Análise: The Division 2 é o que o 1 deveria ter sido

Esta é uma análise sem spoilers!

The Division divide opiniões. Existem aqueles frustrados com o magnífico trailer de revelação na E3 de 2013, frente ao gigantesco downgrade dos gráficos e de conteúdo da versão final, existem ainda os fãs do primeiro jogo, que incansavelmente o defendem e existem todos os outros. Existe também aquele que vos escreve e já iniciará esta análise com uma frase que resume tudo que vem abaixo: The Division 2 é o que deveria ter sido entregue aos jogadores lá no passado, no lugar do primeiro jogo e sem atrasos em seu lançamento.

Vale o relato, depois de perder horas em Anthem, onde eu estava completamente hypado, foi muito satisfatório jogar The Division 2, um jogo que eu esperava pouco e que entrega uma satisfação grande e recompensadora. Chega de enrolação, está na hora da análise!

 Trocadilho com “está na hora da análise”

Gráficos, ambientação, cutscenes e localização em PT-BR

Parece que os jogos estão realmente focados em trazer uma ambientação fidedigna aos locais em que eles querem representar. Lembram da maravilhosa New York em Spider Man de Playstation 4? Aqui a Ubisoft também caprichou, trazendo uma experiência muito imersiva e real (na medida do possível pois é um cenário pós-apocalíptico) da capital dos Estados Unidos, Washington DC. As vezes, principalmente para quem nunca esteve na cidade de Washington (como eu), da vontade de ficar explorando o cenário para ter a experiência do lugar. E claro, é bem legal ter uma base de operações montada em plena Casa Branca, local onde você vai e volta o tempo todo durante o jogo. Soma-se isso ao excelente gráfico de The Division 2 e temos uma capital americana na tela do nosso PC/console para aproveitarmos.

Falando em gráfico, ele é muito, muito bonito. E mais importante do que ser bonito, o jogo (pelo menos na versão para PC que recebemos) está muito bem polido. Você não precisa ter um PC master-race para ter belos gráficos, mas caso o tenha, conseguirá jogar em 2K ou 4K sem quedas de quadros por segundo ou travamentos. O trabalho do time de desenvolvimento aqui merece destaque. Algo que deveria ser obrigação das empresas, lançar um jogo polido para uma boa experiência de seus jogadores, está cada vez mais difícil. Obrigado, Ubisoft. A experiência no PC está excelente! E basta seguir os requisitos (que por sinal foram divulgados bem diferente da forma tradicional, colocando uma configuração meio que completa para cada qualidade) que você realmente vai colher os resultados esperados.

Como já é de costume, a produtora francesa entrega para nós brasileiros um jogo completamente localizado em português do Brasil. Menus, legendas, falas, tudo aqui está em nossa língua nativa! As falas não são dignas de Oscar, já vi dublagens melhores e mais empolgantes, mas está bem acima da média. Inclusive, aqui não se poupam palavrões! Eu até colocaria uma lista aqui de todos que eu já ouvi dentro do jogo, mas ai perdemos o famoso family friendly, não é mesmo?

Acompanhando a localização em PT-BR, claro, temos custscenes também localizadas. E são boas cutscenes, lembram um pouco a forma como são feitas com as da série Far Cry. Os personagens tem seu carisma, você se envolve com a história do jogo através delas.

História e enredo

A sequência The Division acontece meses após o final da história do primeiro jogo. Aquele clima de caos, fim de mundo apocalíptico e confusão ainda estão presentes, amplificados, mostrando o que restou dos Estados Unidos pós acontecimentos no primeiro jogo, com foco, é claro, na capital. A nossa tarefa aqui, como personagem principal, é ajudar um grupo organizado de civis à restabelecer a ordem, restaurar a justiça e os alicerces normais de uma sociedade saudável.

O conteúdo a nível de história aqui é bem maior que no jogo anterior. Muitas mecânicas foram acrescentadas, trazendo por exemplo, inúmeras missões secundárias que apitam na sua tela e no seu mapa o tempo todo. Conforme vai avançando nas missões e melhorando projetos disponíveis você sente que está deixando seu grupo cada vez mais poderoso e capaz de retomar o controle da cidade. Ou seja, não é algo massante que você não vê resultado. É recompensador você concluir as missões e aprimorar sua base de operações. Da vontade de perder mais algumas horas fazendo, por exemplo, missões secundárias, diferente de diversos outros jogos onde você ignora completamente elas e foca somente nas principais. Mas, a diferença entre as principais e as secundárias ainda são grandes, sendo as missões principais realmente eventos, algo impactante para a progressão da história.

