Análise: Trek to Yomi é um dos melhores indies do ano

Assim que Trek to Yomi foi anunciado no ano passado pela Devolver Digital, eu fiquei extremamente animado. Primeiro porque o histórico da empresa tem só melhorado nos últimos anos, com indies incrivelmente inovadores. Segundo, porque a estética do jogo chamou muito a minha atenção, com aquela clássica pegada dos filmes de Akira Kurosawa. Terceiro, porque o jogo foi desenvolvido pela Flying Wild Hog em parceria com o criativo e promissor diretor Leonard Menchiari, responsável por The Eternal Castle, um jogo que virou praticamente um mito por conta da história por trás da sua criação. Se você quiser, inclusive, nós fizemos um vídeo dedicado sobre ele, mostrando como o enredo do jogo se conecta com a história de como ele foi criado. É bem interessante, e nós recomendamos muito que vocês deem uma chance a esse jogo, que é bem pequeno e tem um arte que também chama muito a atenção. Confira abaixo a nossa análise de Trek to Yomi:

A história de Trek to Yomi

Trek To Yomi nos coloca na pele de Hiroki, um samurai que jura proteger a sua vila, seus habitantes e Aiko, seu amor, após salvá-la das mãos de Kagerou, um invasor cruel que usa o seu exército para cometer as maiores atrocidades contra as populações que encontra pelo caminho em busca de poder. Assim que começamos o jogo, somos introduzidos ao contexto de Trek To Yomi, e vivenciamos a primeira invasão do vilão na pele de Hiroki ainda jovem. Esse início, que dura mais ou menos 1h, e é o mesmo que nós já mostramos no nosso preview do jogo, serve para demonstrar ao jogador um pouco do que virá pela frente e, claro, para explicar as mecânicas. Contudo, antes de falar do gameplay, eu gostaria de falar um pouco sobre a história, que é um dos pontos mais altos do jogo.

Trek To Yomi é mais do que um jogo de samurai. O título usa como pano de fundo o folclore japonês, mais especificamente da mitologia shinto, para contar uma história sobre vingança. Como você já deve saber, os samurais eram pautados pelo bushido, que é o código moral que ditava a forma de vida desses guerreiros durante o Japão Feudal. Nele, os samurais deviam lutar para defender o seu povo e seus líderes sempre norteados pela honra, e sempre que um desses tivesse a honra machada, eles deviam cumprir o seu dever de vingança. Trek To Yomi é exatamente sobre isso. Quando Kagerou invade a vila de Hiroki, mata o chefe Sanjuro e aniquila grande parte da população, o protagonista se vê na obrigação de ir atrás do vilão. 

Um Japão Feudal fiel com tudo que tem direito

Nessa jornada, o samurai passa por vilas, florestas, cavernas e, finalmente, pelo Yomi, o famoso mundo dos mortos da mitologia Shinto. E aqui está um dos pontos mais fortes do jogo. Trek To Yomi, ou Jornada para Yomi, na tradução livre, fala sobre as angústias de um samurai que perdeu tudo, e deve passar pelas provações mais árduas do mundo dos vivos e dos mortos, e enfrentar o seu passado para ter o direito de se vingar de Kagerou. Durante essa caminhada, o jogo vai contando detalhes sobre a mitologia Shinto através de pequenos diálogos e colecionáveis, que vão nos ensinando sobre os Kamis, Yokais, e a criação do mundo até a formação do ciclo da vida e da morte segundo o folclore japonês. Todo esse pano de fundo se mescla maravilhosamente com o roteiro do jogo, e junto com a direção incrível do Leonard Menchiari, o jogador é imerso em uma pequena amostra do Japão Feudal e das crenças japonesas. O jogo acerta muito nesse sentido e traz uma representação extramamente fiel, que prova que os desenvolvedores, que são ocidentais, fizeram uma pesquisa extensa e bastante responsável sobre a cultura e história do Japão.

A direção de arte, som e fotografia

O que realmente coloca a cereja no bolo de toda essa ambientação é a direção de arte, a trilha sonora e a dublagem, todos dignos de prêmio. Trek To Yomi possui um esquema de câmera que lembra muito jogos como Limbo e Inside, que acompanha o jogador lateralmente à medida que ele avança. O grande diferencial do jogo consiste em áreas que permitem uma exploração, mesmo que limitada, e na apresentação cinematográfica inspirada nos filmes clássicos de Akira Kurosawa. Como já explicamos na nossa prévia do jogo, Trek To Yomi faz um uso excelente dos planos da tela para trazer vida ao Japão Feudal, sempre colocando elementos desfocados no primeiro plano e um plano de fundo sempre rico e com animações que dão um certo dinamismo à imagem. Ao mesmo tempo em que o jogo vai apresentando cenas e áreas únicas, sempre maravilhosamente construídas pelos desenvolvedores, ele também vai utilizando as luzes para dar o tom de cada parte do jogo e fazer até referências a outras obras clássicas de samurai.

