Análise: Darksiders 3 é um mau remendo de ideias de outras séries

Você é Fury, uma integrante dos cavaleiros do apocalipse, destinada a matar 7 entidades desse mundo de demônios e anjos. A ambientação na animação introdutória não fala muito mais do que isso, dá apenas um breve resumo das batalhas que tomam os céus (e o inferno). Deixa muito a desejar e é recheada de frases de feito curtas e bobas demais. Tudo bem, a ideia do jogo não é bem a trama e sim a jogabilidade e os personagens, correto? Não exatamente.

O jogo já começa errando justamente na jogabilidade. Armada por um chicote com lâminas, Fury embarca em sua missão seguindo basicamente a mecânica da série Dark Souls, mas mal feita. Temos a “moeda” que se ganha matando inimigos, checkpoints para evoluir o personagem e salvar o progresso do jogo e uma certa evolução. Tudo no mesmo esquema de morreu, perdeu tudo. A diferença maior é que conforme você mata monstros você enche uma barra que ativa a possibilidade de usar seu Nephilim’s Respite para recuperar vida.

A questão é que tudo isso não funciona muito bem em Darksiders 3. Parece que o combate faltou capricho ou foi entregado antes da hora. As mecânicas são bem duras, os movimentos são estáticos demais, os pulos são feios e pouco dinâmicos e as hitboxes (pontos nos bonecos onde você causa ou sofre dano) parecem estranhos, muito estranhos. Cuidado ao ser encurralado contra objetos do mapa, você pode ficar presos em ataques simples do inimigos sem conseguir se mexer e só lhe resta esperar a morte. Nesses casos monstros básicos e rápidos são mortais, enquanto que titãs fortes e lentos deixam brecha para você escapar (clara falta de acabamento).

Com o tempo você adquire novos poderes e o jogo vai ficando muito mais fácil. Alguns inimigos passam a ser só um leve incômodo no caminho, portanto é importante que você consiga o máximo possível de experiência e evoluir de forma inteligente sua personagem. Existe a possibilidade de investir em habilidades passivas ou em combos para causar ainda mais dano. Apesar do jogo oferecer uma gama de combinações neste ponto, o combate desbalanceado acaba tornando mais útil mesmo o famoso esquiva + contra-ataque.

A ambientação é interessante, talvez o que eu mais gostei do jogo apesar da abertura inicial extremamente fraca e com aspectos infantis demais. O mundo do jogo é a terra em uma espécia de pós-apocalíptico bíblico. Na crosta terrestre o mundo foi destroçado por um cataclismo em nível global, raízes e galhos de árvores gigantes perpassam prédios, ruas e viadutos até os céus. Pelas ruas, anjos e demônios travam batalhas infinitas e abaixo delas temos caminhos por cavernas e masmorras recheadas de lavas. É claramente o fim da humanidade numa batalha entre céu e inferno.

Com isso, temos alguns personagens legais, mas que pouco se desenvolvem, infelizmente. A estética deles é bem legal e a escolha por um visual mais colorido e um pouco cartunesco do jogo dá vida a esse mundo bagunçado e esses personagens muita vezes caricaturados (não é bem uma crítica). Os diálogos deixam a desejar, mas uma piada aqui e ali geram empatia e característica aos personagens do jogo, gostei desse ponto. Os chefes que temos que derrotar, que seguem os nomes dos sete pecados capitais, são o maior exemplo de pouco desenvolvimento de personagens. A luta contra a Gula ou contra a Inveja lembram em quase nada gula ou inveja. Dante’s Inferno (jogo de 2010) é melhor nesse sentido de tratar dos sete pecados capitias do que Darksiders 3.

Assista o início de Darksiders 3:

Por fim, o jogo é basicamente a mesma receita dos jogos hack and slash daquela época de 2010 com pouco aproveitamento da geração atual. Não é de todo ruim, mas nem de longe bom. O jogo é acessível haja vista que apesar de seguir a receita Souls é um jogo muito mais fácil. Pode trazer uma sensação de poder aos menos habilidosos, mas os gamers mais experientes sentirão tédio. A história não empolga apesar de melhorar conforme os personagens novos aparecerem depois da primeira hora sofrível. A ambientação ajuda a seguir em frente, mas vez ou outra te confunde por ser tudo muito igual, falta a sensação de estar andando adiante. Darksiders 3 é uma experiência nostálgica, tanto que parece um jogo parado no tempo, de anos atrás.

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Ricardo Carvalho

Ricardo Carvalho é escritor, desenhista, filósofo de sofá, cineasta frustrado e ativista pela aceitação mundial de que videogame é arte. Redes: twitter.com/perfilricardoc, instagram.com/perfilricardoc.
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