Mecânicas de jogo e gameplay

RPG. Sim, RPG. The Divsion 2 mergulha de vez no estilo de jogo. Podemos dizer que aqui temos um RPG, com tiro em terceira pessoa e estratégia. E essa mistura, por mais que as vezes tire um pouco a realidade de alguns eventos, está muito bem sincronizada.

Para progredir, evoluir e ter excelentes equipamentos, você vai perder tempo como qualquer jogo com influência RPG. Você terá que fazer upgrades em uma enorme árvore de habilidades e acessórios. E sim, vale a pena. Certas habilidades são fundamentais para te ajudar nas missões. Elas não são perfumarias legais de se ver na tela, elas realmente te ajudam no jogo, sendo as vezes mais útil que um amigo noob.

Além das habilidades e apetrechos, agora você conta com uma vasta ajuda do próprio mapa e de rebeldes que podem ser acionados para te ajudar. Sempre que você vai combater inimigos em ambientes fechados, prédios abandonados e bunkers, existem diversos objetos no mapa que podem te auxiliar ferindo os inimigos com danos que atingem uma certa região, mais ou menos como funciona a granada. Galões de combustíveis, extintores de incêndio, pacotes e baús de munição, algum disjuntor ou algo elétrico que possa dar curto, são vários os objetos espalhados pelo mapa que podem te ajudar dando um dano extra no inimigo. E não somente o mapa, os próprios inimigos, alguns deles, possuem itens explosivos em seu corpo, como munições extras ou uma mochila com algo misterioso. Explore ao máximo esses pontos fracos, eles podem te ajudar a derrubar um inimigo com muita vida usando muito menos munição.

Rebeldes podem juntar-se a sua causa também, trocando tiros, suprimindo um inimigo em combate e até mesmo matando seus adversários. Funciona semelhante ao Far Cry, onde você vai recrutando pessoas e usando conforme necessário. Nos meus testes eles não chegam em locais fechados, depois de você começar uma incursão no meio de um prédio por exemplo. Agora no meio da rua basta chamar que eles aparecem. Não são úteis como seus apetrechos, mas ajudam principalmente suprimindo os inimigos.

Craftar também é importante, para criação de equipamentos, armas e mods (que são diversos, como drones, mini torretas, escudos a lá Rainbow Six e muito mais). Para isso você precisará de materiais que você vai pegar ao longo da jornada e desmontando equipamentos que você considera inúteis ou fracos.

Ajude os NPCs que cuidam dos projetos. Como dito anteriormente, você sente importância em concluir estes projetos e melhorar sua operação como um todo. Persiga inimigos que possuem um bounty pela cabeça deles. Ajude no controle das ruas, deixando seu grupo mais forte e com as defesas suficientes para aguentar o tranco das milícias do mal.

E fica o recado: se você não curte um jogo somente co-op online, não gosta de interagir com desconhecidos, você pode perfeitamente jogar este jogo! Ele foi pensando para ser perfeitamente jogável, do começo ao fim, sozinho. Não é mandatório ter sempre alguém com você para concluir as missões. Mais uma vez, boa Ubisoft!

E fica o recado, não adianta sair correndo, atirando, carregando e repetindo o processo! Uma hora a dificuldade do jogo vai esmagar você. Use a abuse do que o jogo tem de mais lega, que são as coberturas, o modo de interação com o mapa. Use a inteligência, seus apetrechos, coordene os ataques com seu esquadrão. O jogo potencializa a diversão quando você joga de forma inteligente e organizada! E também, com a inteligência artificial dos inimigos bem melhorada frente ao primeiro jogo, você vai precisar se esconder e usar kits médicos, ou vai acabar falecendo.

Sobre o matchmaking, modos online e afins, não tive problemas em nos conectar a partidas, quando quisemos. Optei por seguir meu jogo de forma mais solitária, o que aumenta um pouco a dificuldade de não ter alguém atirando com você, mas quando precisei testar os servidores responderam prontamente, demorando no máximo 3 minutinhos para achar um esquadrão dependendo da missão.

