Análise A Plague Tale: Innocence – você é apreciador de obras de arte?

Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepçãoemoções ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra ou trabalho de arte possui um significado único e diferente. Existem várias manifestações de arte em todos os tipos de obras e entretenimento, o que logicamente pode ser expressada também em jogos eletrônicos. Agora a definição de obra-prima: a mais linda obra de um artista, de um escritor, de uma época; obra-mestra. Obra de grande perfeição, notável em determinado gênero. Obra de arte finalizada, terminada: sua pintura está uma obra-prima.

Como quase toda arte cai bem uma entrada dramática, e essa entrada é para analisarmos o jogo. Mas espere, não colocarei o jogo como uma obra prima em todo seu contexto, se não nem haveria necessidade de analisá-lo, é preciso e sugiro separarmos algumas definições em nossa leitura artística de hoje: ambientação, história, gráficos, personagens e imersão, onde sim é uma obra prima, e jogabilidade, desafio, gameplay, onde é muito bom mas escorrega. Bom vamos entender tudo isso em nossa análise de A Plague Tale: Innocence.

A Obra

Antes de mais nada já vale começar dizendo que o jogo apresenta um menu inicial interessante, com algumas opções que eu pelo menos vi pela primeira vez, tendo em vista que meu foco não é tanto jogos de narrativa (apesar que fica difícil rotular esse jogo, está em um limiar de aventura, ação e narrativa) em um outro título. Em Hellblade: Senua’s Sacrifice, nos foi apresentado uma tela limpa, sem nenhuma informação, trazendo uma completa sensação de imersão ao game. Funcionou muito bem. Alguns tiveram dificuldades, então porque não dar esse opção ao jogador? Com informação ou sem informação? É exatamente isso que acontece, você pode escolher tela limpa para um jogo mais imersivo, ou a tela com as demais informações, como munição, energia, etc., e isso pode ser mudado durante qualquer momento no jogo. Dica: jogue com a tela limpa, pois a imersão é uma das obras primas que citarei abaixo.

Primeira obra-prima: Cenário.

O cenário apresentado no jogo é maravilhoso, a perspectiva do personagem em relação a escala de cada construção, pontes, natureza, objetos é perfeita. Ponto. Você faz um tour de graça pela França do século XIV (bom de graça não porque tem que comprar o jogo), a sensação de realmente estar nas vielas e cidades da época é unica, e nunca vi algo com tamanha perfeição, a cada captura de imagem uma pintura, uma verdadeira arte na transformação de um cenário em algo tão real e bonito. Ao final do review colocarei uma vasta galeria de capturas (tentarei não dar spoiler), mas vale a pena conferir.

Segunda obra-prima: Imersão.

O jogo te envolve por completo. A introdução é linda, os personagens se conectam de forma perfeita, e te surpreende. Precisarei ter muito cuidado ao falar, pois se tratando de um jogo em que seu ponto máximo é justamente a história, qualquer escorregão pode se tronar um spoiler, e não quero atrapalhar a experiência de ninguém. Mas em termos de personagens e interação, não fica na repetição, entram e saem pessoas da história o tempo todo, criando vínculos de afeto com o jogador, numa mistura de carinho, raiva, todos os sentimentos. Não há como não se sentir dentro do jogo e envolvido até o último fio de cabelo com cada acontecimento.

Terceira obra-prima: História.

Uma ideia bem diferente e inovadora, em uma época totalmente plausível de explorar tamanha imaginação. Você é Amícia, filha de um Lord Francês Conde de  Rune, um nobre cavalheiro que lutou ao lado do Rei Philip em inúmeras batalhas. Você tem um pequeno irmão Hugo que é frequentemente enclausurado para tratamento de uma doença rara com sua mãe, o que no caso faz Amícia não ter tanto contato dela com o irmão, fazendo a história focar bastante nessa “nova” relação entre os dois. Aí começa a aventura, uma praga se espalha, e como é visto nos trailers, envolve ratos. Mas não fica por aí, há inúmeras reviravoltas durante o desenrolar da história, o que eu adoraria dizer, mas realmente não posso e não devo, repito, para não prejudicar a experiência de ninguém. Mas vão na fé, a história também beira a perfeição.

Quarta obra-prima: Personagens

Já descritos acima, a cada dia que passa há um cuidado em dar força a personagens femininos. Não há a menor tentativa de exploração da beleza de Amícia, que sim é bela mas condiz com a fisionomia fancesa da época, que apesar ds alguns historiadores e renomados escritores como Bernard Cornwell (Crônicas Saxônicas, O Arqueio entre outros), descrevem mesmo os filhos e filhas de lordes como bem “defeituosos” esteticamente, com dentes tortos, sujos, pele e corpos mal tratados. Cito isso pois o nível de ambientação e caracterização são tão elevados que o jogador/leitor mais exigente pode perceber, o que seria um completo elogio pois estamos falando de um jogo de video game que atingiu esse patamar. Amícia é fantástica, uma pré-adolescente, onde naquela época tem que demonstrar muita força para conduzir o irmão que ainda é criança. E a grande maioria dos personagens envolvidos tem a mesma idade, há um laço muito forte de família , de amor entre irmãos, de mãe e filho. O jogo emociona por diversas vezes, e cada personagem envolvido na história tem sua contribuição, tudo cuidadosamente ligado, não há sequer um momento do jogo que você pensa “porque desse cara”. É de extrema facilidade reconhecer o papel de cada um na história, e todos muito bem desenvolvidos e muito legais, e digo, o grupo é grande, amarrar isso tudo dentro de um contexto é sim uma obra prima.