Junto com a parte visual, Trek To Yomi também trabalha muito bem a parte sonora, desde os efeitos e trilhas até à dublagem original em japonês. O jogo conta com dubladores japoneses renomados, como Akio Otsuka, conhecido pelo seu trabalho como Solid Snake de Metal Gear Solid, Masayuki Katou, de Overlord e Tales of Arise, e Hiroshi Shirokuma de Soul Calibur 6. Todos eles fizeram um trabalho de dublagem excepcional, que contribui muito para deixar o jogo com uma cara ainda mais cinematográfica. Aliado a isso, o jogo também conta com a produção, direção e composição musical de Cody Matthew Johnson, presente em Devil May Cry 5 e Resident Evil 2 Remake. Apesar de não ser natural do Japão, o jovem artista tem uma trajetória já consagrada em jogos japoneses, e novamente, trouxe uma trilha que dá perfeitamente o tom de cada momento, com temas mais sombrios no Yomi e épicos nas batalhas. Para fechar a parte sonora, o jogo dá uma ênfase incrível nos efeitos da natureza e do ambiente, com sons de chuva, vento, raios, e outros elementos. Aliás, todos esses efeitos sonoros andam em conjunto com a temática do jogo, que traz Kamis do folclore japonês, geralmente responsáveis pelos elementos da natureza. Tudo parece ter sido minuciosamente calculado, tornando Trek To Yomi uma obra de arte.

A jogabilidade de Trek to Yomi

Eu não poderia fechar essa análise sem falar sobre a jogabilidade do jogo em si. Como eu já mencionei, o jogo é um side-scroller à la Limbo e Inside com a adição de pequenos elementos de exploração. Conforme vamos andando pelas diferentes cenas, o jogo permite que o jogador saia do caminho definido e percorra lugares escondidos para encontrar colecionáveis e itens. Entretanto, o grande foco do jogo é, obviamente, o seu combate e eu gostei muito do que joguei. Apesar de ter mecânicas simples, Trek To Yomi traz diferentes combos utilizando os ataques fracos, fortes e a defesa e proporciona encontros desafiadores e visualmente lindos. Timing é chave tanto no ataque quanto na defesa, e o jogo vai exigir que o jogador utilize todo o repertório de Hiroki para passar pelos adversários.

Há diferentes inimigos, que servem para tirar o jogador da zona de conforto e usar ataques mais variados. Eu, por exemplo, fiquei uma boa parte do começo do jogo usando um ataque rápido que contra ataca logo antes dos inimigos começarem a animação de ataque, mas assim que me deparei com guerreiros com lanças e armas de maior alcance eu tive que mudar minha estratégia. Assim como em todos os elementos que eu mencionei, a impressão que eu tive que é tudo foi pensado de forma extremamente detalhada, e o resultado é que o título acerta em tudo a que se propõe.

Conclusão – Análise: Trek to Yomi

Para resumir essa análise, Trek To Yomi é mais um grande acerto da Devolver Digital e certamente um dos melhores indies dos últimos anos. Tanto a história, quanto a direção de arte e o gameplay são muito bem trabalhados e se complementam perfeitamente, imergindo o jogador no Japão Feudal e na mitologia Shinto. As referências do jogo são claras, e, felizmente, tanto a Flying Wild Hog quanto o Leonard Menchiari souberam construir em cima disso. Trek To Yomi é sem sombra de dúvidas uma das recomendações mais fáceis que o Última Ficha já fez, trazendo uma experiência memorável nas suas cerca de 6h de gameplay.

A análise de Trek to Yomi segue nossas diretrizes internas. Clique aqui e confira nosso processo de avaliação.

Trek to Yomi

Visual, ambientação e gráficos - 10
Jogabilidade - 9
Diversão - 9
Áudio e trilha-sonora - 10

9.5

Excelente

Trek to Yomi acerta em praticamente tudo a que se propõe, e entra no hall de melhores indies de 2022.

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Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.
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