada centímetro de São Francisco o jogador inevitavelmente acaba tragado pelo conto dos vigilantes do século XXI que o Watch Dogs 2 conta.

Por que digo então que esse também é o maior pecado de Watch Dogs 2? Pois por vezes fica difícil aceitar que Marcus (um personagem que por sinal é um protagonista bem interessante e divertido) com seu senso de justiça tão forte em relação à população e principal opositor da grande e malvada Blume, que ele mesmo acusa de passar por cima das pessoas para conseguir seus objetivos, seja capaz de roubar carros, invadir contas bancárias, explodir pessoas e estabelecimentos, sem falar de matar qualquer um que apareça em seu caminho, para realizar dita justiça. Não me senti completamente à vontade no jogo para matar em nenhum momento, justamente porque passei a acreditar na causa que a DedSec promovia. Usei uma única arma durante meu gameplay, a arma não letal do jogo, uma arma de choque, apenas testando algumas das outras para efeitos dessa análise, mas nunca me sentindo verdadeiramente à vontade para utilizá-las. Me senti estranho nesses momentos, pois ao mesmo tempo que me divertia muito hackeando tudo que via pela frente, parecia meio incoerente que aquele mesmo personagem e seu grupo de companheiros passassem o jogo inteiro acusando e combatendo aquilo que eles mesmo produziam, em certa medida, São Francisco à fora.

É claro que, como um jogo, Watch Dogs 2 pode apresentar essas incoerências sem que isso seja assim tão grave e por isso mesmo digo aqui, agora, que ainda que tenha me incomodado com esse paradoxo do justiceiro que repete aquilo que combate, isso acaba não sendo um problema tão grave para o game. Desejei muitas vezes que houvessem mais opções não letais no jogo, como upgrades mais importantes para a arma de choque e/ou outras armas não letais criativas como rifles de longo alcance e fuzis de choque, bem como também uma opção de nocaute não letal dos inimigos, para suavizar essa que na minha cabeça é uma incompatibilidade. Portanto, saiba que se você fizer a opção – como eu fiz – de jogar o jogo fazendo as missões na encolha, hackeando, invadindo e fazendo o máximo de coisas sem ser percebido, saiba que as opções de combate não letal são um pouco limitadas, mesmo que isso acabe não atrapalhando tanto, pois o design dos ambientes é fantasticamente bem pensado para lhe dar a oportunidade de realizar as missões dessa maneira.

Em suma a história mais os personagens, no fim das contas, aliados a uma São Francisco muito bem pensada, desenhada e executada, tornam Watch Dogs 2 uma experiência bem interessante no mundo dos games e, portanto, recomendo muitíssimo o jogo para qualquer fã de mundos abertos interessantes e repletos de possibilidades e/ou jogadores que estejam interessadas na temática hacker versus corporações, tão ligada ao nosso mundo de verdade.

notas

 

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