O Jogo e seus escorregões

Não estava nos planos mencionar isso, mas é oportuno e fica a homenagem do Última Ficha ao falecimento de um dos maiores humoristas brasileiros nesse último sábado, Lúcio Mauro. Lembram quando o Professor Raimundo o indagava em um de seus brilhantes personagens Aldemar Vigário, e ele perto de levar um 10 sempre exagerava no final? Então homenageamos dessa forma: A Plague Tale, pra levar um 10, como é a jogabilidade e a mecânica do jogo? É, escorregou.

Há pontos positivos é claro, mas que passam longe das obras primas citadas assim como há pontos negativos que também passam longe de um completo desastre. A começar pela dificuldade do jogo. Muito fácil, muito mesmo. Há quem questione que se é um jogo de narrativa não deveria ser realmente difícil, é um passeio na história. Mas não há equilíbrio. Tem momentos que é fácil demais, e o jogo não te pune em nada. Isso mesmo, zero punição. Você morre (ou suicida se já tiver feito algo errado, porque não faz diferença) e volta de onde morreu e tenta de novo. Não há como ficar preso. Precisava de alguma punição pela morte em excesso. Poderia ter sido também trazido a métrica do já citado Hellblade, onde se você morresse demais era “game over”, teria que começar tudo de novo. E a falta de equilíbrio é que no último capítulo, isso se inverte e fica muito difícil, apesar do jogo te preparar e dar as ferramentas para enfrentar todos os desafios muito bem. Uma observação, a dublagem é muito boa, e fica bem legal jogar o jogo na língua original dos personagens (francês), a imersão aumenta consideravelmente. Uma pena eu não falar francês, e ficava na dúvida se lia as legendas ou apreciava o cenário.

Outro ponto negativo é que é um jogo de furtividade, mas são raríssimas as vezes que você é visto e consegue se esconder de novo. E como uma coisa leva a outra, quando eu era visto, me suicidava, porque não fazia diferença mesmo, era só tentar mais uma vez.

Contudo a mecânica tem seus altos e baixos, o leque de opções de passar pelos ratos e soldados é bem variado e divertido até determinado ponto. Ele te dá várias opções, pode passar desapercebido, matar soldados, desviar de ratos, ou mesmo matá-los também. Mas em certos momentos, apesar de você evoluir seus equipamentos, ganhar novas habilidades, coletar itens que fazem todo sentido, fica chato. Repetitivo. Mas deixando claro, nada que tire o brilho da história, só aquele momento mesmo que você acaba dizendo “ai que preguiça, isso de novo!”.  Muito disso no final do jogo, onde é impulsionado pela hype de ver logo como a história maravilhosa acaba. Vale falar mais uma vez que o jogo se esforça muito para que isso não aconteça. A gama de opções de como prosseguir em cada quebra-cabeças ou desafio é muito grande como dito acima, mas não o suficiente para passar desapercebido ao desenrolar da trama. O ponto alto dessa mecânica é justamente esse toque de exploratório que o jogo tem, com ares de suspense, porque você sabe que tem itens que se encaixam bem ao seu gameplay porém fica com medo de buscá-los, por diversos motivos: soldados, ratos, etc..

Aproveitando o gancho no cunho exploratório do jogo há de se destacar uma coleção de artefatos, plantas itens no jogo. Até o final do jogo achei meio inútil, e tinha na minha cabeça que o fator replay do jogo seria zero. Isso mesmo, acabe logo, deixa eu me emocionar com o final e pronto. Mas houve uma grata surpresa (não é spoiler), quando você termina o jogo você desbloqueia no menu inicial todos os capítulos, onde você pode reviver o momento, explorar e completar sua coleção. O que de fato não elevou tanto o fator replay, porém, de zero ele pelo menos passou a existir. Pra quem gosta do estilo e se apaixonar pelo jogo, esse fator se elevará (eu), mas pra quem não, praticamente passará desapercebido.

Conclusão

A Plague Tale: Innocence é uma grande obra de arte sim. Dentro desse contexto, de imagens de tirar o fôlego, história de valores que aos poucos vão se perdendo no mundo de hoje. Não só para os amantes do estilo, mas é algo que todos devem desfrutar, é sim uma compra obrigatória. Deve ser no mínimo postulante há alguns prêmios, assim como o Hellblade (não há como não os relacionar, devido a beleza das imagens, gráficos, imersão na história). Você irá se apaixonar pela Amícia e seu amor pelo Irmão, e se prepare, existem muitas surpresas nessa história, cheia de reviravoltas e amarrada de forma cuidadosamente ao ponto de uma narrativa quase perfeita. Tem seus problemas sim, mas que não tiram o prazer em momento algum da jornada. Joguem, apenas isso, joguem.

notas

Galeria de arte

Publicado
Saudosista apaixonado por quase tudo que é antigo: games, música, costumes, ele mesmo e o único titulo brasileiro do time de coração Atlético-MG. Fã de RPG e jogos de luta, jura que fazia fila no fliperama na década de 90.

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