PvP

Calma. Antes de começar a pensar em criar uma carreira no PvP, você precisará avançar em certas histórias e objetivos para liberar as Zonas Cegas. São 3 zonas, espalhadas pelo mapa e para liberá-las você precisa concluir missões principais e alguns contratos de melhoria de sua colônia. Faça isso até liberar a NPC Senait Ezera. Ela também será responsável por tratar o seu loot contaminado que você irá obter na Zona Cega, explico isso mais abaixo. Ah, a primeira vez que você libera a Zona, é preciso fazer um reconhecimento do local, ou seja, uma limpa total em todos os inimigos. Um desses inimigos sempre terá um potencial loot interessante, os com vida na cor amarela. Falo mais abaixo também sobre isso.

Com o lançamento do jogo, temos dois modos: Skirmish e Domination (Mata Mata, em equipe, e Dominação). No modo Mata Mata, partidas terão uma contagem e, assim que esta contagem chegar a zero, temos o vencedor. Os pontos são os “renascimentos” de cada jogador em cada time. O time que usar menos, vence. Já o Domination é a captura de pontos. São 3 pontos pelo mapa e os times devem brigar por eles. Dominar mais pontos te faz pontuar mais, sendo o vencedor o time que chegar os 750 pontos primeiro.

Independente dos modos, você deve abstrair de todos os PvPs que já jogou envolvendo FPS ou TPS. Aqui o uso de táticas, trabalho em equipe e o uso (e abuso) de proteção com elementos do mapa, vão ser o diferencial entre você perder ou ganhar. Os times são pequenos (4 jogadores para cada lado), então um membro do time que queira fazer tudo sozinho, rushando e ignorando o trabalho em equipe, afundará todos os outros. Seus equipamentos do modo história são seus equipamentos no multiplayer. Você pode trocá-los assim como no modo história, bastar abrir o menu e fazer as trocas necessárias.

Em certos momentos este PvP me lembrou o PvP praticado no Uncharted 4 (PS4). A diferença entre eles, é claro, são os equipamentos, armamentos, movimentação e a forma como você deve ser proteger e traçar uma estratégia. Lembro que no Uncharted se proteger em paredes e muros era essencial, mas aqui é vital.

Todo cuidado é pouco (ou não, depende do seu gosto) com o seu comportamento nas Dark Zones. Eles podem te rotular e fazer você ser caçado por outros jogadores. São 3 níveis de status. Mas, é claro, temos vantagens para jogadores malvados. Um NPC é liberado para quem alcança estes status, o Thieves Den, sendo ele um fornecedor exclusivo para os jogadores com status de Rogue, Disavowed e Manhunt.

Além do PvP, nas Zonas Cegas existem diversos desafios no formato PvE, que também podem te render excelentes loots. Procure sempre pelo inimigo mais forte, aqueles com vida amarela, que costumam liderar uma onda de inimigos mais para o final de cada missão. Eles lhe darão chaves necessárias para abrir certos loots.

Nas Zonas Cegas, você vai encontrar os melhores loots possíveis para seu personagem. E este loot também é utilizável para sua campanha, ou seja, você pode jogar à vontade o PvP e aproveitar o bom loot para avançar nas missões principais do modo história. Fique atento, existem loots contaminados, que trazem equipamentos melhores, mas você precisa “limpá-los” antes de abrir. Basta levar o loot até a Senait Ezera, aquela que te ajuda a liberar as Zonas Cegas. Ela será responsável por tratar e te devolver o equipamento pronto para uso.

Importante: pude jogar apenas duas partidas. O tempo de espera, quando o jogo não inicia de imediato, é gigantesco, g i g a n t e s c o. Cheguei a esperar ininterruptamente por 47 minutos para poder jogar uma partida. Tentei uma terceira partida mas a espera já passava, outra vez, dos 30 minutos. Não sei se faltam jogadores suficientes, ou se os mesmos não chegaram a liberar as Zonas Cegas ou se eles tem interesse no PvP. Mas acho que as 3 opções não seriam justificáveis para não se acharem 8 pessoas para jogarem juntas, ainda mais com a Ubisoft tendo alegado que estaria usando servidores brasileiros.

Se o problema for pontual na minha máquina de testes, ou for corrigido, atualizaremos esta análise de imediato.

O que não tá legal?

Eu sei que o jogo parte do princípio de tirar vida de inimigos a lá RPG. Mas é frustrante e esquisito você acertar o inimigo com um belo headshot, com uma arma super poderosa, e ainda sobrar 3/5 de vida do indivíduo. Já que foi ambientado num jogo de ação e tiro, estes elementos poderiam ser mais próximos à realidade. Não vai desfigurar o jogo se tiros na cabeça matarem de primeira, com um tiro.

