Análise: Shadow Tactics se consagra como um dos melhores de 2016

Shadow Tactics pode ter sido um jogo que escapou completamente do radar da maioria de vocês por ser um título de pequeno porte produzido pela discreta Daedalic Entertainment e a desconhecida (e detentora do melhor nome de empresa do ano) Mimimi Productions. Trata-se de um jogo de estratégia tático com visão isométrica no qual controlamos um grupo de habilidosos guerreiros do japão feudal em missões furtivas intrincadas e desafiadoras. Como nos saudosos Commandos, de 1998, e Desperados: Wanted Dead or Alive, de 2001, as missões devem ser completadas na surdina.

O principal elemento do jogo, a furtividade, é o ponto alto. Poucos títulos conseguem trazer esta proposta de forma tão bem feita quanto Shadow Tactics. Como é um game de furtividade estratégica, com visão superior, elementos clássicos retornam, como o cone de visão dos inimigos, por exemplo, já que não podemos enxergar completamente suas reações como em um jogo em primeira pessoa. Tendo também fases longas, a necessidade de saves constantes se torna parte da jogabilidade, pois é justamente através das inúmeras maneiras criativas de se passar por cada ponto que o título mostra sua verdadeira elegância.

shadow tactics blades of the shogun

Contamos com vários personagens controláveis, de um leque bastante variado de estilos que inclui ninjas, samurais, kunoichis e franco-atiradores. Cada um deles possui habilidades únicas. Alguns podem acabar com mais de um inimigo em um único turno, outros podem subir em telhados e ter vantagem da altura (It is over Anakin! I have the high ground*), por exemplo. Com uma progressão de apresentação de habilidades e jogabilidade digna de um bom design de jogo, você rapidamente aprende que a sua criatividade depende apenas da combinação ideal de habilidades e fatores. Outro ponto bastante positivo do gameplay é a inteligência artificial que é bem feita e se comporta de forma coerente.

A escolha do Japão feudal logo me fisgou, imaginei um Desperados naquela ambientação e a minha imaginação logo me transportou para dentro do jogo. Com certeza meu devaneio não foi em vão, pois foi justamente o fato de ser no Japão de outrora que conseguimos ter um ambiente único, muito bonito e com possibilidades infinitas, graças também aos personagens típicos da época. E, sendo um jogo de 2016, as capacidades do sistema quanto ao terreno são desafioadoras, como a neve que deixa pegadas e podem entregar sua posição, por exemplo.

Nessa mesma pegada história, temos os próprios personagens que são por si só muito bem desenvolvidos. Se ficarmos atentos aos diálogos, vemos conversas bem interessantes entre os membros do grupo onde eles contam o passado, suas motivações, seus sentimentos etc. Por outro lado, o enredo como um todo não é nada muito grandioso e nem de tirar o fôlego, mas cumpre a missão de apresentar as bases para um jogo divertido seguir adiante através de todos aqueles valores que estamos acostumados em histórias do oriente como honra, dever, traição e redenção.

shadow tactics blades of the shogun

A mecânica da câmera em uma visão isométrica é um tanto atrapalhada, já que não tem nenhum sistema para alguns prédios altos ficarem translúcidos quando você está do outro lado dele, o que torna a experiência um pouco frustrante às vezes com cliques errados e tentativas estratégicas indo pelo ralo, apenas por problema técnico, entretanto, isso não impacta completamente a jogabilidade do jogo de forma a torná-la problemática.

Shadow Tactics eleva o gênero com as particularidades do Japão histórico, oferecendo uma jogabilidade refinada, personagens interessantes e uma trama suficiente. Furtividade é a palavra chave e é trazida de forma primorosa. A Mimimi conseguiu trazer um belo jogo, com relativamente pouco orçamento, e que figura entre os editores daqui da redação entre os melhores do ano. Uma excelente surpresa através de um gênero que há tempos não víamos emplacar algo válido, e se consagra como um dos melhores do tipo.

*citação de Obi-Wan Kenobi em Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith

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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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