A interface do usuário ainda é extremamente poluída e pouco intuitiva, necessitando vários clicks para fazer tudo. Não bastasse os comandos (pelo menos no PC) serem bem diferentes do padrão seguido pelas produtoras, ao você abrir seu painel, onde se encontram habilidades, evoluções, equipamentos e armamentos, fica tudo bagunçado e muito junto. Tudo necessita de mais de um click, de pressionar botões por vários segundos (é cansativo desmontar diversas armas, perde-se muito tempo). Já que é mais difícil mexer na interface, não custa deixar tudo prático com um simples click ou apertar de barra de espaço. Não tirem nosso tempo de jogo, de ação, mexendo em menus. Chega a ser difícil de ler de tanto quadrado e coisa escrita. Interface do usuário, nota, 0!

Mesmo sendo um jogão, é inevitável a sensação que The Division 2 é um DLC do 1. O jogo é extremamente parecido, em suas mecânicas, enredo e etc. Melhor que DLC, parece um super patch que resolveu diversos problemas da geração anterior da franquia. Mudanças mais drásticas poderiam ter sido feitas na temática, na história, nos menus e na forma como se joga. A sensação é diferente, por exemplo, da série Far Cry, que a cada lançamento você sente que comprou realmente outro jogo. Parece mais um Destiny, uma DLC ou um grande update. Na terceira versão do jogo, se tiver, ouse mais Ubisoft. A mecânica do jogo está muito boa e sólida, arrisque-se mais no resto.

Um bug muito chato vem acontecendo com usuários de headphone e headsets da Logitech. O som simplesmente não sai pelo fone, independente de quantas vezes você escolha o periférico. Felizmente, existe uma forma muito simples de resolver o problema, mas que tive que quebrar a cabeça para descobrir. Abra seu gerenciador de tarefas (pela barra de tarefas do Windows 10 ou através do famoso CTRL+ALT+DELETE) e finalize a tarefa ‘Logitech Surround Sound Service’. Assim que você matar este processo o som irá funcionar perfeitamente. Sim, você vai ter que fazer isso sempre que reiniciar ou ligar o computador. Não sei de quem é a culpa, Logitech ou Ubisoft, mas por favor, consertem logo!

Endgame

Resumidamente, para chegar à última incursão, você deve chegar ao nível 30 e a mesma será liberada. A partir daí, a fação Black Tusk toma conta de tudo. Parece que o tempo todo, tudo que você fazia era manipulado por essa maligna organização criminosa. Eles são extremamente fortes, bem equipados, cheios de bugigangas tecnológicas. Claro que as missões que seguem são reaproveitadas de missões e localidades já existentes antes do endgame, mas mesmo assim, a aparição desta nova facção, traz um aumento significando na dificuldade e algumas modificações nas áreas que eles tomam controle. O caos também toma conta das ruas, tendo intensos tiroteios em diversos lugares pelos quais você passa. Três estilos novos são liberados para você assumir a partir daí, e dependendo do que você escolhe, uma super arma é dada de presente, uma espécie de quarta arma.

Conclusão

O acerto da Ubisoft dessa vez é nítido. As críticas e reclamações em relação a primeira versão do jogo surtiram efeito. O que temos agora é um jogo extremamente bem otimizado para PC, com belíssimos gráficos (sem downgrades), uma ambientação realista e imersiva da cidade de Washington DC, combates que tem envolvem, com dificuldade, inimigos com boa inteligência artificial (muito acima da primeira geração e da inteligência artificial aplicada no beta de The Division 2), elementos de RPG muito bem aplicados e diversos outros aspectos positivos citados anteriormente.

Todos os pontos que não estão legais, não conseguem manchar o excelente trabalho feito neste título. São pequenas coisas, algumas que incomodam bastante, mas que não tiram a diversão proporcionada pelo jogo. Infelizmente gostaríamos de ter visto todo este trabalho sendo aplicado no The Division 1, mas fico feliz de ter presenciado o real potencial de The Division explorado e aplicado nesta segunda geração. Chegou atrasado, mas chegou para marcar!

notas

 

Pedro Nogueira

Formado em Administração e em GunZ: The Duel. Nogueira une estas duas formações para administrar de forma única suas skills em jogos de tiro, adquiridas em anos jogados fora jogando The Duel. Além da supremacia em jogos de tiro, Nogueira é fã de jogos com história bem trabalhada e tem no sangue as habilidades de Dominic Toretto para jogos de corrida.
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